Neste XVIII Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos convida a despir a narrativa da Multiplicação dos Pães de qualquer sentimentalismo. Para compreender o que acontece em Mateus 14, precisamos escavar a raiz antropológica, histórica, social e política do século I. O “milagre” que Jesus realiza no deserto não é uma mágica para impressionar devotos; é um “sinal” profético de ruptura contra a engrenagem de morte do seu tempo.
Para entender este binômio milagre-sinal, é preciso entender o cenário. A Galileia do tempo de Jesus estava esmagada por uma dupla tributação sufocante: de um lado, os impostos de Roma e da dinastia herodiana (tributos sobre a terra, o comércio e a pesca); do outro, as taxas do Templo de Jerusalém (os dízimos e as ofertas obrigatórias). Essa pressão fiscal fazia com que os camponeses perdessem suas terras por dívidas, levando muitos ao extremo da miséria, vivendo de esmolas e donativos.
A fome no tempo de Jesus não era um acidente natural; era uma fome construída politicamente, de modo que ainda que trabalhassem pesado, as famílias acabavam por viver sob o fardo de estarem constantemente pobres, no limite de suas forças e de suas proveniências, sendo vítimas de artimanhas típicas dos que se apegam às estruturas de poder e aos privilégios obtidos a partir de mentiras, abusos e desonestidades.
Mateus situa este episódio logo após a execução de João Batista. Herodes Antipas acabara de dar um banquete de morte em seu palácio (Mt 14, 1-12), um banquete marcado pela opulência, pelo luxo, pela luxúria e pelo sangue do profeta. É exatamente em contraposição a esse banquete palaciano que Jesus realiza a sua ceia no deserto. Vejamos, pois, os contrapontos: se o banquete de Herodes contava com a presença de uma elite política e militar, o banquete de Jesus tem como comensais os famintos, doentes e excluídos; se em um impera a exploração e a morte de um profeta, no outro se prevalece a compaixão e a vida em abundância; se no palácio se nota uma atmosfera de medo e um prazer cruel e tirano a partir de uma decapitação, no deserto se vislumbra uma atmosfera de partilha fraterna, de saciedade, ainda que em meio a peripécias, de sobra onde até então só se via miséria. Que beleza a desse deserto; beleza incomum que nos convida a ir um pouco além no exercício exegético, hermenêutico e contemplativo.
O deserto na antropologia bíblica não é apenas um lugar geográfico: é o espaço da libertação do Egito, o lugar onde Deus fez chover o maná, o espaço onde não há rei nem imperador, onde o povo aprende a ser irmão. Quando os discípulos dizem: “Despede as multidões para que vão às aldeias comprar comida”, eles estão reproduzindo a lógica dominante: a lógica do Mercado, onde quem não tem dinheiro passa fome. A solução do sistema é sempre “cada um por si”. A resposta de Jesus é um raio em céu aberto: “Dai-lhes vós mesmos de comer.” Jesus recusa a lógica mercantil e estabelece a economia da Graça. Ele pega cinco pães e dois peixes, o alimento básico da dieta dos camponeses pobres da Galileia, e realiza os gestos da Aliança. Ao recolherem doze cestos, o Evangelho sinaliza a restauração do novo Povo de Deus (as 12 tribos de Israel). Onde o sistema gera escassez e miséria, a partilha no Reino gera abundância.
Ao olhar para a realidade de hoje, em especial no Brasil, onde a fome e a desigualdade ainda laceram a dignidade de milhões de irmãos, a Igreja Católica é frequentemente atacada quando exige justiça social e defende os pobres. Quantas vezes ouvimos a acusação leviana de que a preocupação com os famintos é “ideologia” ou “comunismo”? A Palavra de Deus e a Tradição da Igreja respondem com clareza cristalina: a partilha do pão não é comunismo; é Cristianismo na sua mais pura expressão e essência, com toda sua radicalidade, a partir de Cristo, e sua fecundidade, a partir da Igreja!
A Doutrina Social da Igreja (DSI) ensina pelo princípio da Destinação Universal dos Bens: “Deus destinou a terra e tudo o que ela contém ao uso de todos os homens e povos. Por isso, os bens criados devem chegar a todos em justa proporção, segundo a regra da justiça, acompanhada pela caridade.” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2402 / Gaudium et Spes, 69). São João Crisóstomo, Doutor da Igreja no século IV, já dizia com rigor profético: “Não fazer os pobres participantes dos nossos próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles.” E São Gregório Magno reforçava: “Quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não lhes fazemos liberais doações pessoais, mas lhes devolvemos o que é deles. Cumprimos um dever de justiça, mais do que um ato de caridade.” Estes homens, caros irmãos, não foram comunistas ao fazerem ressoar, categoricamente, tais afirmações; eles foram verdadeiramente cristãos.
Trazendo para os tempos atuais vemos que esta fé encarnada não é uma teoria distante, pois a podemos testemunhar na história recente da Igreja no Brasil através de homens da Igreja que entenderam o “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Dom Hélder Câmara, o “Irmão dos Pobres”, Auxiliar do Rio de Janeiro e depois Arcebispo de Olinda e Recife, que denunciou as estruturas de miséria e nos deixou a frase histórica: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles não têm comida, me chamam de comunista.” Dom Hélder, que no Rio de Janeiro foi bispo auxiliar do Cardeal Jaime de Barros Câmara e criou o Banco (hoje Instituto) da Providência, sabia que a caridade não se limita a dar a esmola que sobra, mas exige combater as causas da fome.
Para não incorrer em injusta proporção, cabe lembrar que não só tais homens da Igreja tiveram a felicidade de aplicar o Cristianismo em sua dimensão libertadora; haja vista o testemunho de uma mulher aparentemente frágil, mas essencialmente forte no Espírito do Senhor. Faço referência, queridos irmãos, à nossa querida Santa Dulce dos Pobres, o “Anjo Bom da Bahia”, que sem recursos financeiros, mas movida por uma compaixão visceral, transformou um galinheiro no maior complexo de saúde pública da Bahia para acolher os mendigos e doentes de rua, alcançando assim a incomensurável Graça de, a exemplo de Cristo, pegar também ela os “cinco pães e dois peixes” de sua frágil condição e de seus poucos recursos, para desde aí alimentar multidões, multiplicando amor e ternura no meio de quem estava acostumado a condutas de desprezo e ódio.
Participar da Santa Missa, comungar o Corpo de Cristo e fechar os olhos para o irmão que passa fome na porta da igreja ou nas periferias de nossas cidades é viver uma Eucaristia vazia. Como nos alerta o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (n. 53): “Assim como o mandamento ‘não matarás’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata.”
Que a celebração deste XVIII Domingo do Tempo Comum purifique a nossa fé. Que o Senhor nos livre da tentação de acomodar o Evangelho aos interesses dos poderosos ou de reduzi-lo a um mero ritual estético. Que ao sairmos de nossas celebrações, de nossas Igrejas, atendendo ao envio missionário: “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”, tenhamos a coragem de ser as mãos de Cristo que multiplicam o pão, denunciando a injustiça e construindo a sociedade sonhada por Deus, onde a mesa seja ampla, o pão seja de todos e a dignidade humana seja o único luxo a se ostentar.


