Se no domingo passado fomos convidados a olhar para o interior das nossas comunidades e examinar se a nossa fé é um encontro vivo com Cristo ou apenas uma estrutura burocrática, o Evangelho deste XXII Domingo do Tempo Comum conduz a nossa reflexão eclesial a um nível ainda mais exigente e incisivo. Logo após Simão Pedro professar a fé e ser constituído rocha da Igreja, Jesus começa a revelar o caminho que o espera: ir a Jerusalém, sofrer muito, ser morto e ressuscitar. É exatamente nesse ponto que a comunidade dos discípulos entra em crise. Pedro toma Jesus à parte e o repreende: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!”
A reação de Pedro não é apenas uma fraqueza individual, é a tentação de toda a Igreja ao longo da história, a tentação de querer uma comunidade cristã sem a Cruz, uma pastoral de sucessos sem sacrifício, um cristianismo de conforto, aplausos e estruturas gloriosas, mas sem o custo do dom da própria vida. A resposta de Jesus a Pedro é uma das mais severas de todo o Evangelho: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens.”
Quando Jesus diz “vai para trás de mim”, Ele não está expulsando Pedro da comunidade. Na linguagem bíblica, ir para trás significa retomar a posição de discípulo. A Igreja comete um erro gravíssimo quando tenta ir à frente de Cristo, ditando ao Mestre como Ele deve salvar o mundo. Quando a nossa pastoral busca a eficiência humana, o prestígio social e a autopreservação antes do compromisso com os sofredores, nós nos tornamos, como Pedro, pedras de tropeço para o Reino de Deus.
Na Primeira Leitura, o profeta Jeremias (Jr 20, 7-9) expressa a dor de quem foi “seduzido” por Deus e precisa anunciar a verdade em meio à incompreensão e ao escárnio da sociedade. A verdadeira missão eclesial incomoda, gera resistência e exige renúncia. Como nos exorta São Paulo na Segunda Leitura (Rm 12, 1-2), a Igreja não pode se “conformar com este mundo”, moldando sua mensagem ao gosto da cultura dominante para evitar o conflito ou a rejeição. Diante disso, Jesus apresenta à comunidade três atitudes fundamentais para o seguimento eclesial e pastoral.
A primeira constitui-se essencialmente como renúncia, a partir da qual podemos entender que para a nossa paróquia e nossos movimentos, renunciar significa abandonar o auto-referencialismo, as vaidades em torno aos cargos, os ciúmes pastorais e a busca por aplausos. Uma Igreja que serve a si mesma perde a sua razão de ser. A segunda atitude fundamental consolida-se como um abraço sincero da Cruz, por meio da qual assumimos com coragem os desgastes dos serviços, a paciência no acolhimento dos mais difíceis, a perseguição quando defendemos a justiça e a fidelidade ao Evangelho mesmo quando o mundo nos ridiculariza. Por fim, a terceira atitude valida-se definitivamente através do seguimento, pois a Cruz não é um fim em si mesma, mas o caminho inevitável da doação que conduz à vitória da Ressurreição.
Meus irmãos e minhas irmãs, a lógica do Evangelho é paradoxal: a comunidade que tenta “salvar a sua vida”, fechando-se em suas seguranças, preservando seus recursos e evitando o desgaste do anúncio missionário, acaba por se esvaziar e morrer na sua própria esterilidade. Mas a comunidade que “perde a sua vida” por amor a Cristo e aos irmãos, doando seu tempo, sua energia e suas portas para os marginalizados, encontra a vida em abundância. Peçamos nesta Eucaristia a graça de ser uma Igreja corajosa. Que o Senhor nos livre da tentação de um Evangelho facilitado e nos dê a maturidade de caminhar atrás d’Ele, abraçando a Cruz do serviço diário, para que possamos testemunhar ao mundo a verdadeira glória do Ressuscitado.



