“Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38)
Celebramos dia 25 de março, a Festa da Anunciação do Senhor; ou seja, recordamos quando o anjo Gabriel apareceu à Virgem Maria e anunciou que ela seria a Mãe de Jesus. Maria, dentre tantas jovens de seu tempo, foi escolhida por Deus e agraciada pelo Espírito Santo para gerar o Filho de Deus. Num primeiro momento, Nossa Senhora não compreende o que seria aquela visita do anjo; fica surpresa e com certo medo, mas o anjo lhe diz para não temer e aceitar o Filho que ela geraria em seu ventre.
Nossa Senhora ainda enfrentaria muitas dificuldades a partir do momento em que aceitou ser a Mãe do Filho de Deus. Em primeiro lugar, a desconfiança de São José, pois, num primeiro momento, é difícil acreditar que uma mulher pudesse conceber por obra do Espírito Santo. São José, sendo justo e fiel à lei judaica, e não querendo que Nossa Senhora sofresse, resolve abandoná-la em segredo, pois uma mulher que cometesse adultério em Israel deveria ser apedrejada em praça pública. Mas o anjo aparece em sonho a São José e diz que ele não deveria abandonar Maria, pois o Filho que ela esperava era, de fato, o Filho de Deus.
A partir disso, Nossa Senhora vai para a região montanhosa da Judeia e fica com sua prima Isabel, que estava grávida; permanece lá por cerca de três meses, até próximo do parto. Quando volta, Nossa Senhora enfrenta outro momento de dificuldade, pois teve de dar à luz numa estrebaria, já que não encontraram lugar em nenhuma hospedaria; ou seja, não havia lugar para o Filho de Deus nascer. Depois, surge um terceiro momento de dificuldade: a fuga para o Egito, pois Herodes queria matar Jesus, acreditando que Ele viera para tomar o seu lugar como rei de Israel.
De fato, Jesus veio para ser rei, mas um rei diferente: pobre, humilde e que veio pregar a justiça, a paz e o perdão. Tomado de ódio, Herodes manda matar todos os meninos de zero a dois anos, imaginando encontrar entre eles o Menino Jesus; são os chamados Santos Inocentes. Ao longo da vida, conhecemos também as dificuldades enfrentadas pela Sagrada Família e, posteriormente, por Jesus em sua vida pública, até culminar na cruz.
A Festa da Anunciação do Senhor ocorre no dia 25 de março, exatamente nove meses antes do Natal, e é uma das celebrações que podem ocorrer durante o tempo quaresmal. No dia 19 de março celebramos a Solenidade de São José, Patrono Universal da Igreja, e no dia 25, a Solenidade da Anunciação do Senhor. Essa festa só não é celebrada nessa data se coincidir com a Semana Santa; nesse caso, é transferida para depois da Oitava da Páscoa. Neste ano, porém, como ocorre antes da Semana Santa, celebra-se normalmente essa solenidade.
Maria é a Imaculada, ou seja, sem a mancha do pecado; por isso, encontrou graça diante de Deus. Após o anúncio do anjo, Nossa Senhora fica cheia do Espírito Santo e vai ao encontro de Isabel que trazia no ventre João Batista que terá uma missão importante: ser o precursor, aquele que preparará o caminho para a chegada do Messias.
Como Nossa Senhora proclama no cântico do Magnificat, Deus fez maravilhas em favor do seu povo e escolheu essa humilde serva para ser a Mãe do Filho de Deus. O Filho de Deus não deveria ser rico ou poderoso, nem viver em palácios; ao contrário, veio para “confundir” os ricos e poderosos, nascendo em uma família humilde e ensinando que, para herdar o Reino de Deus, é preciso, antes de tudo, ser humilde.
Lucas é o único dos evangelistas sinóticos que narra esse momento, justamente para mostrar às primeiras comunidades cristãs como se deu a encarnação do Verbo. Ele escreveu seu Evangelho por volta dos anos 70–80 d.C., e, como havia muitos recém-convertidos, pairavam dúvidas sobre esses acontecimentos. A narrativa bíblica explicita o diálogo entre o humano e o divino, entre Maria e o anjo, mensageiro de Deus. Ao longo da história da salvação, Deus sempre falou ao seu povo por meio de mensageiros, como profetas, pastores, reis e anjos. De fato, Lucas é o evangelista que mais desenvolve as passagens sobre a infância de Jesus.
O fundamento dessa solenidade encontra-se na narrativa do Evangelho de Lucas (Lc 1,26-38). Essa celebração exalta o “sim” de Maria ao projeto salvífico de Deus para toda a humanidade. Podemos imaginar o que seria de nós se Nossa Senhora não tivesse dado esse “sim”. Por meio de sua resposta, tornou-se possível a encarnação do Filho de Deus, e a história da salvação teve continuidade: Jesus morre na cruz para nos salvar, vence a morte e nos deixa o Espírito Santo como consolador.
Por meio dos Concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381), os Padres da Igreja defenderam a divindade de Cristo e aprofundaram a compreensão da Encarnação. Nesses concílios foi formulado o Credo Niceno-Constantinopolitano, que professa que Jesus nasceu de Maria e é o Filho de Deus.
Jesus possui duas naturezas, a humana e a divina; elas não se confundem, mas estão unidas na única pessoa do Verbo, em plena união hipostática. O pequeno e humilde Filho do carpinteiro de Nazaré é verdadeiramente o Filho de Deus, manifestado na história pela ação do Espírito Santo.
A Igreja, por meio de seu Magistério e dos Padres da Igreja, aprofundou continuamente esses mistérios, pois nada é imposto de forma arbitrária, mas amadurecido ao longo da reflexão teológica. No ano de 431, no Concílio de Éfeso, foi proclamado o dogma de Maria como “Theotokos”, isto é, Mãe de Deus. Se ela é Mãe de Jesus, e Ele é Deus, então, verdadeiramente, ela é Mãe de Deus. Após essa definição, consolidou-se também a celebração da Solenidade da Anunciação do Senhor.
Somente no século VI, sob o pontificado do Papa Sérgio I, a Igreja difundiu amplamente a celebração da Anunciação, fixando-a no dia 25 de março, exatamente nove meses antes do Natal do Senhor. Em Maria, Deus realiza o seu plano salvífico no tempo e na história.
Celebremos com alegria e coração agradecido a Deus e à Nossa Senhora a Solenidade da Anunciação do Senhor. Perguntemo-nos, em nosso íntimo, se temos respondido “sim” aos projetos de Deus para a nossa vida, se temos acolhido sua vontade com gratidão. Que possamos nutrir uma vida de oração e cultivar uma profunda intimidade com o Senhor, pois assim se torna mais fácil dizer “sim” aos seus desígnios.




