A liturgia desta noite santíssima de Natal envolve-nos nessa incrível história de amor que Deus quis viver com os homens. Fala-nos de um Deus que não hesita em vir ao encontro dos seus filhos peregrinos na terra para os abraçar, para fazer caminho com eles e para lhes dar Vida. Nesta noite, Deus apresenta-Se aos homens na figura de uma criança, frágil e indefesa, e pede-nos que o acolhamos no nosso coração e na nossa vida.
Nesta noite santíssima, o Pai fez resplandecer sobre nós a claridade da verdadeira luz, com a Encarnação do Filho Unigênito.
Na primeira leitura – Is 9,1-6 –, um profeta anuncia a chegada de “um menino”, da descendência de Davi, dom de Deus ao seu Povo; esse “menino” eliminará a guerra, o ódio, o sofrimento e inaugurará uma era de alegria, de felicidade e de paz sem fim. A primeira leitura se estrutura em dois polos: de um lado, as sombras, a morte e o jugo opressor; e de outro, a luz, a felicidade e a abundância da colheita. A passagem de um polo para outro se dá na novidade de que “nasceu para nós um menino (…) Príncipe da Paz” (Is 9,5). É a imagem do Antigo Testamento que prefigura o nascimento do Cristo, narrado no texto evangélico. O “menino” Jesus irá trazer alegria e felicidade ao povo de Israel, desolado por causa da invasão do Império Assírio. Trata-se de figura do “menino Jesus”, que trouxe luz e esperança ao povo imerso nas trevas da miséria, do sofrimento e do abandono.
O Evangelho – Lc 2,1-14 – apresenta a realização da promessa profética: Jesus, o “Menino de Belém”, é o Deus que vem ao encontro dos homens para lhes oferecer – sobretudo aos pobres e marginalizados – a sua salvação. A oferta da salvação que, através desse “Menino” nos é feita, vem embrulhada com ternura e amor. Tem, portanto, o selo de Deus. São Lucas ao apresentar os fatos históricos no relato de hoje, dá-lhes uma interpretação salvífica. Na cidade do rei Davi, Belém, nasce o Messias. Ele foi colocado em uma manjedoura, na estrebaria, uma vez que na hospedaria não havia lugar para a Sagrada Família. O Menino Jesus nasce em meio a pobreza, vulnerabilidade e fragilidade da existência humana, de modo que somente pessoas de coração puro e generoso poderiam reconhecer sua identidade divina. Os primeiros a receber a notícia do nascimento de Jesus são os pastores, pessoas pouco valorizadas. Graças ao anúncio do anjo a eles, tomamos conhecimento dessa Boa Notícia. Nascendo pobre, Jesus nos convida a evitar o consumo desenfreado e a viver com simplicidade, despojamento e alegria.
A segunda leitura – Tt 2,11-14 – convida-nos a reconhecer a graça de Deus que nos foi manifestada com a vinda de Jesus; e propõe que respondamos a esse dom com uma vida autêntica e comprometida, que nos leve a identificar-nos com Cristo e a realizar as suas obras. A maior manifestação da graça salvadora de Deus foi a vinda de Jesus. Salvando-nos por sua ressurreição, ele nos ensina a viver os valores do seu Reino.
O povo que andava na escuridão viu uma grande luz. A graça de Deus se manifestou: Jesus, o Príncipe da paz, veio até nós: alegremo-nos! Passemos pela porta santa da esperança do Deus Menino que nasceu para nos salvar! Santo e abençoado Natal para todos!
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR