Misericórdia e misericordiosos

    No dia festivo do Coração de Jesus, nós celebramos também o Dia Mundial de Orações pela Santificação do Clero. Todas as paróquias são convidadas a inserir essa intenção em suas orações nessa sexta-feira do Coração de Jesus. Porém, com os sacerdotes, nós fazemos a comemoração no dia anterior, na quinta-feira. Por isso, nesse dia celebramos na Igreja da Divina Misericórdia, em Vila Valqueire, um dia especial em nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro: o dia de orações pela santificação do clero com o próprio clero, e o ano do Jubileu da Divina Misericórdia no Santuário Arquidiocesano próprio. Somos chamados a fazer experiência da misericórdia e ser, de um modo muito particular, misericordiosos para com o nosso povo sofrido, onde quer que atuem.
    Nesse sentido, vamos buscar luzes na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), cuja riqueza de ensinamentos é imensa, e tenho certeza de que muita inspiração nos virá pela Palavra acolhida. Existem na história da Igreja muitos santos e santas que trataram desse assunto. Uma Santa ligada à vida monástica nos ajudará nessa reflexão. Aqui nos valemos do livro: Recorramos a Santa Gertrudes de Helfta! Mística, mensageira da Divina Misericórdia e amiga íntima do Sagrado Coração de Jesus. São Paulo/SP. Ed. Ixtlan, 2016.
    O contexto que dá ensejo a essa parábola é o seguinte: Jesus está em Jericó (ao Norte do Mar Morto), ensinando em uma sinagoga, quando um doutor da Lei lhe dirige uma pergunta embaraçosa, o que, aliás, já era comum (cf. Mt 22,15-22. 23-33. 34-40; 21,23-27 etc.). O especialista em legislação quer saber o que deve fazer para ganhar a vida eterna ou a salvação (questão central a todo ser humano).
    Talvez o sábio esperasse uma resposta que lhe elencasse as leis, como fizera Jesus ao jovem rico (cf. Mc 10,19). A isso, o legista responderia que já as observava desde pequeno; ou, então, ele esperava que o Senhor lhe desse uma sentença moral, fundamentada em alguma escola rabínica. O doutor da Lei ofereceria semelhante interpretação de outra escola de rabinos. Estaria armado alto debate teológico-jurídico.
    No entanto, o Senhor Jesus foge das alternativas comuns e propõe ao interlocutor uma questão com base na própria Lei de Moisés, que todo judeu defendia com ardor: “Que está escrito na Lei? Como se lê?” – O sábio judeu respondeu de um modo inteligente: para ter a vida eterna é necessário amar a Deus (preceito do chamado Shemá ou do Ouve Israel), contido em Dt 6,4-9. Contudo, foi além, acrescentando outra norma que não está no Shemá, mas, sim, em Lv 19,17s. Ela ordena amar também o próximo (cf. Lc 10,27). Queria o legista, desse modo, se enquadrar na mesma visão da Lei que Jesus passava, ou seja: ame a Deus e ao próximo!
    Ora, o Senhor Jesus ficou contente e disse ao jurista: “Faze isto e viverás!”. Isso levou o próprio indagante a responder sua questão (cf. Mt 22,18-22) e reafirmou que a plenitude da Lei é a Caridade (cf. Gl 5,14).
    No entanto, o estudioso não se deu por satisfeito e armou mais uma questão para o Senhor: “E quem é o meu próximo”? Se Jesus respondesse ser qualquer um, o expert em Direito diria que a Lei restringia o conceito de próximo (re’a) e mudaria o foco do debate, mas o Senhor contorna outra vez a questão e conta-lhe uma parábola usando o próprio contexto onde eles estão: Jericó.
    Sim, diz Jesus que um homem (judeu) descia de Jerusalém a Jericó e aí foi assaltado, espancado e abandonado semimorto. Passaram por ele dois homens religiosos, o sacerdote (ministro superior do culto) e o levita (ministro inferior do culto), portanto homens que deviam ensinar e praticar a caridade, mas nada fizeram em prol do infeliz. Eram mais complacentes com um asno caído ao qual a lei ordenava erguer (cf. Êx 23,50) do que com um ser humano na mesma condição.
    Há questionamentos sobre as razões pelas quais o assaltado não foi ajudado: julgavam-no morto e se tocassem nele ficariam impuros? (cf. Nm 6,9; 19,11-13; 31,19; Lv 21,1s.11; Ag 2,13). Imaginaram que era um pagão (estrangeiro)? Ou, ainda, tiveram medo de também se tornarem as novas vítimas dos bandidos? – Como quer que seja, não houve ajuda.
    No entanto, passou por ali também um samaritano (daí o nome da parábola), que era odiado pelos judeus e também os odiava (cf. Eclo 50,25s; Jo 4,9), e este, ao contrário do levita e do sacerdote, cheio de compaixão (= sofrer com), se põe a ajudar o assaltado. Derrama em suas feridas óleo e vinho, medicação caseira no Oriente (cf. Is 1,6), e, depois dos primeiros socorros, leva o ferido a um albergue, comum na região.
    Lá pernoitou cuidando do ferido e, no dia seguinte, antes de partir, deixou ao dono da hospedaria dois denários, valor correspondente ao pagamento pelo trabalho de dois dias (cf. Mt 20,2). Isso seria suficiente para o momento, porém, o samaritano deixou recomendações para que o homem ferido fosse bem cuidado, prometendo pagar na volta os possíveis gastos adicionais. Era difícil um viajante não voltar para casa pelo mesmo caminho (cf. Mt 2,12).
    Depois de contar o ocorrido com tanta riqueza de detalhes, Nosso Senhor se volta para o doutor da Lei e pergunta: “Qual dos três, em sua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes”? (v. 36). Aqui há um fato muito marcante: o próprio questionador de antes é agora questionado. Todavia, o legista viu-se embaraçado. Não podia responder “o samaritano”, dado que este era um termo impronunciável aos judeus. Disse apenas que fora próximo do assaltado “aquele que usou de misericórdia para com ele” (v. 37). Jesus então concluiu: “Vai, e também tu faze o mesmo”.
    Da parábola do Bom Samaritano podemos assinalar as seguintes lições, breves, mas importantes:
    a) o próximo a ser amado é todo ser humano, sem distinção alguma. (diferente do que a Torá colocava como limite);
    b) se todo indivíduo é merecedor da caridade, então o problema não está, de modo algum, no necessitado, mas, sim, em nós que escolhemos, não raras vezes, a quem fazer e a quem não fazer o bem. Pensamos mais ou menos assim: se ele não fosse um dependente químico, eu o ajudaria; ou, se ela não estivesse na prostituição, eu teria pena dela, ou ainda: caso fosse um ser humano bom, eu até estenderia minha mão etc. Somos seletistas. Precisamos de conversão!
    c) o samaritano não pensou que o judeu caído era seu inimigo, mas, por amor de Deus, foi compassivo para com ele, salvando-lhe a vida em sua obra de misericórdia. Deu exemplo de caridade. Exemplo que o mundo, cansado de tantas teorias filosófico-religiosas, quer ver e, quem sabe, imitar no seu dia a dia.
    Daqui vemos que a parábola nos provoca em três pontos importantes: o Sacramento da Penitência, a acolhida dos que nos procuram e a caridade material em nosso meio.
    1) O Sacramento da Penitência é, com justa razão, chamado por alguns autores de Espiritualidade ou Teologia Sacramental de “tribunal da misericórdia divina”, pois ali é o único tribunal no mundo, ontem e hoje, que o réu sai, invariavelmente, perdoado. Mais: ele só não recebe o perdão se não quiser, ou seja, caso deseje permanecer no pecado e não mudar de vida. Do contrário, ouvirá do confessor a consoladora sentença: “Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Em nome de Deus Uno e Trino, o padre, por ordem divina (cf. Jo 20,23), o perdoa e ele volta para a sua faina diária sadio e restabelecido na graça divina, caso estivesse em pecado grave.
    O sacerdote é chamado a ser não um julgador frio que contabiliza as penas do pecador, mas um pai misericordioso que não barganha a doutrina da fé no mercado, como recentemente lembrou o Papa Francisco, mas que sabe, sem abrir mão do patrimônio da fé e da moral da Igreja, entender as falhas humanas, começando pelas suas próprias. Afinal, quem de nós não temos nossos defeitos, pecados, recaídas na vida da graça, em demanda da pátria definitiva e não necessitamos do poderoso e misericordioso auxílio divino?
    O Papa Francisco nos dá, uma vez mais, o grande exemplo. Sim, o jornalista lhe pergunta: “Com que frequência se confessa”? e o Papa responde: “A cada 15 ou 20 dias. Confesso-me a um padre franciscano, o padre Blanco, que tem a bondade de vir cá confessar-me” (L’Osservatore Romano, 17/09/15, p. 18). Desnecessário é explicar aqui que só temos a obrigação moral de confessar os pecados graves, mas é muito salutar que confessemos também os pecados leves, a fim de mais e mais progredirmos na graça divina e, assim, tornarmos nossa vida e nosso ministério mais conformes à vontade de Deus.
    2) A acolhida é um grande ato de misericórdia. De alguns anos para cá muito se tem falado e até escrito sobre isso. Instituiu-se em alguns locais a Pastoral da Acolhida, ou seja, um grupo de pessoas que, nas entradas das igrejas, entregam o folhetinho da Missa e também cumprimentam os demais fiéis. Nessa hora, alguns tiram dúvidas do tipo “Que horas posso falar com o padre”? “Como fazer para batizar meu netinho”? “Será que o padre vai visitar meu tio acamado”?… Também em alguns locais o próprio sacerdote acolhe na porta principal da Igreja. Isso é muito louvável, no entanto é preciso mais: acolher misericordiosamente como Cristo acolheria nos momentos em que a pessoa mais precisa: luto, desavenças, necessidades materiais etc. Como temos recebido aqueles e aquelas que vêm até nós em nossas paróquias e comunidades? Temos tempo ou nunca o temos para essas pessoas realmente necessitadas? Muitas vezes nossas secretarias são mais um guichê de departamento do que um local de evangelização na acolhida das pessoas.
    3) A caridade material é deveras importante, pois não se cuida só da alma de alguém, mas também do corpo. O ser humano é psicossomático (alma e corpo), de modo que precisa viver em harmonia: se uma das partes não está bem, a pessoa sofre muito no seu todo. Aqui se entende que as obras de misericórdia corporais elencadas no Evangelho de Mateus 25 se aplicam a todos. A antiga prática de se recolher alimentos ou dádivas naturais no momento das ofertas da Missa, a fim de serem distribuídos aos mais necessitados, deve ocorrer, embora de modo diferente ainda nos nossos dias e sempre.
    Sim, deve a paróquia ser um porto seguro ou, como gosta de dizer nosso querido Papa Francisco, um “hospital de campanha” pronto a acudir os mais necessitados não só espiritual, mas também materialmente. As campanhas do quilo para montagem de cestas básicas, de remédios, de roupas (pensemos no inverno) ou outros bens são importantes. O padre, junto com grupos de leigos atuantes, atenderá a essas necessidades, formando uma comum unidade não só na fé, mas também na partilha. É preciso que as pessoas voltem a dizer – não para aparecermos, mas para bem vivermos a essência da nossa fé – a frase marcante dos primeiros cristãos: “Vede como eles se amam”.
    Amamo-nos em Cristo Jesus, a Pedra Angular da nossa fé, e por Ele amamos o próximo praticando para com ele a caridade do samaritano…, caridade que não tem limites porque nos faz vivenciar a misericórdia do próprio Deus para conosco. Ele se compadece das nossas necessidades espirituais e temporais e vem em nosso auxílio e em auxílio daqueles a nós confiados.
    Se as pessoas não encontrarem as portas da igreja e… mais que isso, do nosso coração abertas nos momentos mais difíceis de suas vidas, que sentido terá o jubileu em nossas vidas? Que uso teremos feito das graças que Deus nos deu neste Ano Santo? O que mudamos? O que ainda devemos mudar em nossa caminhada para sermos um pouco mais imagem do Filho de Deus ao mundo? A lei máxima da Igreja, segundo o Código de Direito Canônico, é a salvação das almas. A resposta a essas questões é pessoal e, à luz da Parábola meditada, teremos as respostas, com a graça de Deus que a ninguém falta…

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