Estimados irmãos e irmãs, o seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo nos traz grandes alegrias. De fato, é bom estar na presença d’Ele, que é o sentido último de nossa existência. Estar nesse caminho também exige de cada um uma atitude de vida distinta do mundo. Ou estamos com Cristo ou estamos com o mundo; cabe a nós decidir e renovar cotidianamente as promessas do nosso Batismo, que nos vão conformando à vontade do Senhor.
A liturgia deste 22° Domingo do Tempo Comum é instigante e clara: o Messias que seguimos é o da Cruz, que se faz servo e entrega a vida por amor em vista da nossa salvação. Ele também nos convida a acompanhá-lo. Somos livres para decidir: você aceita a Cruz também?
O livro de Jeremias é uma das obras proféticas mais belas da Sagrada Escritura. Ali, contemplamos momentos fortes da relação honesta entre Deus e o profeta. Chamado desde muito jovem para anunciar a Palavra, Jeremias enfrenta percalços desafiadores na sua trajetória. Em muitos momentos, pensa em desistir, em abandonar tudo, pois acredita já não ser capaz de suportar as perseguições e injúrias que recebia. Chega até mesmo a censurar em prece o próprio Deus, confessando sua amargura e frustração. Ele fora enviado por Deus para “arrancar e destruir, exterminar e demolir” (Jr 1,10), e o que anunciou gerou muita inveja, calúnia e revolta por parte dos seus opositores — gente que não queria mudar de vida nem ouvir a voz do Senhor que falava pela boca do profeta. Diante da desolação, Jeremias tenta fugir da missão, porém o Espírito de Deus é mais forte: é o fogo ardente que inflama o seu coração. Nesse momento, o profeta reza essa prece tão profunda que ouvimos na primeira leitura – Jr 20,7-9 –: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir” (Jr 20,7). Não há como escapar do amor de Deus, que nos envolve e une de modo esponsal a nossa alma a Si.
Em nossa caminhada cristã, por vezes somos atribulados por lutas espirituais: uma doença, um conflito familiar, uma crise financeira, um acidente, uma traição, uma calúnia. Nesses momentos, podemos até chegar a duvidar de Deus; a revolta e a frustração tornam-se opressoras e nos sentimos sufocados, angustiados. Quando isso ocorre, precisamos ser sinceros com o Senhor e abrir o coração, pois somente Ele pode nos retirar dessa noite escura. O profeta confessou o seu padecimento e, então, sentiu a força restauradora da graça, que renovou o seu espírito e trouxe ânimo para seguir. No nosso Batismo, recebemos a marca de filhos de Deus e, no dia da Confirmação, os sete dons do Espírito Santo. Eles são o fogo ardente que nos sustenta e estão à disposição de nossa fé. Kierkegaard, filósofo cristão, constatou que o desespero é o oposto da fé e nos conduz à ruína interior. Quem se desespera perde a ancoragem na confiança filial e esvazia o sentido da vida; quem persevera na oração honesta, mesmo em meio à dor, ergue a cabeça com esperança.
Essa tensão entre o chamado divino e o peso do sofrimento encontra seu pleno significado no Evangelho deste dia – Mt 16,21-27 –. Em continuidade ao relato do último domingo, após Pedro ter professado que Jesus é “o Messias, o Filho do Deus vivo”, o Mestre passa a instruir abertamente os discípulos sobre o destino que O aguarda em Jerusalém. Os apóstolos, ainda apegados a uma expectativa triunfalista e mundana de poder, são confrontados pela realidade da paixão: o Cristo deve sofrer muito, ser rejeitado, morto e, ao terceiro dia, ressuscitar. Diante desse anúncio, Pedro toma Jesus à parte e O repreende, recusando a ideia de um Messias crucificado. A resposta do Senhor é contundente: “Afasta-te de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens”. A situação de Jesus é muito parecida com a do profeta Jeremias. Assim como o antigo profeta suportou a solidão, o deboche e a rejeição dos seus contemporâneos por causa da Palavra, Jesus caminha resolutamente em direção ao Calvário, enfrentando a incompreensão até mesmo dos Seus amigos mais próximos. Todavia, onde o profeta expressava a fragilidade humana perante o fardo da missão, o Filho de Deus abraça a Cruz voluntariamente, transformando o instrumento de suplício no altar do sacrifício supremo que redime a humanidade.
O exemplo de Cristo nos ensina que a lógica do Reino de Deus subverte os critérios humanos: é preciso perder para ganhar. Perder a vanglória passageira e a ilusão de autossuficiência para acolher a vida eterna. Como nos exorta São Paulo na Carta aos Romanos – Rm 12,1-2 –, somos chamados a oferecer nossos próprios corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Não há espaço para um discipulado brando, feito sob medida para as conveniências do subjetivismo moderno. O seguimento autêntico exige abraçar a cruz cotidiana: renunciar ao egoísmo, suportar a incompreensão por amor à verdade e perseverar na fidelidade ao Evangelho.
Que a liturgia deste domingo renove em nós a coragem de assumir a nossa vocação cristã sem reservas ou meias verdades. Assim como sustentou Jeremias nas horas mais sombrias de sua desolação e conduziu Nosso Senhor Jesus Cristo à vitória definitiva sobre a morte, o Espírito Santo deseja arder em nossas almas com esse mesmo fogo transformador. Diante das tribulações do tempo presente, que não nos deixemos abater pelo desespero nem seduzir pelas ilusões de uma fé sem sacrifício. Aproximemo-nos do altar eucarístico com o coração aberto e sincero, para que, alimentados pelo Corpo e Sangue do Senhor, sejamos fortalecidos no caminho estreito. Que a nossa entrega seja diária, generosa e cheia de filial confiança naquele que nos amou primeiro, transformou a dor da Cruz em instrumento de redenção e nos garantiu a plenitude da ressurreição na glória do Reino eterno.


