De estrela do basquete a religiosa de clausura, sua história chega a ESPN

Há 28 anos, Shelly Pennefather era uma jovem promessa do basquete prestes a assinar um contrato por 200 mil dólares anuais; no entanto, seguiu o seu chamado à vida de clausura e agora sua vida foi relatada pela ESPN, uma das principais redes de televisão de esportes do mundo.

Shelly, que atualmente é a irmã Rose Marie e vive no Mosteiro das Clarissas em Alexandria, Virginia (Estados Unidos), é filha de Mike e Mary Jane Pennefather. Sua mãe tem 78 anos e vai à igreja todas as manhãs; ela sempre reunia toda a família para rezar o terço, enquanto seu pai, que morreu em 1998, foi quem lhe ensinou a jogar basquete.

Quando jovem, jogava na escola de ensino médio em Bishop Machebeuf, em Denver, e ganhou três campeonatos estaduais. Algum tempo depois, chegaria ao time Villanova, graças à amizade que fez com Harry Perretta, treinador desta universidade e que lhe compartilhou que também havia cultivado sua devoção a Nossa Senhora através do terço.

Perretta compartilhou com a ESPN que “no começo, ela era uma jogadora de basquete muito preguiçosa que não se esforçava na quadra, quando veio para cá”, por isso buscou se comunicar mais com ela.

No entanto, durante a segunda temporada, Shelly pensou que era melhor se mudar; mas sua companheira de equipe, Lisa Gedaka, lhe perguntou se não havia considerado que “talvez seja a vontade de Deus estar conosco aqui em Villanova”.

Shelly ficou e os sucessos continuaram chegando, pois acumulou 2.408 pontos e quebrou o recorde histórico de Villanova para mulheres e homens. Esta marca continua vigente. Além disso, em 1987, ganhou o Troféu Wade, que é concedido à melhor jogadora de basquete universitário feminino, e depois de se formar, assinou um contrato com o Nippon Express do Japão, país onde já não voltaria a ser a mesma.

“O ritmo no Japão foi muito mais lento (o Express jogou apenas 14 jogos em quatro meses), o que afetou Pennefather. Longe de seus companheiros da universidade e do caos diário de sua família numerosa, sentiu saudade e estava sozinha em uma cidade distante. Seu time começou perdendo todas as partidas. Se terminassem em último lugar, precisaria ficar no Japão por mais dois meses para jogar”, relata ESPN.

Assim, por causa de seu desejo de voltar para casa, ela fez uma promessa: se o seu time terminasse dentro dos seis primeiros lugares – o que lhe permitiria voltar por dois meses – passaria este tempo trabalhando como voluntária.

Sua equipe terminou em terceiro e quando retornou aos Estados Unidos, cumpriu sua promessa trabalhando no refeitório beneficente das Irmãs Missionárias da Caridade, em Norristown, Pensilvânia, uma obra missionária que a comoveu tanto que, depois desta primeira experiência, ela voltou todos os anos no verão.

Ao retornar ao Japão para a próxima temporada, Shelly se sentia ainda mais deslocada, por isso, mantinha-se ocupada lendo livros, aprendendo japonês ou ensinando inglês. No entanto, ainda sentia um vazio profundo. “Viu-se obrigada a entrar na solidão. Não havia ninguém mais. Apenas ela e Deus”, expressou John Heisler, um amigo de infância.

Em uma ocasião, foi convidada para um retiro e pediram-lhe que lesse João 6, 56, que diz: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”.

De acordo com a religiosa, isso mudou sua vida. Sentiu que Deus estava ali, 6 metros à sua frente. Continuou lendo e, quando fechou a Bíblia, fez uma oração silenciosa. No dia seguinte, entrou na igreja e, ajoelhada em frente ao tabernáculo, percebeu que não estava mais sozinha. Viu que “providencialmente nosso Senhor simplesmente me levou e me colocou lá, naquele lugar onde eu poderia desenvolver-me”, disse a irmã. “Senti que estava me pedindo para atender o seu chamado, que é a coisa mais difícil que já fiz. Mas sou grata por tê-lo feito e aqui estou. Enclausurada”, expressou.

Irmã Rose Marie diz que ama a vida que escolheu. “Gostaria que todos pudessem vivê-la um pouco para ver. É tão tranquila. Sinto que não estou subestimando a vida. Estou vivendo-a ao máximo”, expressou.

Quis compartilhar sua decisão

Shelly queria contar a novidade para seus amigos mais íntimos. Por isso, viajou para Nova Jersey e Pensilvânia para contar a Lisa Gedaka e Lynn Tighe.

“Lynn, eu nunca escolheria isso para mim. Eu nunca deixaria minha família e meus amigos. Mas isso é o que eu sou chamada a fazer. Eu sei. Deus está me chamando. E eu vou fazer isso”, disse.

No entanto, Tighe, Karen Daly e Kathy Miller, suas companheiras de time, queriam mais respostas e insistiram em ir ao mosteiro e conversar com a superiora para saber como era a vida de uma freira de clausura. Depois, chegaram a um acordo de que, em 2019, as três poderiam abraçar Pennefather quando comemorasse suas bodas de prata, como na família.

O treinador Perretta conseguiu fazer um acordo com as clarissas que todo verão enviaria algumas doações em troca de fazer uma visita anual à Irmã Rose Marie. Além disso, podem ligar para o mosteiro para lhe pedir orações.

Outro dos amigos com quem Shelly compartilhou sua alegria foi John Heisler, que também era apaixonado por esportes, histórias em quadrinhos e histórias sobre santos. “Fiquei fascinado por São Francisco de Assis, que finalmente ajudou Santa Clara a iniciar uma ordem chamada Clarissas”, conta a ESPN.

As companheiras de Shelly costumavam dizer que “ela faria uma das duas coisas em sua vida: casar-se com este rapaz com quem passou os verões ou tornar-se freira”.

Embora Heisler tivesse interesse pela jovem, também tinha recebido o chamado de Deus. Assim, quando se encontraram novamente em Virgínia, Shelly lhe disse que entraria para as clarissas. Isso foi, de certa maneira, libertador para seu amigo, que pôde seguir o seu chamado sem que nada o detivesse. Foi ordenado oito anos depois.

No caso de Shelly, quando entrou no mosteiro “foi com a roupa que estava no corpo: um vestido longo azul e um par de sapatos que nunca voltaria a usar”, relata o canal esportivo ESPN.

A reportagem conta que, quando se despediu de sua mãe, esta lhe disse: “Estarei aqui quando tiver 103 (anos), se você puder aguentar”. “Vou tentar”, respondeu a filha.

Durante todos os anos que passaram, a irmã Rose Marie viveu de acordo com as regras do mosteiro, onde as irmãs “dormem em colchões de palha, com o hábito completo, acordam todas as noites às 00h30 para rezar, sem descansar mais de quatro horas seguidas. Estão descalças 23 horas por dia, exceto quando caminham pelo pátio com sandálias”.

Do mesmo modo, podem receber até duas visitas familiares por ano, com quem conversam através de uma tela transparente, e uma vez a cada 25 anos, podem abraçar sua família. Também podem escrever cartas para seus amigos se eles lhe escrevem primeiro.

25 anos depois

Embora a irmã Rose Marie tenha entrado no mosteiro há 28 anos, fez a profissão de votos há 25, os quais foram celebrados em 9 de junho com uma missa celebrada pelo Bispo de Arlington, Dom Michel Francis Burbidge, que contou com a participação de sua família, companheiras de equipe, do treinador Perretta, outros entes queridos e de seu amigo Pe. John Heisler.

Pouco depois de terminar a homilia, foram abertas duas portas de madeira que dividiam a pequena capela onde a missa foi celebrada. “Ali estava ela, aos 53 anos, em pé na frente deles, sem tela”, expressou ESPN.

Desta forma, e sem examinar a multidão, voltou seu olhar para onde a sua mãe estava sentada e seu rosto se iluminou.

Para cumprimentá-la, foi feita uma fila e a primeira a abraçá-la foi a sua mãe, Mary Jane. A irmã Rose Mare abriu os braços enquanto ela se aproximava.

Com Pe. Heisler, deram-se um abraço fraterno. A religiosa disse: “tomamos a decisão certa”. “Eu não me arrependo”, respondeu o sacerdote.

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