Irmãos e irmãs,
Celebramos hoje a Solenidade da Epifania do Senhor, a manifestação de Jesus Cristo como luz para todos os povos. Não se trata apenas da recordação de um acontecimento do passado, mas da revelação permanente de quem é Deus e de como Ele age na história humana. A Epifania proclama que Deus se deixa encontrar, mas não se impõe; manifesta-se, mas exige do ser humano a coragem da busca.
A primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaías – Is 60,1-6 –, anuncia: “Levanta-te, resplandece, porque chegou a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti” (Is 60,1). O profeta fala a um povo marcado pelo exílio, pela fragilidade e pela tentação do fechamento. A luz que brilha sobre Jerusalém não é conquista humana, mas dom de Deus. Contudo, esse dom traz consigo uma exigência: a cidade iluminada não pode viver para si mesma. Por isso Isaías proclama que “as nações caminharão à tua luz, e os reis ao brilho da tua aurora” (Is 60,3). A eleição de Jerusalém não é privilégio, mas missão; não é posse, mas responsabilidade.
O Salmo responsorial retoma essa visão universal do desígnio divino: “As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor” (Sl 71[72],11). O Messias anunciado não governa pela força, mas pela justiça; não protege apenas os fortes, mas defende os pobres e os fracos (cf. Sl 71[72],12-14). Onde não há justiça, a manifestação de Deus é obscurecida, ainda que o seu nome seja frequentemente pronunciado.
Na segunda leitura – Ef 3,2-3.5-6 –, o apóstolo Paulo afirma com clareza o núcleo do mistério agora revelado: “os pagãos são coerdeiros, membros do mesmo corpo e participantes da mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6). A Epifania desmonta qualquer tentativa de restringir a salvação a um grupo, a uma cultura ou a uma tradição religiosa específica. Deus permanece fiel à promessa feita a Israel, mas essa fidelidade se abre, em Cristo, à humanidade inteira.
O Evangelho segundo São Mateus (Mt 2,1-12) nos apresenta, então, a cena decisiva da Epifania. Os Magos do Oriente, estrangeiros e pagãos, colocam-se a caminho guiados por um sinal frágil, uma estrela. Eles não possuem a Lei nem os Profetas, mas possuem um coração inquieto, disposto a buscar. Ao chegarem a Jerusalém, encontram aqueles que conhecem as Escrituras e sabem indicar com precisão o lugar onde o Messias deveria nascer, conforme o profeta Miqueias: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá” (cf. Mq 5,1; Mt 2,6). No entanto, esses conhecedores da Palavra não se movem.
Aqui o Evangelho introduz uma distinção decisiva: saber não é o mesmo que crer; conhecer a Escritura não significa necessariamente obedecer a ela. Os Magos caminham sem garantias; os escribas permanecem imóveis, protegidos por certezas estéreis. A Epifania denuncia uma fé acomodada, satisfeita com informações religiosas, mas incapaz de adoração.
Herodes, por sua vez, representa o poder que teme perder o controle. Diante da notícia do nascimento do Messias, “ficou perturbado, e com ele toda Jerusalém” (Mt 2,3). A presença de Deus não tranquiliza os que se sustentam na injustiça ou no medo. O Menino de Belém não ameaça pela força, mas pela verdade; e é justamente essa verdade que desestabiliza os falsos poderes.
Ao encontrarem o Menino com Maria, sua mãe, os Magos “prostraram-se diante dele e o adoraram” (Mt 2,11). A Epifania culmina na adoração. Não se trata de curiosidade, nem de emoção passageira, mas do reconhecimento de que Deus se manifesta na humildade. Os dons oferecidos — ouro, incenso e mirra — são uma profissão de fé silenciosa: ouro para o Rei, incenso para Deus, mirra para aquele que assumirá a condição humana até o sofrimento e a morte.
O Evangelho conclui afirmando que os Magos, “avisados em sonho para não voltarem a Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho” (Mt 2,12). Este detalhe não é secundário. Quem encontra verdadeiramente o Senhor não pode continuar pelo mesmo caminho. A Epifania exige conversão, mudança de rota, ruptura com tudo aquilo que nos mantém prisioneiros de uma religiosidade sem compromisso.
Celebrar a Epifania é permitir que a luz de Cristo revele não apenas quem Deus é, mas também quem nós somos. Ela ilumina nossas buscas sinceras, mas também denuncia nossas resistências. Pergunta-nos se somos uma Igreja que aponta o caminho, como a estrela, ou uma comunidade que conhece a verdade, mas se recusa a caminhar.
Que esta solenidade nos conceda a graça de sermos, não guardiões de privilégios religiosos, mas testemunhas da luz; não especialistas da fé, mas adoradores do Mistério; não habitantes imóveis de Jerusalém, mas peregrinos que, como os Magos, se deixam conduzir até Cristo e retornam transformados.
Amém.



