A celebração da Solenidade da Epifania do Senhor reveste-se, na liturgia da Igreja, de uma importância capital para a compreensão do mistério da Encarnação. Se no Natal contemplamos o Deus que se faz carne na intimidade da Judeia, revelando-se aos pastores de Israel, na Epifania — termo grego epiphaneia, que denota “manifestação” — celebramos o desvelar deste mistério à totalidade das nações. É a festa da catolicidade da Igreja e da vocação universal à salvação.
O profeta Isaías, na primeira leitura (Is 60, 1-6), dirige-se a uma Jerusalém que necessita reencontrar sua identidade e vocação. “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60, 1). O profeta utiliza a dialética entre a luz e as trevas para descrever a realidade da intervenção divina. Enquanto “a escuridão cobre a terra e as trevas envolvem os povos” (Is 60, 2), sobre a Cidade Santa brilha a glória de Yahweh. Esta imagem possui uma força extraordinária para nós, que vivemos nesta Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Somos, no tecido urbano desta metrópole, a “Jerusalém” chamada a refletir a luz de Cristo. Em meio às sombras da violência, da desigualdade social e do secularismo que muitas vezes ofuscam a dignidade da pessoa humana, a Igreja não brilha com luz própria, mas, como a lua (mysterium lunae), reflete o Sol de Justiça que é o Cristo.
A responsabilidade dos cristãos cariocas é, portanto, imensa: não podemos permitir que a luz da fé permaneça “debaixo do alqueire” (cf. Mt 5, 15). A Epifania é um chamado à missão pública. As nações caminham para a luz, como profetiza Isaías, trazendo “ouro e incenso” e proclamando os louvores do Senhor (Is 60, 6). Vemos aqui prefigurada a adoração dos Magos e a entrada de todos os povos na Nova Aliança.
A segunda leitura, extraída da Carta aos Efésios (Ef 3, 2-6), oferece a chave teológica que unifica toda a liturgia desta solenidade. São Paulo fala do mysterion que esteve oculto ao longo dos séculos e que agora foi plenamente revelado em Cristo: os gentios são coerdeiros, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa. Aquilo que Isaías contemplou em visão profética e que Mateus narra na visita dos Magos, Paulo formula com precisão doutrinal: em Jesus Cristo, desaparecem as fronteiras religiosas, étnicas e culturais como critérios de acesso à salvação. A Epifania não é, portanto, um evento periférico, mas a manifestação do desígnio eterno de Deus, pelo qual todos os povos são chamados à comunhão na única Igreja, Corpo de Cristo, sacramento universal de salvação.
O Evangelho segundo Mateus (Mt 2, 1-12) narra o itinerário espiritual destes sábios do Oriente. Eles representam a busca da razão humana e a inquietude religiosa das culturas que, mesmo sem conhecerem a Revelação bíblica direta, buscam a Deus através da criação. “Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2). A estrela é o símbolo da graça preveniente, os semina Verbi (sementes do Verbo) presentes na história e no cosmos, que despertam o homem para a transcendência.
Contudo, a narrativa evangélica nos oferece uma lição eclesiológica fundamental: a estrela conduz os Magos até Jerusalém, mas não é suficiente para indicar o local exato do nascimento. Para encontrar o Menino em Belém, é necessária a mediação das Escrituras, guardadas pelos sacerdotes e escribas. A religiosidade natural precisa ser purificada e orientada pela Palavra de Deus. A Igreja, depositária das Escrituras, tem a missão insubstituível de apontar para Belém. Em nossa cidade, repleta de buscas espirituais difusas, cabe a nós, católicos, oferecer não apenas um sentimento vago de Deus, mas a pessoa concreta de Jesus Cristo, conforme testemunhado na Tradição e na Bíblia.
O contraste entre as atitudes dos personagens do Evangelho é interpelante. Herodes e as autoridades religiosas de Jerusalém possuem o conhecimento teológico — sabem citar o profeta Miqueias (Mq 5, 1) — mas não se movem. O saber, sem a conversão do coração, torna-se estéril. Os Magos, pagãos, põem-se a caminho. Herodes teme perder seu poder temporal; os Magos desejam submeter-se ao Rei Eterno. Isso nos alerta para o perigo de uma fé intelectualizada que não se traduz em adoração e seguimento.
Ao encontrarem o Menino com Maria, sua mãe, os Magos “prostraram-se diante dele e o adoraram” (Mt 2, 11). O ato de proskynesis (adoração) é o reconhecimento da soberania divina na fragilidade da carne. Abrindo seus cofres, oferecem dons que a Tradição patrística, na voz de São Leão Magno, interpreta cristologicamente: ouro para o Rei, incenso para Deus e mirra para o homem mortal.
Nesta Epifania, somos convidados a atualizar estes dons em nossa vida pastoral e comunitária:
Ofertamos o ouro quando vivemos a caridade e a justiça social, reconhecendo a realeza de Cristo nos pobres e marginalizados de nossa cidade. Como nos lembra o saudoso Papa Francisco, os pobres são os “guardiões do céu”.
Ofertamos o incenso quando recuperamos o sentido do sagrado em nossas liturgias, fazendo de nossas paróquias verdadeiras casas de oração, onde a fumaça do incenso eleva aos céus as súplicas de um povo que confia na Providência.
Ofertamos a mirra quando abraçamos nossas cruzes cotidianas e nos solidarizamos com os doentes e sofredores, ungindo as feridas da humanidade com o bálsamo da consolação cristã. A mirra, que servia para o sepultamento, anuncia que aquele Menino é o Redentor que dará a vida por nós.
Por fim, o texto sagrado nos diz que, “avisados em sonho… retornaram para a sua terra por outro caminho” (Mt 2, 12). O encontro com Cristo provoca necessariamente uma metanoia, uma mudança de mentalidade e de rota. Não é possível encontrar o Salvador e continuar trilhando os caminhos do egoísmo, da corrupção ou da indiferença. A Epifania nos envia de volta ao mundo (“sua terra”) transformados, missionários de uma nova esperança.
Que a Virgem Maria, a Sedes Sapientiae que acolheu os Magos, nos ensine a mostrar Jesus ao mundo. Que o Rio de Janeiro, contemplando o testemunho de nossa fé, possa também alegrar-se com a Luz que não conhece ocaso.



