O culto ao coração de Jesus

    O culto ao Coração de Jesus remonta aos escritos dos primeiros teólogos e, sobretudo, se enraíza no texto mesmo da Bíblia. As Escrituras se referem centenas de vezes ao coração. No Evangelho é marcante a passagem que relata o fato do soldado romano que abriu o lado de Jesus morto na Cruz. Daí jorraram sangue e água (Jo 19,34), bem significando as graças redentoras dos sacramentos. Entretanto, somente na metade do século XVIII é que foi oficialmente instituída pela Igreja a festa em honra do Coração de Jesus, atendendo às solicitações formuladas  por santa Margarida Maria Alacoque. O fervor dos fiéis permitiu que esta veneração se tornasse uma comemoração solene celebrada na sexta-feira que segue a semana da Festa de Corpus Christi. Cumpre penetrar fundo na essência da devoção ao Sagrado Coração do Mestre divino.  Esta devoção faz com que o fiel entre no mistério da Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Cristo teve um corpo humano, possuindo assim coração que pulsou de amor pela humanidade que Ele viera remir. Ao ler os Evangelhos se percebe a compaixão que Ele teve pelos sofredores. Movido por esta comiseração foi que  Ele ressuscitou o filho único da viúva de Naim, tendo-se condoído com a tristeza daquela mãe.  Com ternura lhe diz: “Não chores” e realizou o notável milagre (Lc 7,11).  Quando as turbas foram a pé a  sua procura, Ele, ao descer do barco em que estava, segundo São Mateus,  “ao ver aquela multidão, condoeu-se dela e curou-lhes os enfermos” (Mt 14,14). Em seguida, como o lugar era deserto, multiplicou pães e peixes para dar de comer a mais de cinco mil pessoas (Mt 14,21). Este Coração de Jesus tão amoroso se inflamou de cólera ante a profanação do templo de Jerusalém e expulsou os vendilhões clamando: “Está  escrito::”A minha casa é casa de oração, mas vós fazeis dela um antro de ladrões” ( Mt 21,12-13). Acolheu, porém, sempre com ternura os pecadores arrependidos que O procuravam., como aconteceu com aquela pecadora na casa de Simão, o fariseu, numa das mais comovedoras cenas narradas no Evangelho (Lc 7,36-8,3). Ele sabia diagnosticar os sentimentos do ser humano e se mostrava compassivo lá onde reinava um sincero desejo de mudança de vida.   Eis porque o devoto do Coração de Jesus precisa saber compreender o próximo, envolvendo a todos numa caridade fraternal. Isso, contudo, só ocorre a quem se deixa envolver na dileção sem limites de um Deus que é oceano infinito de misericórdia Este Deus initerruptamente  pronto a perdoar como se lê no capítulo 11 do Profeta Oséias.  Com efeito, Israel cercado da ternura do Senhor Onipotente O abandonou, mas este Deus depois encontra um caminho de perdão para seu povo. São Paulo mostrou então  que o Coração  de Jesus fez refulgir nesta terra as quatro dimensões do amor. Assim desejou aos Efésios: “Que Cristo habite, pela fé, vossos corações e que vós, radicados e alicerçados na caridade, sejais capazes de compreender, com todos os santos, qual  seja a largura, ao comprimento, a  altura e a profundidade  isto é, o conhecer a caridade de Cristo, que ultrapassa qualquer conhecimento, de modo que sejais repletos de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,17-20). Eis porque o Coração trespassado de Jesus no Calvário é bem o lugar da conversão dos pecadores.  Toda conversão é de um valor imenso diante de Deus porque é a descoberta do pecado causa de tantas amarguras do divino Redentor. Dá-se deste modo a recuperação da graça santificante. Meditar no amor que palpita no Coração de Jesus é encontrar, de fato, a trilha da santidade. Esta devoção leva o cristão a desejar a configuração com o Coração de Jesus, atingindo o ideal alcançado por São Paulo. Este pôde asseverar aos Gálatas: “Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou” (Gl 2, 20-21). O Papa Pio XII na encíclica Haurietis aquas, assim se expressou: “desejando ardentemente opor segura barreira às ímpias maquinações dos inimigos de Deus e da Igreja, como também fazer as famílias e as nações voltarem ao amor de Deus e do próximo, não duvidamos em propor a devoção ao sagrado coração de Jesus como escola eficacíssima de caridade divina; dessa caridade divina sobre a qual se há de construir o reino de Deus nas almas dos indivíduos, na sociedade doméstica e nas nações, como sabiamente advertiu o nosso mesmo predecessor, de piedosa memória: “Da caridade divina recebe o reino de Jesus Cristo a sua força e a sua beleza; o seu fundamento e a sua síntese é amar santa e ordenadamente. Donde necessariamente se segue o cumprir integralmente os próprios deveres, o não violar os direitos alheios, o considerar os bens naturais como inferiores aos sobrenaturais, e o antepor o amor de Deus a todas as coisas”.(Mt 26-37). Tudo isto frutos opimos do culto ao Coração de Jesus! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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