Coração de Pastor

    Uma palavra de gratidão e de fé aos padres, no seu dia

    Queridos padres, irmãos no sacerdócio de Cristo, há um dia no calendário da Igreja em que paramos para agradecer por vocês. O dia 04 de agosto, festa de São João Maria Vianney, celebrado no dia 04 de agosto. Entretanto, no domingo anterior, dia 02 de agosto, rezamos pelas vocações ao ministério ordenado, por todos os bispos, padres e diáconos. Não é um agradecimento protocolar. É um gesto de fé, porque reconhecemos em cada padre um sinal visível daquilo que os olhos humanos sozinhos não alcançariam: a presença viva do Bom Pastor no meio do seu povo. Neste Dia do Padre, quero dirigir-me a cada um, das paróquias mais movimentadas das grandes cidades às comunidades mais distantes do interior, para dizer, com toda a simplicidade que aprendi na vida monástica: o Senhor os escolheu, e essa escolha continua sendo, todos os dias, uma boa notícia para o mundo.

    O chamado que atravessa os séculos: A Escritura nos apresenta, desde o Antigo Testamento, um chamado que não muda com o tempo: “Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Levítico 19,2). Esse chamado não foi feito para uma elite espiritual, mas ressoa de modo particular na vida de quem recebeu as mãos impostas do bispo e passou a agir, sacramentalmente, em nome de Cristo. O profeta Jeremias anuncia a promessa que continua se cumprindo em cada ordenação: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos conduzirão com inteligência e sabedoria” (Jeremias 3,15). Quando olho para os padres que Deus colocou no meu caminho ao longo da vida, reconheço ali essa promessa em carne e osso. Homens simples, muitas vezes cansados, que carregam um tesouro imenso em vasos de barro, como escreveu são Paulo aos Coríntios (2 Coríntios 4,7).

    O Papa Leão XIV, em sua recente mensagem por ocasião do Dia da Santificação dos Sacerdotes, lembrou algo que considero essencial para compreendermos o sacerdócio hoje: a santidade do padre não é um ideal distante nem um esforço solitário de perfeição. Ela nasce da união do coração humano, limitado e ferido, com o Coração aberto de Jesus. Como escreveu o Santo Padre, “a santidade que nos é pedida é um abandono confiante”, e é justamente aí que reside a paz de quem serve ao altar: não na própria força, mas na certeza de pertencer a Alguém maior.

    Um sacerdócio que se doa no cotidiano: Ninguém se torna santo isolado em seu gabinete ou fechado na sacristia. A santidade do padre se constrói na Eucaristia celebrada diariamente, na confissão que acolhe sem julgar, na visita ao doente, na escuta paciente daquele que chega cansado da vida. Cada gesto simples do ministério, o batismo de uma criança, a unção de um enfermo, a homilia preparada com esforço numa noite de sono curto, torna-se, aos poucos, um caminho de configuração a Cristo. Não existem compartimentos separados na vida de um pastor. Tudo, até o cansaço e o que parece tempo perdido, pode se tornar lugar de graça, quando oferecido com um coração disponível.

    Penso com carinho em São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, padroeiro dos padres, que costumava repetir uma frase que atravessou os séculos: “o sacerdócio é o amor do Coração de Jesus”. Ele viveu numa paróquia pequena, sem recursos, e ainda assim se tornou, pela simplicidade e pela entrega, um farol para gerações de sacerdotes. Sua vida nos ensina que a grandeza do ministério não depende do tamanho da comunidade nem da visibilidade da missão, mas da profundidade do amor que a sustenta.

    Servir sem se perder: Vivemos tempos em que muitos padres carregam responsabilidades acima do que humanamente se poderia esperar: paróquias extensas, comunidades carentes de tudo,  violência e insegurança, agendas que não têm fim, e ainda assim são chamados a permanecer serenos, disponíveis e alegres. É preciso dizer isso com clareza: o padre também precisa ser cuidado. A fraternidade presbiteral, o apoio dos bispos, o carinho do povo de Deus e, sobretudo, a vida de oração pessoal são o sustento que impede que o ministério se transforme em simples atividade.

    São Paulo escreveu aos Gálatas uma frase que sintetiza bem essa espiritualidade: “já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,20). Um padre que se apoia nessa certeza não se esgota, mesmo quando o corpo cansa, porque sabe que a fonte do seu ministério não está nele mesmo.

    Como pastor, gosto de repetir uma imagem que aprendi na juventude e que carrego como lema episcopal: “para que todos sejam um” (João 17,21). O padre é, antes de tudo, um construtor de unidade. Unidade entre as famílias que atende, entre os grupos e pastorais muitas vezes divididos por pequenas disputas, entre as gerações que convivem numa mesma comunidade com sensibilidades diferentes. Num tempo marcado por polarizações e desconfianças, o sacerdote que se deixa moldar pelo Coração de Cristo se torna, sem precisar de grandes discursos, um sinal de reconciliação e de paz.

    Uma palavra de gratidão: Quero, neste dia, deixar um pedido simples a todo o povo de Deus: rezem pelos seus padres. Rezem por nome, quando possível. Um padre sustentado pela oração da sua comunidade caminha mais leve, sente que não está sozinho na tarefa que Deus lhe confiou. E aos próprios padres, digo com toda a sinceridade de quem também é padre e bispo: não tenham vergonha de pedir ajuda quando o peso for grande demais. A santidade não exige heroísmo solitário. Exige, isso sim, humildade para reconhecer os próprios limites e confiança para entregá-los ao Coração que tudo acolhe.

    Gostaria de manifestar a minha proximidade espiritual aos padres idosos, enfermos e privados de seu ministério sacerdotal. A Igreja os ama e nunca os abandona. Deus os conforte nestes momentos de tribulação.

    Recordo a resposta que Samuel deu ainda jovem, no templo, ao ouvir a voz de Deus: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1 Samuel 3,10). Que cada padre possa repetir essas palavras a cada manhã, diante do sacrário, antes de sair a atender o seu povo. E que Maria, Mãe dos Sacerdotes, que guardou em silêncio o mistério do Filho, ensine a cada um de vocês a guardar e deixar pulsar dentro de si o Coração de Cristo, Salvador do mundo.

    A todos os padres, das grandes catedrais às capelas mais simples do nosso Brasil, a minha bênção, o meu abraço e a minha gratidão sincera. Feliz Dia do Padre. Vale a pena viver o ministério sacerdotal doado plenamente em favor da santificação do Povo de Deus!

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