Basílica de São Pedro inaugura via-sacra para seu 400º aniversário

A basílica que o imperador Constantino mandou construir em 326 d.C. sobre o túmulo do apóstolo são Pedro permaneceu de pé por doze séculos. Em 1506, o papa Júlio II ordenou sua demolição para construir uma nova igreja do zero.

A basílica que é conhecida hoje foi consagrada em 18 de novembro de 1626 pelo papa Urbano VIII, culminando um longo projeto no qual trabalharam gênios como Michelangelo Buonarroti, Gian Lorenzo Bernini e Carlo Maderno.

Quatro séculos depois, o maior templo da cristandade inaugurou uma via-sacra artística em 20 de fevereiro.

O autor é o pintor suíço Manuel Dürr, de 36 anos, cuja obra foi escolhida entre cerca de mil propostas de 80 países, depois de um concurso internacional realizado em dezembro de 2023.

Uma comissão da Santa Sé, composta por historiadores da arte e liturgistas, selecionou o projeto de Dürr, que recebeu um prêmio de € 120 mil (cerca de R$ 728,4 mil).

O resultado é um novo olhar espiritual que narra os momentos finais da vida de Jesus Cristo, desde sua condenação até seu sepultamento, condensados ​​em 14 pinturas a óleo de 1,30 por 1,30 metros.

O júri que selecionou o projeto destacou o “equilíbrio e o poder expressivo” da proposta e o uso de uma linguagem pictórica “poderosa e imediata” que evoca tanto o Renascimento quanto certos elementos das vanguardas, segundo a Santa Sé.

Ciente da magnitude da encomenda, o pintor reconheceu, em conversa com a ACI Prensa, agência em espanhol da EWTN, na inauguração da via-sacra na sexta-feira (20), que teve de “buscar alguma confiança” em si mesmo.

“Pintar Jesus Cristo é muito, muito difícil”, disse o artista. “Porque Ele não é alguém que estou apresentando pela primeira vez; Ele é alguém sobre quem bilhões de pessoas já têm uma imagem e uma relação”.

Uma encomenda à qual dedicou oito meses

Vendo as obras já instaladas ao redor do baldaquino de Bernini, Dürr diz se sentir sereno: “Fico muito feliz em ver o contexto para o qual essas pinturas foram concebidas… Acho que elas funcionam bem”.

Por oito meses, Dürr — casado e pai de três filhos — trabalhou nas 14 telas que agora fazem parte da nave central da basílica na Quaresma.

Ele disse que, desde o início, teve claro que não estava trabalhando para uma galeria de arte contemporânea, mas sim para um espaço litúrgico com uma tradição viva. As obras tinham como objetivo “dialogar com um contexto específico, com um universo simbólico já existente”, diz Dürr.

Em termos técnicos, ele se inspirou nas “cores que já existem nos mosaicos do piso” da basílica de São Pedro, no Vaticano; em termos espirituais, Dürr quis se inserir humildemente “numa tradição muito longa e muito rica de imagens que abordaram esse mistério da Encarnação e da Paixão”.

Teologicamente “bastante próximo da fé católica”

Embora não seja católico, Dürr se descreve teologicamente como “bastante próximo da fé católica”. Ele faz parte da comunidade Jahu, que reúne cerca de 600 pessoas em todo o mundo, está ligada à Igreja Reformada Suíça e tem um caráter nitidamente ecumênico.

Dois de seus irmãos têm doutorado em teologia por universidades católicas, o que — diz ele com humor — lhe permitiu aprender sobre essa tradição “na mesa da cozinha”.

Sua primeira visita à basílica de São Pedro foi uma revelação que ampliou seus horizontes e deixou sua marca no processo criativo: “A igreja em minha cidade natal me parece muito provinciana quando vejo pessoas de todas as idades, de todos os continentes e de todas as classes sociais reunidas aqui em torno de expressões compartilhadas de fé”.

Dürr fala sobre a influência decisiva que Fra Angelico teve em sua obra, especialmente nos afrescos do convento de São Marcos, em Florença, onde — diz ele — se alcança uma síntese exemplar entre inovação artística e profundidade espiritual.

A crucificação de Jesus, a primeira e a última tela que pintou

A crucificação de Jesus se tornou o tema central da série: foi a primeira tela que Dürr começou e a última que terminou. “Essa história moldou a arte cristã e a cultura europeia — talvez a cultura mundial — como nenhuma outra”, diz ele.

“A cruz, concebida como um instrumento de terror para incutir medo no Império Romano, transformou-se num símbolo de esperança que usamos ao redor do pescoço”, diz.

Esse episódio, diz ele, fala a todos. Por isso, Dürr acredita que seu trabalho pode oferecer “uma pequena porta de entrada” para esse mistério central da fé cristã para os que contemplam essa via-sacra na Quaresma.

A cena mais especial para ele foi a da Verônica. “Ela segura um pano com a imagem de Cristo, e de certo modo é isso que eu tento fazer: pintar numa tela e oferecer uma marca, um rastro que permita viver algo mais profundo”, diz. “Esse é o grande mistério da Encarnação. Por que Deus deixaria uma marca num pano?”

Quatro séculos depois de sua consagração, a basílica de São Pedro se prepara para comemorar a sua história não só com memória arquitetônica, mas também com um renovado convite à contemplação da Paixão de Cristo.

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