Tudo deve ser graça de Deus!

    Estamos no XXIX Domingo do Tempo Comum e a Palavra de Deus segue conduzindo-nos ao desfecho de uma nova controvérsia no Templo de Jerusalém (Mt 22, 15-21). Apenas um domingo após contemplarmos a Parábola do Banquete Nupcial, onde o Rei enviava os seus servos às encruzilhadas dos caminhos para convocar os jovens dispersos para a festa da vida, os adversários de Jesus tentam capturar o Mestre através de uma armadilha política e religiosa: “É lícito ou não pagar o imposto a César?”

    A resposta de Jesus — “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” — ultrapassa qualquer mera norma jurídica ou tributária. Ao pedir a moeda do imposto e perguntar pela imagem e inscrição nela gravadas, Cristo aponta para uma profunda verdade. Naquele pequeno pedaço de prata estava impressa a efigie de Tibério César acompanhada da inscrição divinizadora do império. A moeda pertencia a César porque trazia a marca do imperador. Todavia, como recordava a Patrística da Igreja, na alma humana não está impressa a efígie de nenhum imperador ou ideologia deste mundo, mas a Imago Dei — a Imagem e Semelhança de Deus gravada no ato da Criação (Gn 1, 26-27) e restaurada no Batismo.

    Dando continuidade à reflexão do domingo anterior, quando o Evangelho desafiava os jovens a abandonarem o deserto da falta de sentido para vestirem a veste nupcial da graça, esta passagem lança uma luz direta sobre a batalha pela identidade da juventude no mundo contemporâneo. Hoje, as estruturas do mundo, o consumo desenfreado e as plataformas digitais tentam continuamente cunhar na alma dos nossos jovens a sua própria imagem e inscrição. O sistema secular tenta transformar o jovem em uma simples “moeda de troca” — medindo o seu valor pela sua produtividade, pela sua estética superficial, pela aprovação nas redes sociais ou pelo seu alinhamento com as modas ideológicas do momento.

    Diante dessa tentativa de padronização e de coisificação do ser humano, a resposta de Jesus é um brado de libertação. César pode exigir o imposto, a moeda e os serviços civis temporários, mas César jamais pode exigir o coração, a consciência e a dignidade do jovem! Nenhum governo, nenhuma tendência cultural e nenhum algoritmo tem o direito de se arvorar em proprietário do coração da juventude. Vocês, jovens, não são propriedade do mundo; vocês trazem o selo de Deus, a marca do Criador que os amou antes da fundação do mundo e os resgatou pelo Sangue de Cristo.

    Para os jovens que já estão no coração da comunidade paroquial, vivida no traje de festa do Banquete do Reino, esta consciência da Imago Dei deve gerar uma postura de coragem apostólica. Não permitam que o mundo os reduza a consumidores passivos ou a cidadãos conformados. A vivência da fé exige a astúcia santa de dar à sociedade o dever do testemunho e da cidadania reta, sem jamais negociar o que é sagrado: a verdade moral, a pureza do coração e a fidelidade a Deus. Vocês são chamados a recordar aos seus amigos e colegas de faculdade, de trabalho e de convivência social que a alma humana é profunda demais para ser preenchida pelas moedas efêmeras de César.

    E para os jovens que ainda vagam pelas encruzilhadas da vida, feridos pela busca angustiada de pertencimento ou iludidos por falsas promessas de prosperidade e status, o Evangelho deste Domingo proclama a sua dignidade inalienável. A beleza da Imagem de Deus em cada um de vocês pode ter sido obscurecida pelas poeiras do pecado, pelas dependências ou pelas desilusões, mas ela jamais foi apagada. Nenhuma queda e nenhuma rotulo do mundo pode apagar o selo divino que está gravado na sua alma.

    Ao nos aproximarmos da Mesa Eucarística, apresentamos a Deus a totalidade do nosso ser. Supliquemos que o Espírito Santo renove na juventude e em toda a Igreja a clareza dessa soberania divina: que saibamos cumprir com justiça os nossos deveres na cidade dos homens, mas que entreguemos unicamente a Deus aquilo que d’Ele recebemos por graça — a nossa liberdade, a nossa consciência e a totalidade do nosso coração.

    Dom Antônio Carlos Altieri, SDB.

    Arcebispo Emérito de Passo Fundo, RS.

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