Cardeal Parolin e o testemunho da sua “amada Venezuela”

Palavras densas de significado norteiam o caminho espiritual desse tempo na Venezuela

O ar na Basílica de São Pedro, em Roma, parecia carregar o peso de um país inteiro. Não era apenas o incenso que subia aos céus naquele outubro de 2025; eram as preces, as lágrimas e o suspiro de alívio de uma nação que, por um instante, esqueceu as fronteiras e as ideologias para se reconhecer nos seus santos. A Venezuela não era manchete de crise econômica ou disputa política, mas a “amada Venezuela” que o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, invocou com a voz embargada de quem conhece as feridas daquela terra.

A Missa de ação de Graças pela canonização de São José Gregorio Hernández e de Santa Carmen Rendiles Martínez, filhos ilustres daquela pátria. Mas o tom dado por Parolin, o diplomata número um do Vaticano e antigo Núncio em Caracas, foi muito além da liturgia. Ele falou para os que estavam nos bancos da Basílica Vaticano, mas parece seu olhar contemplava os que ouviam pelo rádio nos rincões dos Andes e os jovens que acompanhariam sua mensagem pela internet nas favelas de Petare.

Justiça do alto

“A santidade é o bem supremo, mas ela floresce onde existe justiça”, pontuou o Cardeal. Nesta ocasião, o Vaticano usou o “poder suave” dos santos para enviar um recado direto: o bem comum não é uma abstração, mas uma urgência. Parolin não se esquivou. Ao lado das relíquias dos santos Venezuelanos, ele lembrou que a fé é uma força de resistência que clama por dignidade e por uma convivência pacífica fundada na verdade.

A canonização de São José Gregorio Hernández, o médico que morreu atropelado enquanto levava remédios a uma senhora pobre, serve como o símbolo perfeito dessa mensagem. O Cardeal Parolin reforçou que o “Médico dos Pobres” é o modelo de cidadão que a Venezuela precisa para se reconstruir: alguém que coloca a ciência a serviço da caridade e a política a serviço do próximo.

Segundo Parolin, “Madre Carmen Rendiles é sinônimo de superação, mesmo em meio às suas limitações físicas. É a constância da fé depositada em Deus, que não nos abandona. Coube a ela a guarda do serviço a Jesus em seu mistério mais sublime, o da Eucaristia. Nela, a Igreja quer homenagear a mulher forte que trabalha, constrói e é garante da transmissão da fé às gerações. Nela, a Igreja celebra a força do gênio feminino venezuelano e reconhece as mulheres consagradas que, no início do século XX, conduziram a reconstrução da catolicidade na Venezuela”.

Cruz e esperança

As canonizações ocorridas em outubro do ano passado marcaram um sinal de esperança contrastando com o regime totalitário instalado no país e com as dificuldades diárias dos cidadãos.

Parolin, correndo os olhos sobre os presentes na cerimônia, deve ter se recordado dos olhares com os quais cruzou em Caracas e nas florestas do país em que  foi Núncio Apostólico por quatro anos. O Cardeal, com emoção,  foi enfático ao dizer que o Vaticano continua acompanhando cada passo do povo venezuelano. A mensagem foi clara: a Igreja não busca o poder, busca a paz. E essa paz só será sólida se for “justa e duradoura”.

A fé na Venezuela

Os santos, agora oficialmente elevados aos altares, tornaram-se embaixadores permanentes de uma causa que não tem partido: a dignidade humana.

O Cardeal Pietro Parolin, ao final de sua homilia, dirigiu uma mensagem, em forma de oração. Não era um discurso político, não era uma prece, mas era um sentimento profundo no qual chamava o país em que serviu como “Amada Venezuela”.

“Amar não apenas em palavras e discursos, mas em verdade e com ações. Só assim passaremos da morte para a vida. Só assim, querida Venezuela, você passará da morte para a vida. Só então, amada Venezuela, sua luz brilhará na escuridão, sua escuridão se transformará em meio-dia, se você der ouvidos às palavras do Senhor, que a chama a abrir prisões injustas, a romper as correntes dos grilhões, a libertar os oprimidos, a quebrar todas as correntes. Só então, amada Venezuela, você poderá responder à sua vocação de paz, se a construir sobre os alicerces da justiça, da verdade, da liberdade e do amor, sobre o respeito aos direitos humanos, criando espaços de encontro e convivência democrática, priorizando o que une e não o que divide, buscando os meios e as instituições para encontrar soluções comuns para os grandes problemas que a afetam, colocando o bem comum no centro de toda atividade pública”, rezou o purpurado.

No Angelus do domingo, 4 de janeiro, o Papa Leão XIV ser mostrou solidário à situação da Venezuela e invocou a proteção de Maria e dos santos venezuelanos para que, em sua hora mais escura, o país encontre nos seus santos a luz necessária para enxergar um amanhã possível.

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