A bem-aventurança da fé

                Há oito dias celebramos a Páscoa e a vida cristã vai se renovando a partir do mistério pascal. A oração da coleta do segundo domingo da Páscoa reza: “Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, o espírito que nos deu nova vida, e o sangue que nos redimiu”. A Palavra de Deus deste domingo (Atos 2,42-47; Salmo 117, 1Pedro 1,3-9 e João 20,19-31) relata a vida nova dos apóstolos após se encontrarem com o Cristo ressuscitado; o livro de Atos apresenta os traços das primeiras comunidade cristãs nascidas da fé no ressuscitado e Pedro reflete sobre a esperança viva e a fé dos batizados.

                “Bem-aventurados os que creem sem terem visto!” É a bem-aventurança da fé que Jesus pronuncia após se encontram com Tomé e pela segunda vez com os outros apóstolos. A primeira pessoa que recebeu este reconhecimento foi Maria, a Mãe do Salvador. Quando foi visitar sua prima Isabel foi-lhe dito: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1,45). A bem-aventurança da fé tem em Maria o modelo. Ela acompanhou Jesus em todos os passos, esteve presente aos pés da cruz e depois se manteve com os apóstolos reunidos no cenáculo em oração (At 1,14).

                A 1ª Carta de São Pedro também fala da fé. Com grande entusiasmo São Pedro indica aos recém-batizados as razões da esperança cristã e da sua alegria. “Pela ressurreição de Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível (…). Graças à fé, e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação (…) Isto é motivo de alegria para vós (…). Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação”.

                A comunidade cristã descrita no livro de Atos somente é compreensível e somente se torna real se for formada por batizados que vivem a bem-aventurança da fé. É uma nova geração e um novo modo de viver diferente de uma comunidade natural. Ela está estruturada sobre quatro colunas que sustentam o novo edifício espiritual. O primeiro é que “eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos”. Não existe comunidade cristã sem conhecimento dos fundamentos da fé, sem anúncio de Jesus Cristo, sem pregação (Rm 10,14). Uma comunidade cristã vive de Cristo ressuscitado e cresce graças à perseverança na adesão a Ele. A perseverança permite à comunidade cristã viver a fé não como algo adquirido para sempre, mas uma realidade dinâmica, que se expande e se aprofunda sempre mais.

                O segundo fundamento é a perseverança na “comunhão fraterna”. É a autêntica comunhão, não simplesmente uma amizade e nem uma sintonia de bons propósitos comuns ou motivações. A comunhão fraterna se realiza pela comunhão plena por meio de Jesus Cristo. Ele é a fonte da comunhão que passa pela preocupação mútua, pela partilha de bens materiais, pelo atendimento aos mais fragilizados e necessitados.

                O terceiro e quarto fundamento revela que eram perseverantes na “fração do pão e nas orações”. A fração do pão é o modo como São Lucas designa a Eucaristia (At 20,7). A comunidade se reunia para realizar aquilo que Jesus pediu: “Fazei isto em memória de mim”. Isto e, reunir-se e fazer memória da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus.

                Uma comunidade cristã faz a experiência de não estar reunida em torno de um ideal comum, por mais nobre que seja, mas em torno de Nosso Senhor Jesus Cristo vivo e ressuscitado. São os bem-aventurados da fé, os felizes e cheios de esperança sem terem visto.

    Artigo anteriorSonho da Glória
    Próximo artigoSegundo Domingo da Páscoa
    Arcebispo de Passo Fundo, dom Rodolfo Luís Webber ingressou em 1976 no Seminário Menor São João Vianney. Foi ordenado diácono em 17 de junho de 1990 e presbítero no dia 05 de janeiro de 1991, e bispo, em 15 de maio de 2009, para a prelazia de Cristalândia no Tocantins. Possui pós-graduação em Psicopedagogia e mestrado em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma. Durante a 53ª Assembleia Geral da CNBB, dom Rodolfo Weber foi eleito secretário do regional Centro-Oeste.

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Please enter your comment!
    Please enter your name here