Cartas do Padre Jesus Priante – Vocação

As cenas de vocação ou de um Deus que chama a certas pessoas para desempenharem uma missão ocupam um lugar relevante na narrativa bíblica. Significa que a vocação faz parte do ser humano na sua relação com Deus. Ele, como comentamos no domingo passado, não só fala como também chama. Chamou a Abraão, Jacó, Moisés, Samuel, Amós, Isaías, Jeremias, Ezequiel, sacerdotes, reis e profetas. Chamou o povo de Israel para sair da escravidão do Egito e ao seu próprio Filho: “Do Egito chamei meu Filho” (Mt. 2,15). Com o mesmo espírito vocacional de Deus, Jesus chamou a seus discípulos e a cada um de nós, chama, como Pastor de nossas vidas, “chamando pelo nome a cada uma das suas ovelhas” (Jo. 10,4). E reservou seu chamado especial para os mais pobres e pecadores (Lc. 5,32). São Paulo confessa ter sido chamado por Deus antes de nascer (Gl.5,13). “Ele nos chamou para sermos seus filhos, não por nossos méritos, mas por iniciativa e vontade de Deus” (2Tm. 2,9) E em Pe. 5,13 se diz:”Deus, de quem vem toda graça, nos chamou a partilhar em Cristo da Sua Glória eterna”.

Toda a pregação de Jesus inclui uma vocação ou chamada para lhe seguir. Poderia nos decepcionar, entretanto, quando Ele disse: “Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos” (Mt. 22,14).

A Parábola das Bodas na qual aparecem estas palavras têm um outro sentido. Jesus se dirige ao povo de Israel, chamado desde Abraão a ser povo da Sua intimidade, através do qual Deus revelava Sua Salvação ao mundo. Teriam de ser eles, antes do resto das nações a se alegrarem pela Salvação que lhes trazia a ser celebrada em festa nupcial: a união de Deus com eles e com todos os povos, através da Encarnação do seu Filho. Mas, “os seus (povo de Israel) não o receberam.” (Jo.1) Então, no seu lugar, Deus chamou o resto dos povos (os gentios), “bons e maus”, para participarem da Sua comunhão divina… Nem por isso, afirma São Paulo, o povo judeu será excluido. “Todo Israel será salvo” (Rm.11,26). Sua conversão ao cristianismo, segundo o mesmo São Paulo, será o último sinal do fim do mundo.

A razão de Deus ter-se feito Homem em Jesus de Nazaré foi e é para Salvação de todos: “Eu vim, para que todos tenham vida, e uma vida eterna e feliz” (Jo. 10,10). Até a nomenclatura deste versículo evangélico,10, 10, nos revela cem por cento a Salvação de todos.” Ele nos chamou e predestinou antes da criação do mundo” (Rm. 8,29). A vocação que, popularmente, temos atribuído no passado à profissão religiosa e, analogamente, à toda profissão humana, além de ser constitutiva de todo ser humano, tem um sentido salvífico. Ninguém veio a este mundo como intruso nem o será no Céu, todos fomos chamados à existência terrena por Deus de maneira pessoal e também o seremos ao terminarmos nossa viagem neste mundo.

Podemos contemplar nossa vocação divina em várias dimensões:

VOCAÇÃO ÔNTICA.

Por que há “ser” e não nada? É a grande questão filosófica, à qual São Paulo responde: “É quem Deus chama à existência, o que ainda não existe”(Rm.4,17). Nada mais, anticientífico, fantasioso e mítico do que pretender explicar o universo como fruto da explosão bola de gude do Big-Bang. Este mito em nada é diferente ao mito de Marduk, professado há 4.000 anos pelos povos da antiga Mesopotâmia (Iraque). O deus Marduk estava irritado porque não conseguia dormir devido ao barulho que faziam os numerosos filhos da deusa Tiamat. Resolveu matá-la e com seu corpo fez a terra, com seu sangue, as águas e seu, crânio o céu. Outros povos tem outros ainda mais fantasiosos.

Sem a ideia da criação nossa razão permanecerá sempre inquieta e errante à procura do berço deste mundo que habitamos. A ideia da criação foi revelada no século V a.C. ao povo de Israel .Deus criou do nada o céu e a terra e tudo quanto eles contêm. Esta grandiosa ideia racional é mais significativa se for entendida como vocação ôntica ou chamada divina a ser ou existir, de cada uma das suas criaturas. Todo ente criado recebe seu próprio nome: dia, noite, céu, terra, mar (Gn. 1) e Deus os apresentou a Adão para serem conhecidos por seu nome (Gn.2). O nome na cultura hebraica é o mesmo ser de cada coisa. Por isso, instintivamente, costumamos perguntar, para nos referir às pessoas ou às coisas: “como se chama?”, que seria o mesmo do que dizer a cada ente: quem te chamou a ser ou existir? Deus não seria Amor e, com Seu amor, teria criado o mundo se Suas criaturas fossem meros objetos, com nome, mas sem vocação ou chamada.

Tudo seria a trágica existência,percebida por Heidegger em “Ser e Tempo”(1927) um “estar aí” (dasein) “atirado”, “ser-para-a-morte”, sem dono, nem pastor, como Albert Camus se pensou, a si mesmo. Deus não apenas criou, como também chamou a cada uma das estrelas, plantas, animais, cada átomo da matéria ou célula de todo ente vivo. Nada escapa à sua amorosa mirada.

No meio do incontável número de criaturas, chamadas à existência, o ser humano tem uma vocação singular: “Cada pessoa, diz Kierkegaard, é um “prius” (primeiro) dentro até da sua mesma espécie ou comunidade humana, que não é soma de indivíduos, mas soma de unidades”. O próprio do ser humano é sua singularidade e dignidade. Deus ama a criação como um todo, mas chama e ama a cada pessoa em si mesma. É criada à sua imagem e, em Cristo, como filho, divinizada.

Kant atribui ao ser humano a “dignidade de ser fim” frente ao resto das criaturas que são apenas “meios”. A pessoa humana, dizia, não pode ser vendida, porque não tem preço.Só o que tem preço pode ser vendido ou trocado por outra coisa equivalente. O que é superior a todo preço, é singular, fim de si mesmo. É claro que não seriamos nós mesmos, se Deus não nos chamasse à existência para irmos a Ele.

Adorno, da Escola de Frankfurt (1940), sugere a necessidade de uma outra dimensão vocacional além do próprio ser : “Sobre o conceito do homem, se pode dizer ao menos algo negativo: não é mera parte ou forma do todo, nem ipseidade”. O mesmo podemos dizer de todas as crituras.

VOCAÇÃO EXISTENCIAL

Na filosofia distinguimos essência (o que cada coisa é em si) e existência (o que vem a ser no espaço e no tempo). Só Deus carece desta distinção. Ele é Sua própria existência. Foi assim que se revelou a Moisés: “JAVÉ = Eu sou”, aquele que é, embora em um sentido vital, de agir criativo e salvífico. Mais do que ser, Deus está presente.

O termo latino existência (ex-sistere)significa saída ou êxodo, ser a caminho. Nós e toda a criação saímos do abismo do nada pelo poder amoroso de Deus e empreendemos viagem para a Terra Prometida do seu Reino. Por isso, experimentamos a existência de maneira insatisfeita: o que semos tem de ser de outra maneira. “Toda a criação, diz São Paulo, espera como que em dores de parto sua glorificação, a plenitude do ser.” (Rm. 8). Nisto consiste nossa vocação existencial. Deus nos chama a sermos de maneira plena e gloriosa. Enquanto existimos e estamos a caminho no tempo e espaço, sofremos carências, dor e morte, que são o próprio grito de Deus que nos chama para sair de nós mesmos e do mundo para irmos a Ele. “Criaste-me para Ti”, diz Santo Agostinho, “e meu coração inquieto está até descansar em Ti”.

O sofrimento é a voz de Deus que nos diz: “Vocês estão no mundo, mas não são do mundo” (Jo. 17) Não partiremos no dia de nossa morte, como costumamos
dizer, mas será nesse dia em que, de fato, concluiremos nossa existência ou êxodo. “Que alegria quando me disseram, vamos à casa de Deus” (Sl.122) – é a melhor tradução da nossa vocação existencial.

Contra o optimismo cósmico: “este é o melhor dos mundos” de Leibniz (séc. XVII), Mounier é mais realista qualificando-o de “optimismo trágico” de (séc.XX). Participamos de uma situação trágica existencial a caminho do que realmente seremos em Deus.Só existe um pecado, disse Hegel: parar no finito. Não podemos ficar em nenhum shangrilá, mas “seguir adiante” e confiar em Deus, se as águas do mar da vida presente vierem a nos afogar.

VOCAÇÃO CULTURAL

Enquanto existimos, Deus nos chama a transformar nossa existência humana e a do mundo que habitamos. Chamamos esta maneira de sermos humanos de vocação cultural, da qual participam, regido por uma lei natural, de maneira inconsciente, o resto das criaturas.
Tudo move-se e adota novas maneiras de ser. Referido aos entes vivos em geral, essa vocação cultural ou chamada a uma segunda natureza, chamamos de evolução das espécies. A criação só estará acabada quando atingir sua meta: ser em Deus.

A vocação cultural é mais significativa no ser humano. Foi o próprio Deus quem, pessoalmente e não por mera lei natural, faz três milhões de anos, nos chamou no meio de uma multidão de primatas, que existiam há 200 milhões de anos antes de nós, para ficarmos de pé e, assim, contemplar o horizonte que sempre nos chama a sermos mais.”Move beyond”.

As plantas permaneceram no pé das suas raízes, os animais no chão do seu habitat, só o ser humano tem horizonte de peregrino e de progresso. Sua vocação cultural transforma-se em culto, pois não encontrando lugar onde ficar para sempre, levanta os olhos para o céu, de onde espera sua transformação transhumana de filho de Deus. Sem ela, o progresso cultural ao qual Deus nos chama será frustrado pela morte, que torna trágica a própria vida.

O progresso cultural não existe sem dimensão transcendente. Todas as gerações ficam no caminho antes de atingir sua meta. Estes dias dizia um admirador das novas tecnologias comentou: “Que pena que não
tenha pela frente mais cem anos para contemplar outras metas gloriosas da ciência”. Mesmo que tivesse um milhão, também ele ficaria na metade do caminho nesse horizonte que nunca toca o céu. É está a maior alienação do Comunismo e de todo ateu.

O teólogo alemão Pannenberg afirma que o final da Salvação ou de todo progresso está fora ou além da História. Metz, também teólogo alemão, diz que o mundo não está concluído e que, até o fim dos tempos, haverá o que ele chama uma “reserva escatológica” que pertence a Deus realizar. Podemos aplicar essa maravilhosa ideia para explicar o mundo a nós mesmos. Todos finalizamos nossos dias sem acabar de viver nossa própria vida. Deus fiinalizará o que Ele começou em nós, nos diz São Paulo. No cemitério deixaremos a tortura do pecado, da morte e da culpa.

VOCAÇÃO ECOLÓGICA

O ser humano é chamado culturalmente a progredir e cuidar de si mesmo e, como nos revela em Gn. 2,5, também a “cultivar” e cuidar do mundo em que habita, concretamente a terra, planeta escolhido por Deus entre bilhões de outros possíveis, para ser a sede da vida e casa do ser humano. Há dez mil anos, quando o ser humano começou a cultivar a terra, percebeu sua vocação ecológica, para tornar sua própria vida mais confortável e mais humana. Hoje esta nossa vocação ecológica se fez mais sensível. Percebemos que se não cuidarmos desta nossa casa, não teremos uma outra. Não é só a mudança climática o que nos ameaça, mas o abuso e consumo dos recursos deste nosso único lar. Ecologia significa em grego ciência (logos) da casa (oikia). Pertence ao ser humano, por estar dotado do dom da ciência, esta vocação ecológica à qual fomos chamados por Deus. O resto das criaturas esperam de nós terem também elas está maravilhosa casa.

Podemos cometer, dois pecados contra nossa vocação ecológica: não cuidarmos deste nosso planeta e suas criaturas, e um pecado maior, que seria cuidar de tudo e deixar o ser humano fora destes cuidados. Recentemente, na Espanha foi aprovado o direito dos animais, quase humanizados, como membros da propria família. Eles são declarados sencientes, a quem nós devemos dar o melhor trato não só físico, como também psicológico. Um cachorro irritado e nervoso poderia ser motivo de alguém processar seu dono. Em caso da separação do casal, pertence ao juiz, com o mesmo direito dado aos filhos, designar quem terá sua custódia.

Nos Estados Unidos, uma senhora deixou recentemente sua herança de mais de 50 milhões de dólares ao seu cachorro e descendentes dele. Este pecado de equiparar o animal ao ser humano, o Papa disse faz duas semanas, está pondo em perigo a espécie humana. São muitos os que preferem ter e cuidar de animais no lugar de terem filhos. Matar o feto de um animal tem maior pena do que matar um feto humano…

A Europa pretende legalizar o direito ao aborto, isto é, matar a criatura mais inocente e indefesa: o bebe no seio da mãe, que nem fugir pode da sua morte. O animalismo ameaça o humanismo e, com isso, pervertemos nossa vocaçao ecológica de cuidar das criaturas que Deus nos chamou em favor de nós mesmos (Gn, 1). “Tudo é vosso, diz São Paulo, vocês de Cristo e Cristo de Deus”.

Só seremos fiéis à nossa vocação ecológica se nos sentirmos chamados por Deus a habitar novos céus e nova terra.

É impossível cuidar e amar a terra se não esperamos o Reino de Deus, como não podemos amar ninguém se de fato morremos, nos diz Gabriel Marcel. Somos essencialmente transcendentes, chamados a ser além de nós mesmos e do mundo que em habitamos.

VOCAÇÃO TRANSCENDENTE

A transcendência, afirma K. Rahner, é a nota antropológica que nos define como humanos, embora toda a criaçao foi chamada a ser além de si mesma, imortal e gloriosa. Entretanto, não nos foi revelado que as estrelas, plantas e animais deixarão de ser criaturas para serem filhos de Deus, ainda que São Francisco chamou o sol, a lua e os lobos irmãos seus. E São Irineu (séc. II), recém proclamado Doutor da Igreja (são 37 o número que receberam este título) disse que no céu também estará conosco o cachorrinho que nos recebia em casa quando voltávamos do trabalho. A transcendência, em sua plenitude, pertence ao ser humano. Só ele tem o que Santo Tomás de Aquino chamou a “potência obediencial” divina de ir além das suas próprias possibilidades de criatura.

Na Ressurreição seremos trans- humanizados ou divinizados.

Como pessoas, e não meras criaturas, nossa vocação transcendente não é reduzida à nossa individualidade, nem massificada numa coletividade social ou da espécie humana. Nossa relação com Deus e com os outros será interpessoal. Se neste mundo é maravilhoso curtir um bom papo com os amigos, no céu teremos toda uma eternidade para desfrutar deste prazer. No Reino de Deus não seremos engolidos pelo “todo”ou o Nirvana sonhado pelo Budismo e pelo Taoísmo.

O movimento da chamada Nova Era também partilha essa despersonalização do ser humano no todo cósmico. Da mesma maneira, o “devir do Espírito Absoluto” de Hegel ou a “Grande Tarde” ou paraíso terrestre almejado pelo Marxismo não nos brindam nossa vocação transcendente. Por isso, nós cristãos, conscientes de Deus ter-nos chamados a ser e viver além de nós mesmos e deste mundo, confessamos no Credo: ” Creio na Ressurreição da carne”, isto é, creio que serei eu mesmo quem viverá eternamente no céu com Deus, anjos e todos nossos semelhantes. “Eu verei a Deus e não outro” (Jó, 42). O que seria de nós sem essa relação pessoal transcendente ou dimensão eterna e infinita… Estaríamos também no céu, como na terra, reduzidos a um ponto insignificante do universo e da História, da mesma maneira que temos neste mundo momentos felizes confiscados pela morte. Por que fomos chamados à Vida Eterna, além do tempo e do espaço, diz Pascal, “o homem supera infinitamente o homem”.

Somos essencialmente transcendentes, além de nós mesmos e do mundo que em habitamos.

VOCAÇÃO À FELICIDADE

A vida só pode ser feliz e, para ser feliz, tem de ser divina. Deixamos este item para comentar na próxima semana, na qual é proclamado o Sermão das Bem-Aventuranças.

Fomos sonhados por Deus, nos diz o Papa Francisco, para viver e sermos felizes. A glória de Deus é a nossa felicidade.

“OUVI A VOZ DO SENHOR QUE DIZIA: QUEM É QUE EU VOU ENVIAR? ENTÃO EU DISSE: “AQUI ESTOU, ENVIA- ME” (Is. 6,1-8)

A vocação, além de ser uma chamada divina a ser, existir e a termos um destino eterno e feliz, é também uma missão. O termo pessoa, em grego “prosopon” , que significa sujeito, substância ou suporte, foi traduzido ao latim pelos filósofos estóicos por “persona”, fazendo referência à máscara usada pelos atores no teatro a modo de caixa de ressonância ( per-sonare) para aumentarem o volume da sua voz. Seu sentido instrumental passou a ter o sentido do papel ou personagem de cada ator. O filósofo estóico romano Epicteto (séc. I) o aplica à tarefa ou missão que desempenhamos na vida: “Você não és mais do que ator de um drama que, breve o longamente, seguirá a vontade do seu autor… a você corresponde representar o papel da pessoa que lhe assignem, mas elegi-lá pertence a outro”. Na filosofia estóica (séc. IV a.C.) a vida humana é interpretada como aceitação de um destino inscrito na própria natureza e também cumprimento da missão que este destino nos exige. Por isso esta filosofia configurou a mentalidade cristã. Nao é a natureza, mas o próprio Deus quem nos chama a ser e cumprir uma missão, embora Ele deixe espaço para nossa liberdade. Somos livres para fazer de tudo, realizando da melhor maneira nossa existência pessoal, mas deixariamos de ser livres se renunciarmos escolher Deus como finalidade última da nossa vida.

No campo da ética ou da moral, diríamos que o princípio primordial que rege nosso agir não é: “faz o bem e evita o mal”, senão o ato livre pelo qual fazemos um opção absoluta por Deus. Santo Agostinho a expressava como ato de amor: “Ama e faz o que quiser”. Mas o amor exige ser precedido pelo ato de Fé em Deus, fonte única do ser e da vida. Antes de promulgar, Deus, seus mandamentos ao povo, lhes disse: “Escuta, Israel, o Senhor é teu Deus, o Senhor é só um”. O Concílio Vaticano II afirma ser a Santidade a vocação primordial e universal de todo ser humano. “Um homem não santo é um homem incompleto” (Mounier). “Sereis santos porque eu sou Santo” (Lc. 20,7; Mt. 5,48). Não é mandamento moral, mas vocação existencial.

Pelo fato de termos sido criados à imagem e à semelhança de Deus, como toda imagem nos reporta ao que representa, nos reportamos e nós ligamos a Deus. A santidade consiste em nossa comunhão com Deus, Santo dos Santos (Santíssimo, em Latim: Sanctum Sanctorum). É o que se nos revela a visão do profeta Isaías: “Vi o Senhor assentado num trono e os anjos o aclamavam cantando: “Santo, Santo, Santo é o Senhor”. Este canto adotamos na celebração da eucaristia para lembrar nossa vocação a sermos santos em Deus. Ele é quem realiza essa santidade em nós. Cabe a nós, como nos lembra São Paulo querer (Rm. 7,18). Santo Tomás de Aquino costumava dizer: “três coisas
são necessárias para sermos santos: a primeira é querer, a segunda querer e a terceira querer”. O querer está em nós , realiza-lo pertence a Deus. A santidade não é uma questão moral, mas existencial pela qual queremos ser e viver em Deus. O pecado consiste em toda possível separação de Deus. Daí o termo diabo (em Árabe shaytān, em Hebraico, śātān) que significa dividido, separado, no caso, de Deus. Uma possibilidade impossível em Cristo, pois Nele nós e o mundo ficamos unidos de maneira indissolúvel pelo mistério da Encarnação, a Nova e Eterna Aliança de Deus com connosco e a Criação.

Finalizaremos nossa vida carregados de pecados, ainda separados fisicamente, para sermos santificados e unidos a Deus pela Ressurreição… No Céu seremos apresentados a Deus : “Estes são os que vêm da grande tribulação, que lavaram suas vestes de pecado no sangue do Cordeiro.” (Ap. 7, 14)

O profeta Isaías antes de começar sua missão profética sentiu seus lábios tocados por uma brasa divina e lhe foi dito: “Teus pecados foram perdoados”. Mais do que seus pecados, foi sua condição de pecador na qual todos nascemos que será transformada pela santidade de Deus.

“PELA GRAÇA DE DEUS SOU O QUE SOU; E SUA GRAÇA EM MIM NÃO FOI ESTÉRIL POIS ELA TRABALHA EM MIM.”( 1Cor..15,1-11)

São Paulo atribui a Deus seu ser e seu agir. Sua conversão a Cristo não foi moral, senão existencial : “Nao sou eu quem vive, mas Cristo Quem vive em mim” (Gl. 2, 20). Ele experimentou o que a Nicodemos lhe parecia absurdo: “Nascer de novo” (Jo. 3). Em Cristo nascemos plena e definitivamente. “Está ordenado ao ser humano morrer uma só vez” (Hb. 9, 27). A vida, entretanto, exige nascer uma segunda vez, não pela carne e vontade humana, mas pela vontade de Deus de maneira imortal e gloriosa. Temos aqui um grande argumento contra toda crença da reencarnação, assim como de toda condenação, tão temida pelo nosso sentimento meramente religioso que, sem a Fé, é desprovido do conhecimento da graça Salvadora de Cristo. Sem este conhecimento, seria melhor sermos ateus do que crentes, pois a Salvação será sempre impossível ao ser humano. E se não nos Salvamos, inútil foi tudo quanto fizemos nesta vida e termos nascido neste mundo, maior insulto a Deus e nossa maior frustração.

Nossa vocação divina à existência cumpre sua finalidade na medida em que nos sentimos enviados a tornar Cristo conhecido como única esperança Salvadora do mundo. A mesma voz que nos chama ao Reino de Deus temos de fazer ressoar em todo lugar e em todos os tempos.Somos os
construtores da única esperança do mundo em Cristo.

“NÃO TENHAS MEDO: DORAVANTE SERÁ PESCADOR DE HOMENS”(Lc.5,1-11)

Jesus dirige estas palavras a Pedro e seus companheiros que exerciam a profissão de pescadores.

Profissão, do latim “professio-onis” significa ação, o que se faz. Em alemão, “beruf”, profissão é sinônimo de vocação. Vaga pelo mundo quem não se ocupa em fazer algo ou cumpre uma missão. O trabalho , é constitutivo do ser humano (“homo faber”). Quem não vive para servir, não serve para viver. Marx definia o homem como um ser que tem mãos. Ele é o que faz. De fato, é assim que distinguimos as pessoas, pela sua profissão. Cristo revela aos seus discípulos a necessidade de dar à nossa vocação profissional uma dimensão transcendente. Não basta sermos pescadores de peixes para nosso sustento ou termos uma profissão,é preciso “pescar homens”, não deixar no mar da morte nossas vidas e a vida de todo ser humano. O
Concílio Vaticano II diz que nossa missão de cristãos é dupla: evangelizar e santificar. Num mundo que morre de tédio e carente de esperança, derrotado pela morte que frustra todos os sonhos, somos chamados a anunciar a Boa Notícia da Salvação em N. S. Jesus Cristo.

Precisamos, nesta nossa aventura humana, unir os fragmentos da nossa existência à eternidade infinita de Deus.

Na cultura judaica e de outros povos, o mar é o lugar das forças ocultas opostas a Deus e também o abismo da morte. Um ser humano sem Deus e, mais precisamente, sem Cristo, vive à mercê de todo tipo de mal e é vítima do pecado e da morte. Anunciar com nossas palavras e atitudes que em Cristo temos a vitória da morte e o perdão de nossos pecados, é tudo quanto todo homem, religioso ou ateu, de melhor pode ouvir e esperar.
A missão de santificar é, ao mesmo tempo, imanente e transcendente. Somos chamados, diz o Papa Paulo VI a tornar esta nossa vida, mais humana, mais de Cristo e mais de Deus. Quebrar essa ligação frustra toda missão e progresso humano, “porque sem mim, disse Jesus, nada podeis fazer” (Jo.15). “Se o Senhor não construir nossa casa, em vão trabalham os construtores” (Sl.127). Jesus confirma esta tese: “É como construir a casa sobre areia” (Mt. 7). Nem sequer o Deus das religiões nos basta para sermos humanos. De fato, sem Cristo,
as religiões nos dividem e nossas crenças se tornam bélicas. O Deus único e verdadeiro revelado por Deus a Abraão faz 4.000 anos é o Deus de Jesus Cristo. Inclusive, Ele apelou a esta identidade divina: “Se crêem em Deus, creiam em mim” (Jo.14). “Eu e o Pai somos um”. Em Abraão, Deus era uma ideia ou crença, como em toda pessoa que ainda não reconhece seu Deus em Cristo. A Deus ninguém viu, só o podemos ver em Cristo. “Quem me vê a mim, vê a Deus”, disse Jesus ao seu discípulo Filipe. Ele revelou-se como Deus não só pelos seus milagres, mas porque até ele, nenhum dos deuses das religiões revelou-se dando a própria vida, amando seus próprios inimigos.

Só um Deus crucificado pode ser o verdadeiro Deus, além de toda crença e compreensão humana. Até um dos soldados que o crucificou o reconheceu: “Verdadeiramente é o Filho de Deus”. Este soldado nem precisou o ver Ressuscitado. A maneira como morria, excedia a todo ser humano. Só podia ser Deus. A Ressurreição confirmou sua divindade, pois até Cristo, a morte era senhora de nossas vidas (Hb.2) e os deuses nos deixavam nos sepulcros. Por isso São Paulo põe na Ressurreição de Cristo o fundamento da Fé. Se Ele não Ressuscitou, vã é a nossa Fé. (1Cor, 15)

Padre Jesus Priante
Espanha
(Edição por Malcolm Forest. São Paulo.)
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