Ao celebrarmos o dia 20 de janeiro, o coração da “Cidade Maravilhosa” bate mais forte. Não se trata apenas de um feriado municipal ou de uma data no calendário civil, mas do dia em que a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e todo o povo carioca se voltam para o seu glorioso padroeiro. Celebrar São Sebastião é celebrar a própria identidade desta terra, que nasceu sob o signo da fé e do combate espiritual em defesa da verdade.
Olhar para a imagem de São Sebastião – o jovem soldado, o mártir, o Miles Christi – é olhar para um espelho onde a história da Igreja e a história do Rio de Janeiro se encontram de forma providencial. Como nos recorda a tradição e os textos que meditamos ao longo dos anos, incluindo reflexões, pronunciamentos e homilias que pronunciei desde a minha chegada nesta Arquidiocese, Sebastião não é um mito distante, mas uma presença viva na comunhão dos santos que intercede por nossas lutas diárias.
A hagiografia nos conta que Sebastião viveu no século III. Era um homem de confiança do Império, capitão da Guarda Pretoriana. Ele servia aos imperadores terrenos, Diocleciano e Maximiano, mas, no silêncio do seu coração e na prática de suas obras, servia a um Imperador maior: Jesus Cristo.
É impressionante notar a atualidade de sua postura. Sebastião vivia no mundo, tinha uma profissão secular, lidava com as estruturas de poder de sua época, mas não se deixava corromper por elas. Ele usava sua farda não para oprimir, mas para servir aos irmãos perseguidos. Dizem as atas de seu martírio que ele era o anjo da guarda dos cristãos encarcerados, levando a Eucaristia e a palavra de ânimo àqueles que iam ser lançados às feras.
Quando sua fé foi descoberta, a sentença foi cruel. Amarrado a um tronco, foi alvejado por flechas. Os algozes, crentes de que o haviam matado, deixaram-no lá. Mas a Providência Divina tinha outros planos. Socorrido pela viúva Irene, Sebastião sobreviveu. E aqui reside o ponto central de sua santidade heroica: ele poderia ter fugido. Poderia ter vivido o resto de seus dias escondido, como um sobrevivente silencioso. Mas o amor a Cristo o impeliu a voltar. Ele apresentou-se novamente diante do Imperador para repreendê-lo por sua injustiça contra os cristãos. Desta vez, o martírio foi consumado com açoites até a morte, e seu corpo jogado na Cloaca Maxima de Roma, de onde foi resgatado para ser sepultado nas catacumbas.
Este duplo martírio – o das flechas (incruento, pois sobreviveu) e o dos açoites (cruento) – nos mostra que a fidelidade a Deus não conhece meias medidas.
A devoção a este santo chegou ao Brasil com os portugueses, mas foi aqui, na Baía de Guanabara, que ela criou raízes profundas e definitivas. A fundação da nossa cidade está intrinsecamente ligada à intercessão de São Sebastião.
Remontamos ao ano de 1565. Estácio de Sá fundou a cidade num contexto de batalha. Havia a necessidade de expulsar os invasores franceses calvinistas que ameaçavam a unidade do território e a fé católica na terra de Santa Cruz. A batalha decisiva aconteceu em 20 de janeiro de 1567, na região de Uruçumirim (atual Outeiro da Glória/Flamengo). Conta a piedosa tradição – e os relatos da época – que o próprio São Sebastião teria sido visto lutando ao lado dos portugueses e dos indígenas temiminós, liderados por Arariboia.
Naquele dia, Estácio de Sá foi ferido por uma flecha envenenada, vindo a falecer posteriormente, selando com seu próprio sangue a fundação da cidade que levaria o nome do santo: São Sebastião do Rio de Janeiro. Portanto, o Rio nasce sob o signo do martírio, da luta e da vitória da fé. O sangue do fundador mistura-se, misticamente, ao sangue do padroeiro.
Por isso, a relação do carioca com o santo não é superficial. O povo do Rio de Janeiro, que tantas vezes sofre com a violência urbana – as “flechas” modernas que ferem inocentes em nossas comunidades –, encontra em São Sebastião alguém que entende a dor, que entende o ferimento, mas que, acima de tudo, aponta para a esperança da ressurreição.
Refletindo sobre a imagem clássica do nosso padroeiro, vemos as flechas que perfuram sua carne. Para o olhar humano, é a imagem da derrota. Para o olhar da fé, é o troféu da vitória. As flechas não conseguiram matar a alma de Sebastião.
Hoje, nossa cidade também é alvejada. Somos alvejados pela desigualdade, pela falta de paz, pelo desrespeito à vida humana desde a concepção até o fim natural, e pelas ideologias que tentam esvaziar o sentido transcendente da existência. No entanto, assim como Sebastião não desanimou e, curado, voltou a anunciar o Evangelho, o cristão carioca é chamado a ser esse sinal de contradição.
A fé desta cidade é resiliente. Vemos isso na procissão de São Sebastião, que anualmente reúne multidões, faça chuva ou faça sol. É uma demonstração pública de que o Rio de Janeiro não pertence ao caos, mas pertence a Deus. Quando carregamos o padroeiro pelas ruas do Centro, da Tijuca até a Catedral, estamos reafirmando que os valores do Evangelho – a caridade, a verdade, a justiça e a paz – são os verdadeiros alicerces desta metrópole.
São Sebastião foi fiel até o fim. Ele não negociou sua consciência. Num tempo em que o relativismo impera, onde “tudo é verdade e nada é verdade”, a firmeza do Soldado Sebastião nos convoca a uma coerência de vida. Não podemos ser cristãos apenas dentro da Igreja; precisamos ser cristãos na política, na economia, na cultura e nas relações sociais.
Neste dia festivo, elevamos nossas preces. Pedimos a São Sebastião que olhe pelo sucessor de Estácio de Sá e por todos os governantes, para que busquem o bem comum. Pedimos que olhe pelos nossos irmãos que vivem em situação de rua, pelos doentes nos hospitais e pelos encarcerados – lembrando que o próprio santo foi visitador de cárceres.
Que o exemplo de São Sebastião nos inspire a não temer aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Que a sua proteção nos livre da peste, da fome e da guerra, como rezamos na ladainha antiga. E que o Rio de Janeiro, fiel à sua origem e ao seu nome, continue sendo uma terra de fé, onde o Cristo Redentor, de braços abertos, acolhe a todos sob o olhar atento de seu mártir protetor.

