Com o limiar do Advento, a Igreja inicia um novo ciclo de sua vida no Espírito. Adentramos o Ano Litúrgico A, no qual o mistério de Cristo será desdobrado aos domingos, pedagogicamente, através da pregação e das lições do Evangelho segundo São Mateus. Esta transição, que marca a passagem do tempo da criação para o tempo da salvação, não é uma simples mudança de calendário; é um ato solene de fé. O Ano Litúrgico é o próprio Mysterium Salutis desdobrado no Kairos da história para nossa santificação.
O Evangelho de Mateus possui uma singularidade que o torna fundamental para a formação da consciência cristã. Escrito predominantemente para uma comunidade oriunda do judaísmo, ele tem como objetivo principal apresentar Jesus Cristo como o Messias prometido, o novo Moisés, que não veio para abolir a Lei, mas para levá-la à sua plenitude (cf. Mt 5, 17). O nosso Ano A é, portanto, um ano de profunda imersão na Doutrina de Jesus.
- O Fundamento Doutrinário de São Mateus
A estrutura de Mateus é inigualável, pois articula a vida de Jesus em cinco grandes blocos de ensinamento, que podem ser vistos como a primeira e mais importante catequese da Igreja. Estes são os cinco discursos que fundamentam nossa fé:
- O Sermão da Montanha (Mt 5-7): É a Carta Magna do Reino de Deus. Nele, encontramos o código ético e moral do cristão, desde as Bem-aventuranças até a exigência da perfeição (“Sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celeste,” Mt 5, 48).
- O Discurso Missionário (Mt 10): A instrução sobre a evangelização, o envio dos discípulos e o preço do discipulado.
- O Discurso das Parábolas (Mt 13): A revelação da natureza do Reino dos Céus e sua ação oculta e crescente na história.
- O Discurso Comunitário ou Eclesial (Mt 18): A fundação da Igreja, a autoridade, a correção fraterna e o perdão. É a base da nossa vida comunitária.
- O Discurso Escatológico (Mt 24-25): A vigilância, o juízo e o cumprimento da história, culminando com o critério definitivo de salvação: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25, 35).
Ao longo deste Ano A, seremos constantemente interpelados pela Doutrina Social da Igreja (DSI), pois Mateus nos lembra que a fé sem obras é vã (cf. Tg 2, 17) e que a nossa relação com Deus se verifica no cuidado com o irmão, especialmente o pobre (cf. Mt 25). A escuta atenta de Mateus não nos permite separar a Liturgia da Caridade.
- A Corresponsabilidade e a Campanha de Evangelização
A profunda catequese que o Evangelho de Mateus nos oferece se manifesta no nosso dever de corresponsabilidade eclesial. O amor a Deus exige a participação na missão da Igreja.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ao lançar a Campanha para a Evangelização neste período do Advento, nos convida a transformar nossa escuta da Palavra em ação concreta. A Evangelização, que é a tarefa primária da Igreja, não se sustenta apenas pelo fervor espiritual; ela exige meios materiais.
O Catecismo da Igreja Católica, em seu parágrafo 2043, nos recorda os Preceitos da Igreja, sendo o terceiro deles: “Os fiéis têm a obrigação de atender às necessidades da Igreja, de modo que ela possa dispor do necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade, e para o honesto sustento dos seus ministros.”
A Coleta da Evangelização é a expressão mais cristalina deste preceito no Brasil. Ela assegura que:
- A Evangelização chegue a todo o território: Sustentando as dioceses e missões mais pobres do Norte e Nordeste, onde a Igreja local não possui recursos para manter a formação de agentes, o trabalho pastoral e a caridade.
- A formação do Clero seja garantida: Investindo na preparação de novos ministros, que serão os responsáveis por anunciar a Palavra de Mateus nas próximas gerações.
- A Igreja mantenha sua presença institucional: Permitindo que os organismos eclesiais possam atuar em defesa da vida, da família e dos direitos humanos, pilares da Doutrina Social que emanam diretamente do Sermão da Montanha.
Neste Ano A, no qual São Mateus nos ensina sobre a Igreja, o Reino e a Missão, o amado Papa Leão XIV, sucessor do saudoso Papa Francisco, exorta-nos a não sermos meros ouvintes da Palavra, mas praticantes (cf. Tg 1, 22).
A nossa contribuição para a Campanha de Evangelização no terceiro domingo do advento é a prova de que o Discurso Comunitário (Mt 18) e o Discurso Escatológico (Mt 25) estão vivos em nossa Arquidiocese. Contribuir é afirmar: somos uma Igreja unida, que reza, estuda e partilha o seu pão material para sustentar o Pão da Vida.
Que este Ano A seja, para todos nós, um ano de conversão profunda e de generosidade incondicional, a fim de que, ao final da nossa jornada, possamos ouvir do Mestre as palavras que Mateus tão bem registrou: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado” (Mt 25, 34).



