No dia 28 de dezembro, a Igreja Católica celebra, dentro da Oitava de Natal, a memória dos Santos Inocentes: as crianças que foram cruelmente assassinadas por ordem do rei Herodes, conforme narrado no Evangelho de Mateus: “Herodes ficou furioso ao perceber que tinha sido enganado pelos magos. Mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo em Belém e em todo o seu território” (Mt 2,16). Este trágico evento, conhecido como a “matança dos inocentes”, ocorreu logo após o nascimento de Jesus e evidencia o medo de Herodes diante da chegada do Messias.
Essas crianças, que não tiveram a oportunidade de conhecer Jesus, são consideradas os primeiros mártires. Mesmo sem palavras ou atos conscientes de fé, deram suas vidas em nome de Cristo, tornando-se sinais do amor de Deus e da promessa de salvação. A liturgia da Igreja reconhece sua pureza e inocência como reflexos da graça divina, lembrando que “do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, o mundo e os que nele habitam” (Sl 24,1).
A celebração dos Santos Inocentes nos convida a refletir sobre o valor inegociável da vida, especialmente a das crianças, que ocupam um lugar privilegiado no coração de Deus. Jesus nos ensinou: “Deixem as crianças virem a mim, porque delas é o Reino dos Céus” (Mt 19,14). Essa mensagem nos desafia a proteger e valorizar a vida desde o momento da concepção até seu fim natural, reconhecendo que cada ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27).
O contexto da matança dos inocentes também nos remete à fuga da Sagrada Família para o Egito, narrada em Mateus 2,13-15. Ao receber a mensagem do anjo, José imediatamente obedeceu, protegendo Jesus e Maria de Herodes. Este episódio ressalta a importância da obediência à vontade de Deus e do cuidado com os mais vulneráveis. São José, modelo de pai e protetor, nos ensina a confiar na providência divina, mesmo em situações de grande dificuldade.
A memória dos Santos Inocentes também nos convida a olhar para o sofrimento das crianças em nossos dias. Milhões de crianças ainda enfrentam a violência, a exploração, o abandono e a pobreza. O Papa Francisco frequentemente nos recorda dessa realidade, dizendo: “Devemos proteger as crianças, amá-las e dar-lhes um futuro digno, pois nelas está a esperança do mundo” (Audiência Geral, 2015).
Além disso, a festa dos Santos Inocentes é um chamado à denúncia das injustiças e à promoção de uma cultura de paz. Assim como Herodes usou seu poder para destruir vidas, hoje somos confrontados com sistemas e estruturas que ameaçam a dignidade humana. Como cristãos, somos desafiados a ser luz nas trevas, anunciando a mensagem do Evangelho e defendendo os direitos dos mais frágeis.
O Papa Francisco escreveu uma carta, em 28 de dezembro de 2017, aos Bispos de todo o mundo em que ele disse textualmente: “A nosso malgrado, o Natal é acompanhado também pelo pranto. Os evangelistas não se permitiram mascarar a realidade para a tornar mais credível ou atraente; não se permitiram criar um fraseado «bonito», mas irreal; para eles, o Natal não era um refúgio imaginário onde esconder-se perante os desafios e injustiças do seu tempo. Ao contrário, anunciam-nos o nascimento do Filho de Deus envolvido também numa tragédia de dor. No-lo apresenta com grande crueza o evangelista Mateus, citando o profeta Jeremias: «Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto; é Raquel que chora os seus filhos» (2, 18). É o gemido de dor das mães que choram a morte de seus filhos inocentes, causada pela tirania e desenfreada sede de poder de Herodes. Um gemido que podemos continuar a ouvir também hoje, que nos toca a alma e que não podemos nem queremos ignorar ou silenciar. Hoje, entre o nosso povo, infelizmente – escrevo-o com profundo pesar –, ouve-se ainda a lamentação e o pranto de tantas mães, de tantas famílias, pela morte dos seus filhos, dos seus filhos inocentes.” https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/francisco/carta-do-papa-bispos-na-festa-dos-santos-inocentes/, último acesso em 15 de dezembro de 2024.
A celebração dos Santos Inocentes é marcada por um tom de esperança. Mesmo diante da crueldade de Herodes, o nascimento de Jesus trouxe ao mundo a luz que vence as trevas. “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz brilhou” (Is 9,1). Essa luz continua a iluminar nossos caminhos, convidando-nos a confiar na vitória definitiva do amor de Deus sobre o mal.
O Natal é um tempo que nos desafia a guardar a vida e ajudá-la a nascer e crescer; a renovar-nos como filhos e filhas de Deus. Esta coragem que gera dinâmicas capazes de tomar consciência da realidade que estão a viver hoje muitas das nossas crianças e de trabalhar por lhes garantir as condições necessárias para que a sua dignidade de filhos de Deus seja não só respeitada, mas também e sobretudo defendida. Nossas crianças merecem ser protegidas e promovidas com um renovado empenho evangelizador.
Que os Santos Inocentes intercedam por nós, para que possamos ser defensores da vida, promotores de políticas públicas que defendam as crianças e promotores da paz.