Hosanas ao Filho de Davi!

    Com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, damos início à celebração da Páscoa do Senhor. Este dia reúne, de forma densa e simbólica, dois momentos fundamentais: a entrada de Jesus em Jerusalém e o anúncio solene de sua Paixão e Morte.

    A liturgia deste último domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens e deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz — que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus — apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.

    Na proclamação do Evangelho que precede a Santa Missa, antes da procissão, relembramos que Jesus chega a Jerusalém montado num jumentinho e acompanhado pela multidão, que o aclama com alegria. É uma demonstração de gratidão e carinho ao Mestre, depois de tudo o que Ele fez pelo povo.

    A primeira leitura — Is 50,4-7 — apresenta-nos um profeta anônimo, chamado por Deus a testemunhar, no meio das nações, a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os seus desígnios. Os primeiros cristãos viram neste “Servo” a figura de Jesus. Isaías, no cântico do Servo sofredor, antecipa com precisão o drama vivido por Cristo: a humilhação, as agressões, mas também a firme confiança em Deus. O Servo não recua diante do sofrimento, pois sabe que o Senhor está com Ele. Esse retrato cumpre-se plenamente em Jesus, que aceita a Paixão sem resistência, movido pela obediência e pelo amor. É importante lembrar sempre que o servo fiel, discípulo e autêntico profeta, não teme as perseguições por causa da missão, pois Deus é o seu auxiliador.

    A segunda leitura — Fl 2,6-11 — apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até o dom da própria vida. Jesus despoja-Se de tudo, não teve medo e, como verdadeiro Servo, viveu a experiência humana até a morte. Deus, porém, recompensou a sua fidelidade, exaltando-O na glória. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe. A Carta aos Filipenses introduz-nos no movimento da Encarnação e da Cruz: Cristo, sendo Deus, esvaziou-Se da sua glória, fez-Se servo, assumiu a nossa condição e obedeceu até à morte de cruz. A Cruz não é o fim, mas o caminho da vitória e da exaltação.

    O Evangelho — Mt 27,11-54 — convida-nos a contemplar a Paixão e Morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz revela-se o amor de Deus — um amor que nada guarda para si, mas que se faz dom total. O Evangelho da Paixão segundo Mateus narra, com sobriedade e profundidade, os últimos momentos da vida de Jesus. Mateus descreve o processo de julgamento e condenação do Justo por excelência. Os adversários unem-se para acusar e condenar, como subversivo, o homem de Nazaré. Destacam-se a sua dignidade diante das falsas acusações, o silêncio que revela autoridade, a entrega livre ao sofrimento, o perdão aos algozes e a fidelidade até o último suspiro. Jesus é vítima das autoridades, que não admitem contestação. Fiel ao Pai e ao povo até o fim, Ele não se desviou nem desistiu da missão que lhe foi confiada. A Cruz, que parecia sinal de fracasso, revela-se como manifestação suprema do amor e da glória divina.

    Ao longo do relato da Paixão, Mateus insiste no fato de que os acontecimentos estão relacionados com o cumprimento das Escrituras (cf. Mt 26,24.30.54.56; 27,9). Mesmo quando não o afirma explicitamente, ele liga os acontecimentos da Paixão de Jesus a figuras e fatos do Antigo Testamento, a fim de demonstrar que a Paixão e Morte fazem parte do projeto de Deus, previsto desde sempre. Essa insistência explica-se pelo fato de Mateus escrever para cristãos oriundos do judaísmo; por isso, recorre a citações e promessas do Antigo Testamento — conhecidas de todos — para demonstrar que Jesus é o Messias anunciado pelos profetas e cujo destino passa pelo dom da vida.

    Somente no Evangelho segundo Mateus aparece o relato da morte de Judas (cf. Mt 27,3-10; há outra versão em At 1,18-19). O episódio evidencia a iniquidade do processo e a inocência de Jesus. A forma como Mateus sublinha o desespero e o arrependimento de Judas deixa clara, por um lado, a inocência de Jesus e, por outro, o desnorte dos responsáveis pelo processo, empenhados em “lavar as mãos” e declinar responsabilidades.

    Também são exclusivos de Mateus o sonho da mulher de Pilatos (cf. Mt 27,19) e o gesto de lavar as mãos por parte do procurador romano (cf. Mt 27,24). Esses pormenores têm dupla finalidade: mostrar que Jesus é inocente — reconhecido até pelos romanos — e sugerir que não foi o império romano, mas as lideranças do próprio povo que rejeitaram Jesus e a sua proposta de Reino. Os pagãos reconhecem a inocência de Jesus, mas o seu próprio povo rejeita-O. A frase atribuída ao povo — “o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos” (Mt 27,25) — deve ser entendida nesse contexto teológico.

    Também é exclusiva de Mateus a descrição dos fatos que acompanharam a morte de Jesus: “o véu do Templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos, e muitos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade e apareceram a muitos” (Mt 27,51-53). Esses sinais, próprios da linguagem apocalíptica, sublinham a importância do momento e revelam que, apesar do aparente fracasso, Deus está presente, manifestando-Se como Salvador e libertador do seu povo.

    Finalmente, só Mateus narra o episódio da guarda do sepulcro (cf. Mt 27,62-66), com finalidade apologética. Diante do rumor de que o corpo de Jesus teria sido roubado, o evangelista apresenta esse relato para afirmar a verdade da ressurreição.

    São Mateus, cujo Evangelho ouvimos neste ano, refere ainda, após a purificação do templo, dois acontecimentos de caráter profético que revelam a verdadeira missão de Jesus. O evangelista diz: “Aproximaram-se d’Ele, no templo, cegos e coxos, e Ele curou-os”. Além disso, as crianças repetiam a aclamação: “Hosana ao Filho de Davi” (cf. Mt 21,14-15). Jesus contrapõe ao comércio e aos interesses a sua ação restauradora. Ele não vem como destruidor, mas como aquele que cura, acolhe e restitui a dignidade. Revela Deus como Aquele que ama, e o seu poder como o poder do amor. Assim, ensina-nos que o verdadeiro culto passa pelo cuidado, pelo serviço e pela bondade que restaura.

    Santo Agostinho, na sua busca pela verdade, procurou apoio nas filosofias humanas, mas reconheceu que elas não eram suficientes para conduzi-lo a Deus. Compreendeu que o homem, por si só, não alcança o divino. E afirmou que teria desesperado, se não tivesse encontrado Aquele que realiza em nós o que não podemos realizar por nós mesmos: Jesus Cristo, que desceu até nós e, no seu amor crucificado, nos toma pela mão e nos conduz ao alto.

    Não tenhamos medo de proclamar: “Hosana ao Filho de Davi!”. Nesta Semana Santa, somos chamados a peregrinar rumo à Cruz. Não tenhamos medo de tomar a nossa cruz de cada dia. Com o Senhor, caminhamos como peregrinos rumo ao alto. Buscamos um coração puro e mãos inocentes; buscamos a verdade e procuramos o rosto de Deus. Manifestemos ao Senhor o desejo de nos tornarmos justos e supliquemos: “Atraí-nos para o alto! Tornai-nos puros!”. Que se cumpra em nós a palavra do salmo: que pertençamos à geração dos que procuram o Senhor, “dos que buscam a face do Deus de Jacó” (Sl 24[23],6).

    Amém.

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