Amedeo Lomonaco – Vatican News
Desde os primeiros momentos do Pontificado de Leão XIV, uma palavra recebeu imediatamente um amplo eco na mídia e entrou no coração dos fiéis, dos peregrinos e na trama do Ano Santo da Esperança. Trata-se do verbo desarmar, conjugado pelo Papa em formas e tempos que interpelam governantes e homens de boa vontade para fazer germinar a semente da paz, especialmente em terras abaladas pela lógica do ódio e da guerra.
Desarmada
A paz é, antes de tudo, uma ação realizada. O verbo desarmar é usado pelo Papa Leão no particípio passado para convidar a folhear páginas do Evangelho que se renovam em todos os tempos. Na mensagem para o 59º Dia Mundial da Paz, o Pontífice ressalta que a paz do Cristo ressuscitado provém de Deus.
A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais. Os cristãos devem tornar-se, juntos, testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices. A grande parábola do juízo universal convida todos os cristãos a, conscientemente, agir com misericórdia.
Desarmante
A paz não é uma esperança que expira. O Papa Leão sublinha que esse dom “tem o poder manso de iluminar e ampliar a inteligência”. Ela resiste à violência “e a vence”. A paz é também uma projeção permanente. “Tem o fôlego do eterno: enquanto ao mal se grita ‘chega!’, para a paz — lê-se ainda na mensagem para o Dia Mundial da Paz — sussurra-se ‘para sempre’”. A verdadeira paz é isenta de ódio e de rancor. Ela brota da bondade e da ternura.
A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. «Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele (cf. Lc 2, 13-14). Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho.
Desarmando
A paz não é apenas uma esperança. Ela deve ser também uma ação a ser realizada para expressar uma simultaneidade entre os esforços e os passos concretos a serem dados para promover uma autêntica reconciliação. No gerúndio, o verbo desarmando é, sobretudo, um chamado a um compromisso cotidiano. No Angelus de 1º de janeiro de 2026, o apelo do Pontífice é uma exortação a edificar a paz todos os dias.
Caríssimos, com a graça de Cristo, comecemos hoje a construir um ano de paz, desarmando os nossos corações e abstendo-nos de qualquer tipo de violência.
Desarmar
Na filosofia, e não apenas nela, o tempo infinitivo expressa um horizonte sem limites. Ao se encontrar com os profissionais da comunicação, em 12 de maio de 2025, o Papa Leão convidou representantes da mídia de todo o mundo a estender esse esforço pela paz ao cotidiano.
Desarmemos as palavras e ajudaremos a desarmar a Terra. Uma comunicação desarmada e desarmante permite-nos partilhar uma visão diferente do mundo e agir de forma coerente com a nossa dignidade humana
Jesus não usa armaduras
A Palavra de Jesus é desarmada. Mas a Palavra de Deus — ressalta o Papa Leão na homilia durante a Santa Missa pelo Jubileu da espiritualidade mariana — é “viva” e “cortante”, mais do que “qualquer espada de dois gumes”. O Pontífice recorda a história de Naaman, comandante do exército do rei da Síria, mencionada no Segundo Livro dos Reis: “A sua armadura, aquela mesma que lhe proporciona fama, na realidade cobre uma humanidade frágil, ferida, doente. Esta contradição, encontramo-la frequentemente na nossa vida: às vezes, os grandes dons constituem a armadura para encobrir grandes fragilidades”. O Pontífice explica que o amor de Deus é gratuito. “Se Naaman tivesse continuado apenas a acumular medalhas para dependurar na sua armadura, acabaria por ser consumido pela lepra: aparentemente vivo, sim, mas fechado e isolado na sua doença”. Jesus nos liberta desse perigo; Ele que não usa armaduras, mas nasce e morre nu;
Paz desarmada e desarmante
Inúmeras guerras dilaceram o mundo hoje e, em muitos países, prevalece a lógica do rearmamento. Mas a esperança pela paz é perseverante, pois os tempos e os ritmos da história humana estão destinados a desarmar palavras e ações contra a fraternidade. Na primeira bênção Urbi et Orbi, em 8 de maio de 2025, o Papa Leão utiliza este verbo já em formas que, baseando-se no Evangelho, inclinam-se em direção à eternidade”.
A paz esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz desarmante, humilde e perseverante”.
O Papa Leão exorta a voltar o olhar para Jesus, “a nossa paz”. Cristo é, para o mundo, uma luz desarmada e misericordiosa que acompanha o homem em sua caminhada, inclusive e sobretudo nos momentos mais obscuros. Os governantes, em particular, são chamados a seguir o exemplo de Jesus e a empenhar todos os esforços para dar ao mundo o maior de todos os dons. Conquista-se sem armas: é a paz.


