Neste Terceiro Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos coloca diante de um momento decisivo da missão de Jesus: o início público de sua pregação e o chamado dos primeiros discípulos. A Palavra proclamada nos ajuda a compreender que a fé cristã não nasce de uma ideia abstrata nem de um sistema moral, mas de um encontro concreto com Cristo, que chama, ilumina e envia.
A primeira leitura (Is 8,23b–9,3), apresenta uma imagem forte e profundamente simbólica: o povo que andava nas trevas viu uma grande luz. Trata-se de um povo marcado pela dor, pela humilhação e pela perda da esperança. As regiões de Zabulon e Neftali, citadas pelo profeta, eram terras desprezadas, periferias de Israel, frequentemente invadidas e dominadas por povos estrangeiros. Ali reinavam a insegurança, a opressão e a sensação de abandono. No entanto, é justamente nessas terras esquecidas que Deus promete fazer brilhar a sua luz.
Essa profecia encontra seu pleno cumprimento no Evangelho deste domingo. Jesus inicia sua missão exatamente nessas regiões consideradas marginais, distantes do centro religioso e político. Isso não é um detalhe secundário, mas uma revelação da lógica do Reino de Deus: Ele começa pelas periferias, pelos lugares feridos da história, pelos corações cansados e desiludidos. A luz de Deus não surge onde tudo já está resolvido, mas onde a escuridão parece mais densa.
O salmo responsorial (Sl 26[27]) ecoa essa certeza ao proclamar: “O Senhor é minha luz e salvação; de quem terei medo?”. A confiança no Senhor nasce da experiência de sua presença. Quando Deus é luz, o medo não tem a última palavra. Quando Ele é salvação, a vida não fica refém das ameaças. O salmo nos convida a uma fé que não ignora as dificuldades, mas que se sustenta na convicção de que Deus caminha conosco.
Na segunda leitura, São Paulo escreve à comunidade de Corinto (1Cor 1,10-13.17) e faz uma exortação firme contra as divisões. A comunidade estava fragmentada, marcada por disputas internas, preferências pessoais e rivalidades. Paulo é claro: Cristo não está dividido. A cruz de Cristo não pode ser instrumentalizada para projetos pessoais ou grupos fechados. A fé cristã não é espaço para vaidades, mas para comunhão.
Essa advertência é extremamente atual. Também hoje, a Igreja corre o risco de se dividir por ideologias, gostos pessoais, lideranças ou visões parciais do Evangelho. Quando o centro deixa de ser Cristo, surgem as rupturas. São Paulo nos recorda que a unidade não é uniformidade, mas comunhão em torno do essencial: Jesus crucificado e ressuscitado.
Chegamos, então, ao Evangelho de Mateus (Mt 4,12-23), que nos apresenta três movimentos fundamentais da missão de Jesus: Ele anuncia, chama e forma.
Primeiro, Jesus anuncia: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. Conversão não é apenas abandonar pecados evidentes, mas mudar a direção da vida, rever prioridades, deixar que Deus ocupe o centro. Converter-se é sair das trevas e caminhar na luz. É permitir que a Palavra de Deus questione nossas escolhas, nossos hábitos e nossas seguranças.
Em seguida, Jesus chama. À beira do mar da Galileia, Ele encontra homens simples, pescadores que viviam do trabalho cotidiano. Não eram doutores da Lei, nem líderes religiosos, nem pessoas influentes. Ainda assim, Jesus os chama: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. O chamado de Jesus não se baseia em méritos humanos, mas na disponibilidade do coração. Ele não escolhe os mais preparados; Ele prepara os que escolhe.
A resposta dos discípulos é imediata: deixam as redes, o barco, o pai e seguem Jesus. Esse detalhe é fundamental. Seguir Jesus implica deixar algo para trás. Não se pode seguir o Senhor mantendo todas as seguranças intactas. As “redes” que precisamos deixar hoje podem ser o comodismo, o individualismo, o apego excessivo a bens, o medo de se comprometer ou a resistência à mudança.
Por fim, o Evangelho nos mostra Jesus formando os discípulos: Ele percorre a Galileia ensinando, proclamando o Reino e curando os doentes. A missão de Jesus é integral: toca a mente, o coração e o corpo. Onde o Reino chega, a vida é restaurada. E os discípulos são chamados a aprender esse mesmo modo de agir: anunciar com palavras, testemunhar com a vida e cuidar das feridas humanas.
Este Terceiro Domingo do Tempo Comum nos interpela profundamente. Somos chamados a reconhecer onde ainda existem trevas em nossa vida e em nossa sociedade, e a permitir que a luz de Cristo brilhe. Somos convidados à conversão contínua, que não se esgota em um momento, mas acompanha toda a vida cristã. Somos convocados a seguir Jesus com decisão, deixando para trás aquilo que nos impede de caminhar.
Ao mesmo tempo, a Palavra nos recorda que seguir Jesus não é um caminho solitário. Somos chamados em comunidade, para viver a comunhão e não a divisão, para construir a unidade e não os conflitos. Em um mundo marcado por rupturas e polarizações, o testemunho de uma Igreja unida em torno de Cristo torna-se ainda mais necessário e profético.
Que o Senhor nos conceda a graça de ouvir hoje o seu chamado, de responder com generosidade e de caminhar na luz do seu Reino. Que, deixando nossas redes, possamos seguir Jesus e nos tornar, com humildade e fidelidade, seus discípulos missionários.

