Neste Quarto Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos conduz ao coração do ensinamento de Jesus. O Evangelho das Bem-aventuranças, proclamado neste domingo, não é apenas um conjunto de belas palavras ou ideais elevados, mas o retrato do próprio Cristo e o projeto de vida que Ele propõe aos seus discípulos. Trata-se de um texto exigente, que confronta diretamente a lógica do mundo e nos obriga a rever critérios, escolhas e expectativas.
A primeira leitura, do profeta Sofonias (Sf 2,3; 3,12-13), dirige-se a um povo ferido, pequeno e humilhado. O profeta anuncia que Deus não se apoia nos poderosos, nem nos arrogantes, mas preserva um “povo pobre e humilde”, que confia no nome do Senhor. Essa pobreza não é apenas material, mas sobretudo espiritual: é a atitude de quem reconhece que não se basta a si mesmo e depende totalmente de Deus. O Senhor promete que esse resto fiel viverá em segurança, porque não se apoia na mentira nem na violência, mas na fidelidade.
Essa leitura prepara o terreno para compreendermos as Bem-aventuranças. Jesus não fala a partir de um ideal abstrato, mas a partir dessa tradição bíblica que reconhece nos pobres, nos mansos e nos humildes os verdadeiros herdeiros das promessas de Deus. O Reino não se constrói sobre a autossuficiência, mas sobre a confiança.
O salmo responsorial (Sl 145[146]) reforça essa perspectiva ao proclamar que o Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os prisioneiros e sustenta o órfão e a viúva. Trata-se de um salmo profundamente social e espiritual ao mesmo tempo. Ele afirma que Deus toma partido dos pequenos e denuncia, de modo implícito, toda forma de poder que se fecha em si mesmo e esquece os frágeis. Louvar o Senhor é reconhecer esse modo concreto de agir de Deus na história.
Na segunda leitura, São Paulo escreve à comunidade de Corinto (1Cor 1,26-31) e recorda aos cristãos a própria origem deles: poucos eram sábios segundo critérios humanos, poucos eram poderosos ou de nobre linhagem. Deus escolheu o que é fraco para confundir os fortes, o que é desprezado para manifestar sua glória. Paulo desmonta qualquer pretensão de superioridade espiritual ou moral. Ninguém pode gloriar-se diante de Deus, pois tudo é graça. A única verdadeira glória do cristão é estar em Cristo.
Essa advertência é fundamental para compreendermos corretamente as Bem-aventuranças. Elas não são um motivo de orgulho religioso, como se alguns fossem moralmente melhores do que outros. São, antes, um chamado à conversão profunda, que nos faz abandonar a lógica da autopromoção e abraçar a lógica da cruz.
Chegamos, então, ao Evangelho segundo Mateus (Mt 5,1-12), que nos apresenta Jesus subindo a montanha, sentando-se e ensinando. Esse cenário não é casual. Jesus aparece como o novo Moisés, que não entrega uma lei escrita em tábuas de pedra, mas grava no coração dos discípulos o caminho do Reino. As Bem-aventuranças são o início do Sermão da Montanha e funcionam como a porta de entrada para toda a ética cristã.
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” Jesus começa por aquilo que é a base de tudo: a pobreza espiritual. Não se trata de exaltar a miséria, mas de afirmar que só entra no Reino quem reconhece sua dependência de Deus. O pobre em espírito não se apoia no próprio poder, não absolutiza bens, cargos ou saberes. Ele sabe que tudo é dom.
“Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.” A mansidão não é fraqueza, mas força controlada, capacidade de não responder ao mal com o mal. Num mundo marcado pela agressividade, pela imposição e pelo conflito, a mansidão é um sinal profético.
“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Jesus não glorifica o sofrimento, mas garante que a dor não tem a última palavra. Deus não é indiferente às lágrimas humanas. Ele se aproxima de quem sofre e promete consolação.
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.” Aqui, justiça não é apenas cumprimento da lei, mas fidelidade ao projeto de Deus. É o desejo profundo de que a vida seja digna para todos, de que a vontade de Deus se realize na história.
“Bem-aventurados os misericordiosos, os puros de coração, os promotores da paz.” Essas bem-aventuranças revelam o estilo do discípulo: misericórdia em vez de julgamento, transparência em vez de duplicidade, reconciliação em vez de divisão. São atitudes que constroem o Reino no cotidiano.
Por fim, Jesus proclama felizes os perseguidos por causa da justiça. Essa bem-aventurança revela o preço do seguimento. Viver segundo o Evangelho tem consequências. O discípulo não pode esperar aplausos do mundo quando escolhe o caminho da verdade, da justiça e da fidelidade.
As Bem-aventuranças são o retrato da vida de Jesus e o caminho concreto que Ele nos propõe. São exigentes, porque pedem conversão; são desafiadoras, porque invertem valores; e são libertadoras, porque nos conduzem à verdadeira felicidade, que não depende do que possuímos, mas de quem somos diante de Deus.
Neste Quarto Domingo do Tempo Comum, somos convidados a nos perguntar com honestidade: em que colocamos a nossa felicidade? Quais critérios orientam nossas escolhas? A lógica do mundo ou a lógica das Bem-aventuranças? Seguir Jesus é aceitar que a felicidade passa pela humildade, pelo serviço, pela misericórdia e pela fidelidade ao Reino.
Que o Senhor nos conceda a graça de acolher esse ensinamento não apenas com os ouvidos, mas com a vida. Que as Bem-aventuranças se tornem o nosso caminho cotidiano e o sinal de que realmente pertencemos ao Reino dos Céus.

