Na manhã de Sábado Santo, um silêncio absoluto e denso cobre toda a face da terra. Ao cruzarmos as portas das nossas igrejas no dia de hoje, somos imediatamente tomados por uma sensação de vazio e despojamento que nos corta a alma: não há celebração eucarística, as luzes estão apagadas, os sinos emudeceram completamente, os altares permanecem desnudados de suas toalhas e, o que mais nos fere o coração, os sacrários estão abertos e vazios. A lamparina vermelha, que durante todo o ano nos indica a presença viva do Senhor, hoje está extinta. É o dia em que a Igreja Católica, como uma mãe profundamente enlutada, senta-se no chão poeirento, junto ao sepulcro do seu Senhor, meditando na Sua paixão e morte, e aguardando, na força da fé, a Sua gloriosa ressurreição.
Para compreendermos a magnitude espiritual deste dia, precisamos recorrer à antiquíssima homilia sobre o Grande Sábado Santo, um tesouro inestimável preservado na nossa Liturgia das Horas, de autoria desconhecida, mas de inspiração divina. Ela descreve de forma magistral e poética este momento: “Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos”.
O Sábado Santo é, por excelência teológica, o dia do repouso. No livro do Gênesis, a Sagrada Escritura nos ensina que, após a magnífica obra da primeira criação, “Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele repousou de toda a obra da criação” (Gn 2,3). Hoje, o Verbo Encarnado, o Filho de Deus, tendo concluído a nova e definitiva criação da humanidade no altar do madeiro da cruz, com o seu brado final de vitória “Tudo está consumado” (Jo 19,30), repousa no sono da morte. Ele desceu à nossa condição mortal para que nós pudéssemos ascender à Sua condição divina.
Mas que não nos enganemos: este sono divino do Filho não significa inatividade ou derrota. A teologia da nossa Santa Igreja nos ensina que, enquanto o Seu corpo sagrado repousa no sepulcro escavado na rocha e selado pela grande pedra, a Sua alma humana, unida inseparavelmente à pessoa divina do Verbo, desce à mansão dos mortos. O apóstolo São Pedro nos revela este mistério insondável de forma cristalina em sua primeira carta: “Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados – o Justo pelos injustos – para nos conduzir a Deus. Padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado no Espírito. É neste mesmo Espírito que ele foi pregar aos espíritos na prisão” (1Pd 3,18-19).
Esta é a teologia da descida aos infernos. Jesus desce às profundezas da escuridão humana, lá onde a morte parecia reinar absoluta desde a queda original. Ele vai ao encontro do primeiro Adão, vai ao encontro de Eva, e de todos os justos do Antigo Testamento – os patriarcas, os profetas e os justos – que aguardavam ansiosamente a redenção no chamado Seio de Abraão. Ele desce não como um condenado, mas como um Rei Vitorioso que arromba as portas da morte para resgatar os cativos. Retomando a antiga homilia, imaginemos a voz de Cristo ecoando nas trevas ao tomar Adão pela mão: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo e ordeno a todos os que estão na prisão: Saí! E aos que estão nas trevas: Iluminai-vos! E aos que dormem: Levantai-vos!”.
Enquanto este combate vitorioso e invisível acontece nas profundezas, o mundo visível chora e se desespera diante da evidência crua do túmulo. O Evangelho de São Mateus é irrefutável ao relatar as condições terríveis e frias deste repouso: “José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que ele havia mandado escavar na rocha. Depois, rolou uma grande pedra à entrada do túmulo e foi-se embora” (Mt 27,59-60). Aos olhos humanos e limitados dos discípulos, tudo estava perdido. A pedra que selou o túmulo parecia ter selado também todas as promessas de salvação. Os corações dos apóstolos estavam tomados pelo medo, pela covardia e pela desilusão. Eles se trancaram no Cenáculo por medo dos judeus (cf. Jo 20,19).
Neste momento de absoluto eclipse espiritual da Igreja nascente, a fé do mundo inteiro refugiou-se e sustentou-se em um único e imaculado coração: o coração da Santíssima Virgem Maria. A liturgia popular consagra este dia a Nossa Senhora da Soledade, a Virgem Dolorosa que experimentou a dor mais dilacerante que uma criatura pode suportar, a perda do único Filho. Mas Maria não foi ao túmulo no domingo de manhã para ungir um cadáver, como fizeram as outras santas mulheres. Por que Maria não foi? Porque Maria, que “guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19), mantinha acesa a chama inabalável da fé na promessa. Ela sabia, com a certeza dos predestinados, que a morte não conseguiria segurar o Autor da Vida. O Sábado Santo é, portanto, o dia mariano por excelência, o dia em que a Igreja inteira é sustentada pela fé inquebrantável da Mãe de Deus.
Como monge cisterciense, não posso deixar de recordar a sabedoria contemplativa de São Bernardo de Claraval, doutor da igreja, que nos adverte sobre a necessidade de abraçarmos o silêncio para escutarmos a Deus. Em um mundo contemporâneo dominado pelo ruído constante, pela pressa ansiosa, pela superficialidade das telas e pela incapacidade de esperar, o Sábado Santo nos ensina a virtude da paciência teologal. Quantas vezes na nossa própria vida nós vivenciamos “Sábados Santos”? Momentos em que nossas orações parecem bater no teto e voltar, momentos de luto profundo, de doenças incuráveis, de desemprego, de crises familiares, em que Deus parece estar terrivelmente em silêncio. A liturgia de hoje nos ensina que o silêncio de Deus não é ausência; é o momento em que Ele está agindo nas profundezas invisíveis da nossa alma, destruindo as amarras do nosso orgulho para nos ressuscitar com Ele.
Convido a cada um a fazer deste dia um verdadeiro e austero retiro espiritual nas suas casas. Desliguem os excessos de comunicação, recolham-se, façam jejum e permaneçam aos pés do sepulcro, fazendo companhia a Maria na sua Soledade. Limpemos as moradas dos nossos corações através de um profundo exame de consciência e do Sacramento da Confissão. A pedra do sepulcro do nosso pecado pode parecer pesada e impossível de ser removida pelas nossas próprias forças humanas. Mas nós, católicos apostólicos romanos, sabemos que a nossa fé não termina na tarde de Sexta-feira.
Logo mais, quando as sombras da noite cobrirem o mundo, nós retornaremos para romper o silêncio sepulcral de forma esplendorosa. Acenderemos o Fogo Novo no átrio da Igreja, ergueremos o Círio Pascal como a coluna de fogo que guia o novo Povo de Deus em meio às trevas, acenderemos as nossas velas e entoaremos com toda a força dos nossos pulmões e da nossa fé o majestoso canto do Exsultet. A morte será definitivamente esmagada sob os pés do Cristo Ressuscitado! Preparemo-nos, em oração vigilante, para viver a noite sagrada que é mais clara que o próprio dia, a soleníssima Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias, quando as portas do céu se escancararão e a vida triunfará para todo o sempre.



