A liturgia da Igreja, com profunda lucidez espiritual, interrompe o clima luminoso do Natal para nos colocar diante de uma de suas páginas mais duras e desconcertantes: a memória dos Santos Inocentes. Ainda ressoam os cânticos da noite santa, ainda contemplamos o Menino deitado na manjedoura, e já somos confrontados com o grito, o sangue e a morte. A Igreja não nos permite um Natal anestesiado, sentimental ou desligado da realidade. Ela nos recorda que o mistério da Encarnação acontece num mundo ferido pelo pecado, onde a luz é combatida pelas trevas. Neste ano, por causa da Festa da Sagrada Família, que neste ano cai no domingo dentro da oitava do Natal a festa dos Santos Inocentes é suprimida. Mas vale a reflexão sobre os santos inocentes.
O Evangelho segundo São Mateus – Mt 2,13-18 – narra o massacre ordenado por Herodes. Não se trata de um episódio secundário ou meramente decorativo da infância de Jesus, mas de uma revelação brutal da lógica que governa os poderes deste mundo. Diante da possibilidade de perder o trono, Herodes escolhe matar. Diante do nascimento da Vida, responde com a morte. O Evangelho não suaviza os fatos nem oferece explicações psicológicas para justificar a violência. Ele mostra, sem disfarces, o rosto cruel de um poder que se absolutiza e transforma vidas inocentes em obstáculos descartáveis.
Herodes não é apenas uma figura do passado. Ele representa toda forma de poder que se fecha em si mesma, que transforma o outro em ameaça e que considera a própria segurança, o próprio lucro ou o próprio prestígio mais importante do que a vida humana. Sempre que o poder se torna autorreferencial, ele se converte em ameaça para os pequenos. Sempre que a vida frágil é vista como problema, a violência passa a ser considerada solução.
O texto evangélico nos diz que Jesus escapa porque José obedece à voz do anjo e foge com a família para o Egito. O Filho de Deus começa sua vida como perseguido e refugiado. Desde os primeiros dias, conhece o exílio, a insegurança, a ameaça constante. O presépio, portanto, não é um cenário idílico; é o lugar da extrema vulnerabilidade. O Deus feito criança entra na história assumindo a condição dos que não têm garantias.
Os Santos Inocentes, mortos “por causa de Cristo”, não conheciam seu nome, não professaram sua fé, não escolheram conscientemente o martírio. Mesmo assim, a Igreja os reconhece como mártires. Eles morrem por causa de Cristo, em consequência direta de sua presença no mundo. Seu sangue derramado denuncia até onde pode chegar a rejeição ao Reino de Deus quando ele confronta estruturas de poder injustas.
O Evangelho recorda as palavras do profeta Jeremias: “Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamentação”. (Mt 2,18) Este lamento atravessa os séculos. É o choro das mães que veem seus filhos arrancados de seus braços. É o grito que não se cala na história humana. E é profundamente significativo que a liturgia faça ecoar esse grito no tempo do Natal. Deus não se faz surdo ao sofrimento humano, nem o encobre com discursos piedosos. Ele o assume e o carrega consigo.
São João, em sua Primeira Carta 1Jo 1,5-2,2 – nos recorda que Deus é luz e que nele não há trevas. Mas a Palavra é exigente: quem diz estar na luz e vive no pecado engana a si mesmo. A festa dos Santos Inocentes coloca essa afirmação diante de nós de modo incômodo. Não basta proclamar a luz do Natal; é preciso rejeitar as obras das trevas. Não basta venerar o Menino Jesus; é preciso defender concretamente a vida ameaçada.
Esta memória possui uma força profética extraordinária para o nosso tempo. Hoje continuam a morrer inocentes em proporções assustadoras. Crianças vítimas da fome estrutural, da violência doméstica, do tráfico de drogas, das guerras, do abandono, da exploração sexual, do trabalho infantil e da eliminação deliberada da vida ainda no ventre materno (segundo algumas estatísticas seriam num ano mais de 4 milhões!). O massacre dos inocentes não pertence apenas ao passado bíblico; ele se repete diariamente, muitas vezes com a cumplicidade silenciosa da sociedade.
Celebrar os Santos Inocentes é, portanto, um ato de denúncia. A fé cristã não permite neutralidade diante da morte injusta. O silêncio, nesses casos, torna-se cumplicidade. Não podemos cantar a glória do Natal e fechar os olhos para o choro de Raquel que continua ecoando na história. Onde crianças são feridas, descartadas ou esquecidas, o Evangelho está sendo negado na prática.
Mas esta festa não é apenas denúncia; é também juízo e esperança. Herodes, símbolo do poder violento, desaparece. Seu nome permanece ligado à crueldade e ao fracasso. Os inocentes, ao contrário, vivem em Deus. A lógica do Reino inverte a lógica do mundo: os que pareciam vencidos participam da vitória de Cristo; os que não tinham voz tornam-se testemunhas eternas da verdade.
Os Santos Inocentes revelam o coração de Deus. Ele não se identifica com os vencedores segundo os critérios do mundo, mas com as vítimas. Não está ao lado dos que matam para se preservar, mas dos que perdem a vida sem culpa. Isso tem consequências diretas para a missão da Igreja. A Igreja se coloca claramente ao lado dos inocentes para anunciar o Evangelho. Não podemos nos acomodar diante da injustiça com o perigo de perder a credibilidade.
Dentro da Oitava do Natal, esta memória nos ensina que não existe presépio sem cruz. O Menino de Belém é o mesmo Cristo que será rejeitado, perseguido e crucificado. Desde o início, sua presença revela consciências, provoca divisões e desestabiliza falsas seguranças. A Encarnação não é um ornamento religioso; é uma intervenção radical de Deus na história humana.
Essa memória litúrgica nos obriga a repensar nossos critérios de sucesso, progresso e desenvolvimento. O mundo mede sua grandeza pela força, pela eficiência e pela acumulação. O Evangelho dos Santos Inocentes desmonta essa lógica. Aqui, os protagonistas não são os fortes, mas os frágeis; não são os vencedores, mas as vítimas. A história da salvação passa por eles.
A morte dos inocentes revela também que o pecado não é apenas pessoal, mas estrutural. Herodes não age sozinho. Ele se apoia em sistemas, ordens, omissões e cumplicidades. Isso nos obriga a perguntar quantas mortes hoje acontecem não apenas pela ação direta de alguém, mas pela indiferença de muitos. Quantas vidas são ceifadas porque nos acostumamos ao sofrimento e normalizamos o inaceitável.
Celebrar os Santos Inocentes é um chamado à conversão. Conversão pessoal, para que nossos critérios não se ajustem à lógica da morte. Conversão comunitária, para que nossas comunidades não se tornem indiferentes ao sofrimento dos pequenos. Conversão social, para que não aceitemos estruturas que produzem exclusão e morte.
Não podemos ignorar os corpos descartados da história. Não podemos proclamar “Glória a Deus nas alturas” sem trabalhar para que haja paz na terra para os pequenos. A liturgia deve se traduzior em compromisso com a vida.
Que esta celebração nos conceda um Natal amadurecido pela cruz, uma fé purificada de ilusões e uma esperança comprometida com a vida concreta. Que o sangue dos inocentes não seja esquecido, nem em Belém, nem em nosso tempo. E que o Menino que escapou da espada de Herodes nos conceda coragem para enfrentar hoje todas as formas de violência que continuam a ameaçar os pequenos.
Que os Santos Inocentes intercedam por nós, para que jamais nos acostumemos com a morte e nunca deixemos de escolher a vida.

