AMARÁS A TEU PRÓXIMO

    Estamos no mês de setembro, mês que na tradição da Igreja no Brasil é celebrado como o mês da Bíblia, devido à celebração de São Jerônimo que teremos no final do mês, este que foi um importante Padre da Igreja a dedicar-se ao estudo, comentários e contemplação da Palavra de Deus. A Palavra de Deus é uma palavra viva, que embora antiga na data em que foi escrita, sempre tem algo novo e atual a comunicar à nossa vida, iluminando nossos passos e guinado nosso caminhar rumo ao Senhor.

    A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil costuma oferecer, para ajudar em nosso aprofundamento da Palavra de Deus neste mês, o estudo e a reflexão de um livro específico da Bíblia. Neste ano, o livro proposto é um livro do Antigo Testamento, do Pentateuco, o Livro do Deuteronômio e tendo como lema específico a passagem de Dt 15, 11: “Abre tua mão para o teu irmão”. A palavra Deuteronômio, que dá nome ao Livro, é uma palavra que vem do grego e significa basicamente a segunda Lei, ou seja, é um livro que vai mostrando para nós um conjunto compilado das Leis dadas por Deus a Moisés no contexto da saída do Egito, caminhada pelo deserto e futuro estabelecimento na terra prometida. Embora seja um livro marcado fundamentalmente por Leis, podemos ver nele um exemplo muito bonito de como a Revelação Divina vai se realizando de maneira progressiva, pedagógica, e que todas as leis ali apresentadas só terão sentido ao serem lidas por aquele que é a Plenitude da Lei, Jesus Cristo. Por isso, acolhamos de coração sincero este mês dedicado à Palavra de Deus e intensifiquemos nosso conhecimento e nossa intimidade com esta Palavra.

    Neste mês comemoramos também o jubileu da terra, pois são 50 anos que temos o Dia Mundial do Planeta enfocando nossa responsabilidade pela nossa casa comum. Começamos a comemorar no dia 1º de setembro quando rezamos pelo cuidado da criação e iremos até o dia 4 de outubro quando se encerra o período de colheitas no hemisfério norte. Ao final desse tempo o Papa Francisco assinará um documento importante sobre a fraternidade ressaltando que somos todos irmãos.

    A liturgia deste XXIII Domingo do tempo comum nos apresenta a realidade do perdão e do amor: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, “o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Rm 13, 9c-10). Em todas as leituras deste Dia do Senhor, a Palavra de Deus vem nos mostrar que a vivência da fé cristã é uma vivência comunitária, que somos responsáveis uns pelos outros e devemos ser um suporte para os fracos, indecisos, cansados e abatidos na fé e no seguimento de Jesus.

             No Evangelho (Mt 18,15-20) Jesus não veio para abolir as Leis e os Profetas; Ele veio para leva-las à sua plenitude, ou seja, apontar para o sentido da existência destas. A Lei de Deus é uma lei de sabedoria e caminho seguro de salvação e de felicidade! Aqui nesta página do Evangelho, Jesus ensina como corrigir um membro da comunidade. Primeiro, corrigi-lo a sós. Se isso não adianta, é necessário levar consigo uma ou duas testemunhas, conforme a Lei de Moisés (Dt 19,15). Se isso não basta, deve-se apresentar o caso à comunidade eclesial. E se, mesmo assim, o indivíduo não quer ouvir, deixe-o seguir seu caminho fora da comunidade, à qual é dado o poder de “ligar e desligar” (Mt 18,18). Diz Jesus: “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo” (Mt 18,15). Este primeiro momento demonstra o respeito e o amor para com o próximo. Muitas vezes acontece que se espalha o erro da pessoa aos quatro ventos. Esta atitude não é cristã! É necessário rezar, pedindo as luzes do Espírito Santo para saber quando se deve calar, quando se deve falar e como falar.

             O Evangelho deste domingo situa-se no contexto do “sermão sobre a comunidade”, cujos textos são direcionados especificamente para orientar a vida na Igreja. E um tema muito precioso para o Evangelho de Mateus é a correção fraterna, essencial para o crescimento pessoal do cristão na comunidade. O amor cristão não é simplesmente amizade ou simpatia humana, mas o fruto da presença do próprio Espírito de Amor, o Espírito Santo em nós: “O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado! ” (Rm 5,5) É desse amor que fala São Paulo no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios; é esse amor que “cobre uma multidão de pecados” (Tg 5,20), é esse amor que é “a plenitude da Lei”. Só ama assim quem se abre para o amor de Cristo, deixando-se guiar e impregnar pelo seu Espírito de amor! A Igreja deve ser o ambiente impregnado desse amor, mais forte que nossas diferenças de temperamento, de opiniões, de modo de agir… “Onde está o amor, a caridade, Deus aí está”; onde o amor reina, o Reino de Deus está presente neste mundo! A Igreja deve ser o lugar do amor, lugar do Reino!

             É necessário saber que a correção é um modo de amar, é um modo de preocupar-se com o outro e com a Comunidade. A correção fraterna pode salvar o irmão. Quantos escândalos nas nossas Comunidades poderiam ter sido evitados se tivessem feito a correção no momento oportuno e do modo discreto e sincero que Jesus nos recomenda. Todos nós precisamos de correção porque todos erramos. Isso faz parte da nossa natureza. Assim como nós precisamos de correção, devemos ser suporte também para aqueles que precisarem melhorar em seu caminho.

    A missão do profeta Ezequiel que aparece na primeira leitura (Ez 33,7-9) é a missão de cada um de nós: Vigiar e zelar pela vida e felicidade dos próprios irmãos! Somos responsáveis pela transmissão da Palavra de Deus junto a nossos irmãos. O profeta não somente é o porta-voz de Deus, mas também uma sentinela para o povo. A sentinela era alguém que estava de prontidão, que permanecia acordado enquanto todos dormiam. Era alguém que percebia a aproximação de um inimigo ou de um viajante noturno aos portões da aldeia. Esse simbolismo nos ajuda a ver nossa responsabilidade para com as pessoas com as quais convivemos em casa, no trabalho, na vizinhança, nos círculos de amizade, na Igreja, sendo sempre preocupados com o bem onde quer que nos encontremos.

             A Segunda leitura (Rm 13,8-10) enuncia que os Mandamentos da Lei de Deus não são caprichos de Deus! São caminhos seguros de felicidade! Eles não escravizam; pelo contrário, libertam e conduzem para a salvação. O “amor não pratica o mal contra o próximo” e também não quer o mal para os outros. O fato de alguém não fazer nenhum ato de maldade não significa que possa ficar confortável, dizendo a si mesmo: “Não roubei, não matei, logo sou bom para meu próximo”. Quem não pratica o mal, mas omite ou negligencia a responsabilidade pelo outro, não ama verdadeiramente o seu próximo.

    Vivenciando o mês da Bíblia, somos convidados a encarnar a Palavra de Deus em nossa vida. Sendo assim, olhando para a liturgia deste domingo, o Senhor nos chama a praticar o amor e a correção fraterna. Acolher com amor e no amor. Nossa maior preocupação deverá ser de caridade fraterna para conduzir os irmãos que se distanciaram de volta à comunhão com Deus expressa na comunidade crente. Se fizermos isso, certamente a Igreja desempenhará bem seu papel de mediação da boa-nova de Jesus Cristo. Vivamos intensamente o mês da Bíblia, seja por meio do estudo, seja por meio de uma leitura mais atenta, seja por meio da leitura orante da Palavra de Deus. Deus se faz Carne e se faz Palavra! Aproveitemos esse mistério da Presença de Deus em nosso meio para aprofundar nossa vida de fé. Deus abençoe e guarde a todos.

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