A Assunção de Nossa Senhora ao Céu!

    Entre as Solenidades do ano litúrgico, celebramos hoje aquela que está fartamente consolidada no elementar tripé da fé católica: a Sagrada Tradição, o Magistério da Igreja e as Santas Escrituras. Trata-se, pois, da Assunção de Nossa Senhora ao Céu. O dogma proclamado pela Igreja não fala apenas sobre o fim da vida terrestre de Maria, mas lança uma luz divina sobre o próprio destino da humanidade. Em Maria, de corpo e alma glorificados na presença de Deus, contemplamos o que a graça divina é capaz de realizar na criatura que se entrega inteiramente à vontade do Pai.

    Para contemplar esse mistério da glória celestial, a Liturgia da Palavra nos conduz não a uma visão apocalíptica de trovões e nuvens, mas a uma cena profundamente humana, íntima e cheia de vida: a Visitação de Maria a sua parenta Isabel (Lc 1,39-56). O Evangelista Lucas registra que, logo após o anúncio do Anjo Gabriel, Maria “partiu apressadamente para a região montanhosa”. Maria não se fecha no privilégio de ser a Mãe do Redentor. Ela não guarda a graça para si nem exige ser servida. Pelo contrário: a verdadeira experiência com Deus impulsiona à missão e ao serviço aos irmãos.

    Ao cruzar a soleira da casa de Zacarias e saudar Isabel, algo extraordinário acontece. Em um salto de alegria, João Batista estremece no ventre de Isabel ao escutar a voz da Mãe do Senhor. Inspirada por Deus, Santa Isabel reconhece o Mistério e exclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!”. A glória da Assunção começa precisamente na pequenez desse serviço diário. O céu não é uma recompensa externa improvisada no fim da vida; é o florescimento pleno da caridade vivida na terra.

    Diante do louvor de Isabel, Maria não retém a glória para si. Ela eleva a voz no Magnificat, o grande cântico da Nova Aliança: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva.” No Magnificat, Maria revela a lógica do Reino de Deus que derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes; que enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias. Tal lógica é corroborada por este Sagrado Mistério da Assunção de Maria. Aquela que o mundo considerava uma jovem pobre e anônima de Nazaré foi elevada acima dos anjos e dos santos, coroada como Rainha do Céu e da Terra. Onde o orgulho humano busca erguer-se para dominar, Deus o lança por terra; onde a humildade se dobra para servir, Deus a eleva até os céus.

    Irmãos e irmãs, celebramos a Assunção de Maria não para olhá-la de longe como um privilégio inalcançável, mas para ver nela a nossa própria promessa. Maria, como se pode ver pelas Escrituras, foi a primeira a acolher o Cristo, abrindo caminho para os filhos e filhas de Deus que ainda hoje o acolhem pela Sagrada Eucaristia; Ela esteve fiel ao pé da Cruz, pela oração, ensinando-nos a também hoje e sempre permanecermos fiéis nos momentos de tribulação; Ela foi assunta ao Céu de corpo e alma, conclamando também a todos nós, às gerações futuras, para o Caminho da Ressurreição, Ressurreição da carne para a vida eterna. Assim, Maria é a primeira entre os remidos. O que Deus realizou nela em plenitude é o destino que Ele reserva para cada um de nós que perseverar na fé. O nosso corpo, a nossa história e as nossas lutas não estão destinadas ao pó nem ao esquecimento, mas à glória da ressurreição.

    Olhando para a Virgem Assunta ao Céu, peçamos a graça de vivermos com os pés bem firmes na terra, servindo aos irmãos com a mesma pressa e amor de Maria, mas com o coração sempre voltado para o Alto, repetindo solenemente e com convicção a resposta eucarística: “O nosso coração está em Deus”, de modo que assim, nossa vida diária, tecida de pequenos gestos de amor, fidelidade e humildade, seja um contínuo Magnificat, para um dia, juntamente com a Mãe de Deus, cantarmos os eternos louvores do Deus Emanuel, Deus conosco, Ele que está no meio de nós e que nos leva ao Céu. Amém.

     

    + fr. Diamantino Prata de Carvalho, ofm

    Bispo Emérito da Campanha, MG

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