O deicídio e o delator

    Por favor, não mudem o título, nem o leiam de outra forma. É isso mesmo, o deicídio humano provocou a maior hecatombe da nossa história. Mas também possibilitou nossa redenção. Mas também a possibilidade da ressurreição, quando a vítima que carregou consigo todos os nossos pecados, ressurgiu da morte e reacendeu nossa esperança. Falo, sim, do Cristo traído, entregue por um delator, cuja paixão e morte nos possibilitou purificar uma vida de trevas e desilusões e ver ressurgir de seu túmulo uma nova expectativa de vida. Se Cristo não ressuscitasse, vã seria nossa fé, já dizia o apóstolo.
    Deicídio, portanto, é o ato ou efeito de se matar Deus. Como se isso fosse normal! Um homicídio se pratica contra um semelhante; um patricídio contra o próprio pai; um fratricídio, contra um irmão. Nisso tudo somos doutores. A todo instante falsos juízes humanos se acham deuses e pensam fazer justiça com as próprias mãos, atentando contra a vida de iguais. Mas seria possível matar Deus? Foi. E o fizemos com a ajuda de um delator, um traidor do meio do povo. Praticamos o deicídio do amor total.
    Ironias à parte, o crime de Jerusalém continua a ser praticado em nossos dias. A cada atitude de prepotência, a cada conluio contra o direito, a dignidade, o bem-estar ou pensamento moral, político e religioso desrespeitado, tiramos a divina liberdade daqueles que se opõem aos nossos interesses. Esse é o jogo do individualismo, do partidarismo com cartas marcadas, do fanatismo cego e intransigente. Nesse clima de discordância e intolerância morreu Jesus.
    Matamos Deus. Não porque sua doutrina atrapalha os escusos interesses de uma minoria. Continuamos nossos atos deicidas quando o jogo de interesses que nos governa fala mais alto do que a cristalina verdade da justiça divina. Manter nossos privilégios e desdenhar das carências do outro, do grito dos oprimidos, das vozes que clamam por justiça, igualdade, fraternidade é matar Deus dentro de nós. Um crime coletivo, já que isoladamente nenhum ser humano seria tão petulante. Quem matou Jesus foi um conluio político. Também religioso. Uma nação inteira pode repetir esse crime, se não atentar para as artimanhas político-sociais que a governam. É preciso clareza de espírito nestas circunstâncias. É preciso fé nos revezes de uma crise que desconhece (ou teima em não enxergar) a verdade de um momento.
    Um delator nem sempre é simpático no conceito popular. Judas entrou para a história com seu beijo irônico e ambicioso. Pensava nas trinta moedas. Silvério dos Reis tinha interesses políticos ao denunciar Tiradentes, o visionário salvador de nossa pátria. Assim outros traidores, cuja ação delatora manchou suas biografias com o sangue de um amigo traído. Mas, ironicamente, acabaram contribuindo para um bem maior. A redenção, de uma forma ou de outra, vem a priori, revestida pela vitória da verdade.
    É isso o que celebramos nesta santa semana. Um crime de lesa-pátria não pode ser atribuído apenas aos dirigentes de um povo. A manipulação popular e a cegueira do povo foram os elementos que mais contribuíram para a condenação de Jesus. Continuam sendo. Se não atentarmos para esses detalhes históricos, continuaremos a praticar o deicídio contra nossa redenção, pois quando extirpamos Deus e sua justiça jogamos fora nossas possibilidades de redenção. Matar Deus é jogar no lixo sua doutrina e promessas de vida nova. Se quisermos que sua Justiça e misericórdia ainda brilhem e “façam novas todas as coisas”, precisamos de um novo olhar sobre aquele túmulo do passado. Ficou vazio. A vitória sobre a morte é coisa de Deus. Nunca conseguiremos matá-lo, extirpá-lo do nosso meio. Essa é nossa certeza, nossa esperança. A ressurreição ainda há de vir para todos nós. Até para asquerosos delatores. Porque, de certa forma, um delator é também profeta, quando faz sua denúncia em função de um anúncio. Do caos também pode emergir vida nova.

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