A Justiça de Deus e a Missão do Filho Amado

    Com a celebração da Festa do Batismo do Senhor, a liturgia da Igreja encerra o sagrado tempo do Natal e nos introduz na primeira etapa do Tempo Comum. Retornando da experiência profunda da celebração da Epifania em Roma com o rito da conclusão do ano jubilar e dos abençoados dias do Consistório extraordinário, retomamos a Trezena de São Sebastião e a caminhada arquidiocesana. Estamos no início do ano civil de 2026, um tempo que se abre diante de nós como uma página em branco, pronta para ser escrita com a tinta da nossa fé e do nosso testemunho cristão. A cena que o Evangelho deste Ano A (Mateus 3, 13-17) nos apresenta é de suma importância para compreendermos quem é Jesus e, consequentemente, quem somos nós como seus discípulos.

    Ao contemplarmos Jesus descendo às águas do Rio Jordão, deparamo-nos com um mistério profundo de humildade e solidariedade. João Batista, o Precursor, que pregava um batismo de conversão para o perdão dos pecados, fica perplexo. Ele reconhece a santidade daquele que se aproxima. Por isso, tenta impedi-lo, dizendo: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. A reação de João é compreensível. Jesus é o Cordeiro de Deus, aquele que não tem pecado. Por que, então, submeter-se a um rito destinado aos pecadores?

    A resposta de Jesus é a chave de leitura para todo o seu ministério público que se inaugura naquele momento: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça”. No linguajar bíblico de Mateus, “cumprir toda a justiça” não se refere à justiça jurídica ou legalista dos homens, mas sim à total adesão à vontade salvífica do Pai. A “justiça” é o plano de Deus para salvar a humanidade. Ao entrar na fila dos pecadores, Jesus não o faz para ser purificado, mas para assumir sobre seus ombros a condição humana, santificando as águas e abrindo para nós o caminho do renascimento. Ele desce ao abismo da nossa humanidade para nos elevar à dignidade de filhos de Deus.

    Este gesto de Jesus cumpre perfeitamente a profecia de Isaías, que ouvimos na primeira leitura (Is 42, 1-4.6-7). O Profeta nos apresenta o “Servo do Senhor”, aquele em quem Deus põe o seu agrado. Diferente dos poderosos deste mundo, que impõem sua vontade pela força e pelo grito, o Servo age com mansidão: “não gritará, nem fará ouvir a sua voz nas praças”. Ele vem para restaurar, não para destruir. “Não quebrará a cana rachada, nem apagará o pavio que ainda fumega”. Esta imagem é belíssima e consoladora para nós. Quantas vezes nos sentimos como uma cana rachada pelas dificuldades da vida, ou como um pavio quase apagado pelo desânimo e pelo pecado? Jesus, o Filho Amado, vem para curar a cana e reacender a chama da fé e da esperança.

    O Batismo no Jordão é, portanto, uma Epifania — uma manifestação gloriosa da Santíssima Trindade. O céu, que estava fechado pelo pecado da humanidade, se abre. O Espírito Santo desce sobre Jesus em forma corpórea, como pomba, ungindo-O para a missão. E a voz do Pai ressoa: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”. Aqui, a identidade de Jesus é revelada publicamente. Ele não é apenas mais um profeta; Ele é o Filho, o Ungido, o Messias esperado.

    Na segunda leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos (At 10, 34-38), Pedro toma a palavra para confirmar que “Deus não faz acepção de pessoas”. A unção que Jesus recebeu no Jordão não foi para benefício próprio, mas para que Ele “passasse fazendo o bem e curando a todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele”. A missão de Cristo é libertadora e universal. Ele foi ungido com o Espírito Santo e com poder para instaurar o Reino de Deus, um reino de justiça, amor e paz.

    Mas, o que esta festa diz a nós, hoje, em 2026? Ela nos recorda, fundamentalmente, do nosso próprio batismo. No dia em que fomos batizados, céus também se abriram sobre nós. Fomos lavados do pecado original, inseridos na morte e ressurreição de Cristo e tornamo-nos templos do Espírito Santo. A mesma voz que proclamou Jesus como Filho Amado, nos adota como filhos e filhas no Filho. Esta é a nossa maior dignidade: somos filhos de Deus! Nada nem ninguém pode nos tirar essa marca indelével.

    O batismo não é uma honra ou um rito social; é um dom, um compromisso de vida. Assim como Jesus saiu das águas para iniciar sua missão pública, nós também somos enviados. O Papa Francisco sempre nos recorda que somos “discípulos missionários”. Não podemos guardar a alegria do Evangelho apenas para nós. O mundo precisa, mais do que nunca, de cristãos que, a exemplo do Mestre, “passem fazendo o bem”.

    Vivemos em tempos desafiadores, onde muitas vezes a violência, a indiferença e o egoísmo parecem prevalecer. Em nossas grandes cidades, vemos tantas “canas rachadas” — irmãos e irmãs excluídos, sofrendo nas periferias existenciais e geográficas. Como batizados, somos chamados a ser a presença consoladora de Cristo para essas pessoas. Somos chamados a cumprir a justiça de Deus, trabalhando pela dignidade humana, pela paz e pela fraternidade.

    A descida do Espírito Santo sobre Jesus nos lembra que não estamos sozinhos nesta missão. O mesmo Espírito que ungiu o Senhor nos foi dado no Batismo e na Crisma. É Ele quem nos dá força, coragem e sabedoria para testemunhar a verdade em meio às contradições do mundo.

    Ao iniciarmos a primeira parte do Tempo Comum, peçamos a graça de redescobrir a beleza do nosso batismo. Que possamos renovar as nossas promessas batismais, renunciando a tudo o que nos afasta de Deus e professando nossa fé com vigor renovado. Que a nossa vida seja um reflexo da luz de Cristo, para que o Pai possa olhar para nós e ver, em nossas ações, a imagem do seu Filho Amado.

    Que Maria Santíssima, que acompanhou seu Filho desde o nascimento até a cruz, e estava presente no nascimento da Igreja em Pentecostes, nos ajude a viver com fidelidade a nossa vocação batismal neste ano que se inicia.

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