Homilia para o Sermão do Depósito Nosso Senhor dos Passos

             A liturgia e a piedade popular, ricas em significado e tradição, nos reúnem neste tempo abençoado, no coração de nossa caminhada rumo ao Calvário e à glória da Páscoa. Vivenciamos o tradicional e comovente momento do Sermão do “Depósito”. Em procissão silenciosa e contrita, acompanhamos os passos do Senhor, desde o prenúncio de sua agonia até este sagrado lugar. Aqui, a venerável imagem do Nosso Senhor dos Passos é recolhida, “depositada” nesta igreja, onde aguardará na penumbra da noite o doloroso encontro de amanhã com a Sua Mãe Santíssima, a Senhora das Dores. Esta tradição secular e profundamente enraizada na fé da nossa Igreja não é uma mera encenação teatral ou uma lembrança vazia do passado. É, sim, um convite veemente a adentrarmos de forma espiritual e concreta no mistério da solidão, da prisão e do abandono de Cristo.

             O Evangelho nos relata com clareza e crueza a solidão de Jesus após a sua prisão no Horto das Oliveiras. São Marcos narra o momento trágico em que a violência humana se abate sobre o Filho de Deus, que se entrega livremente por amor a nós: “Então, eles deitaram as mãos em Jesus e o prenderam” (Mc 14,46). E, logo em seguida, o evangelista revela a dor do abandono filial que rasgou o coração do Mestre: “Então, todos os discípulos o abandonaram e fugiram” (Mc 14,50). Aquele que a todos curou, que saciou multidões e consolou os aflitos, é deixado completamente só pelos seus amigos mais íntimos. Ele é arrastado na escuridão, levado aos tribunais humanos, julgado de forma injusta e sumária, e condenado. Jesus é colocado em um “depósito” escuro e frio, onde passa a noite na mais absoluta solidão, sem o amparo humano, aguardando o terrível suplício da cruz que lhe foi preparado.

             Nesta noite de vigília, ao contemplarmos a imagem do Senhor dos Passos aqui depositada diante de nós, o salmista nos empresta as palavras mais adequadas para rezarmos e compreendermos a dor do Cristo aprisionado: “Colocaste-me na cova mais profunda, em lugares escuros, nos abismos. […] Afastaste de mim os meus conhecidos, fizeste-me objeto de horror para eles; estou preso e não posso sair” (Sl 87[88],7.9). O profeta Isaías, séculos antes, já vislumbrava a dureza e a injustiça desta prisão do Messias ao escrever sobre o Servo Sofredor: “Por um juízo opressivo ele foi arrebatado. E quem, entre os de sua geração, se importou com o fato de ele ter sido cortado da terra dos viventes, ferido por causa da transgressão do meu povo?” (Is 53,8). Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada, experimenta o desterro, o encarceramento brutal e a ausência de um abrigo acolhedor na noite mais dramática de sua vida terrena.

             Essa dura realidade do Cristo prisioneiro, recolhido em um espaço hostil e desprovido de qualquer consolo, fala diretamente aos nossos corações e às prisões do nosso próprio tempo. Quando nos afastamos do amor de Deus, quando permitimos que o ressentimento, a falta de perdão, o egoísmo e o pecado dominem as nossas ações, nós nos tornamos prisioneiros das nossas próprias misérias. O Cristo, que contemplamos amarrado e silenciado pelas autoridades deste mundo, assumiu sobre si as nossas cadeias materiais e espirituais para nos libertar.

             O profeta Jeremias, nas suas Lamentações, exprime a angústia que se aplica perfeitamente ao Mestre nesta noite: “Foi ele que me conduziu e me fez caminhar nas trevas e não na luz. […] Fechou-me com um muro, para que não pudesse sair; tornou pesadas as minhas correntes” (Lm 3,2.7). A solidão de Cristo no depósito é o reflexo da solidão de tantos corações humanos que, mesmo cercados de multidões nas nossas grandes cidades, vagam por este mundo sem esperança, sem fé e sem o calor do amor divino. A nossa fé católica exige que saibamos reconhecer que as amarras que prendem o Salvador foram forjadas pelos nossos próprios pecados.

             A conversão quaresmal a que a Igreja nos chama ininterruptamente não é apenas um exercício de piedade exterior, um mero rito de acender velas e acompanhar procissões. É uma profunda purificação do coração. O apóstolo São Paulo, na sua Epístola aos Filipenses, nos exorta a configurar o nosso interior ao coração do Senhor: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fl 2,5). Ter o sentimento de Cristo significa não nos conformarmos com as amarras do mal. Enquanto a sagrada imagem de Nosso Senhor repousa nesta noite, aguardando o imenso peso da cruz que amanhã Ele mesmo carregará livremente pelas ruas de Jerusalém, somos chamados a velar com Ele. Se os apóstolos dormiram pesadamente no Horto das Oliveiras, rendendo-se ao cansaço e ao medo, que a nossa Igreja hoje, congregada em oração, permaneça acordada.

             Como monge cisterciense, trago constantemente à minha própria meditação as palavras luminosas do nosso pai São Bernardo de Claraval, que, com tanta sensibilidade espiritual, adentrava os mistérios cruentos da Paixão. Ele nos ensina que a paixão de Cristo é o refúgio seguro e a âncora inabalável das nossas almas atribuladas. Onde poderemos encontrar a verdadeira e definitiva liberdade, senão na contemplação das amarras do Salvador? É na Sua prisão injusta que encontramos a nossa alforria celestial. As Suas mãos atadas desatam os nós cerrados das nossas iniquidades; o Seu silêncio forçado perante os acusadores mentirosos é o brado majestoso e intercessor que nos defende perante o supremo tribunal da justiça divina.

             Amanhã, nós voltaremos a esta capela para retirar o Senhor dos Passos deste depósito provisório. Com corações compungidos e lágrimas de sincero arrependimento, O acompanharemos pelas ruas da nossa cidade, refazendo os Seus passos dolorosos e trôpegos até o emocionante momento do Encontro com a Virgem Maria, Nossa Senhora das Dores. Ao meditarmos sobre a dor inimaginável desta Mãe, que caminha ao encontro do Filho humilhado e desfigurado pelos açoites, preparemos desde já o nosso espírito para acolher a espada de dor que transpassará o seu Imaculado Coração. O silêncio da Virgem Maria nesta noite é o silêncio da fé que não vacila. É a postura daquela que, mesmo diante da ruína humana do seu Filho amado, confia nas promessas insondáveis do Pai das Misericórdias.

             Portanto, nesta noite santíssima e silenciosa, não deixemos Jesus sozinho no escuro cortante do seu sofrimento e abandono. Fiquemos aqui, em vigília adoradora, reparadora e silenciosa com Ele. Façamos do nosso próprio peito um sacrário espiritual, um refúgio acolhedor onde o Mestre possa encontrar repouso, adoração, conforto e amor.

             Aproveitemos este momento de solidão para nos achegarmos ao Sacramento da Reconciliação, libertando-nos das grades invisíveis que nos impedem de amar a Deus sobre todas as coisas. Rezemos fervorosamente pelas nossas famílias, pelas nossas vocações, pelos nossos sacerdotes e por todos aqueles que se encontram prisioneiros de suas próprias dores, enfermidades e aflições da alma. Que o Cristo dos Passos desperte em nós uma verdadeira, profunda e duradoura conversão de vida. Que Ele nos conceda a graça da perseverança para caminharmos ao Seu lado até o alto do Calvário, com a certeza inabalável de que, morrendo com Ele para o pecado, possamos também, com Ele, exultar na manhã luminosa da ressurreição para a vida eterna.

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