{"id":99169,"date":"2026-10-18T09:00:08","date_gmt":"2026-10-18T12:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=99169"},"modified":"2026-10-14T16:58:44","modified_gmt":"2026-10-14T19:58:44","slug":"dai-a-cesar-o-que-e-de-cesar-e-a-deus-o-que-e-de-deus-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/dai-a-cesar-o-que-e-de-cesar-e-a-deus-o-que-e-de-deus-2\/","title":{"rendered":"Dai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste XXIX Domingo do Tempo Comum, somos conduzidos a uma das passagens mais c\u00e9lebres e frequentemente mal interpretadas de todo o Evangelho de S\u00e3o Mateus: a controv\u00e9rsia sobre o tributo pago a C\u00e9sar (Mt 22, 15-21). Encerrado o tr\u00edptico das par\u00e1bolas do julgamento no Templo de Jerusal\u00e9m, os advers\u00e1rios de Jesus alteram a sua t\u00e1tica. J\u00e1 n\u00e3o confrontam o Senhor em campo aberto sobre a sua autoridade, mas arquitetam uma cilada pol\u00edtica-religiosa para apanh\u00e1-lo em alguma palavra e entregar-lhe \u00e0 ru\u00edna. A exegese e a teologia moral que emergem desta per\u00edcope v\u00e3o muito al\u00e9m de uma simples diretriz sobre deveres civis: elas desvelam a hierarquia ontol\u00f3gica dos afetos do homem e reivindicam a posse absoluta de Deus sobre o cora\u00e7\u00e3o humano, criado \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto evang\u00e9lico registra a alian\u00e7a inusitada e hip\u00f3crita entre dois grupos ideologicamente antag\u00f4nicos: os fariseus e os herodianos. Os fariseus, defensores da teocracia judaica, detestavam a ocupa\u00e7\u00e3o romana e consideravam o imposto um ultraje \u00e0 soberania de Jav\u00e9. Os herodianos, por sua vez, eram partid\u00e1rios da dinastia de Herodes e colaboradores do poder de Roma, apoiando abertamente a cobran\u00e7a das taxas imperiais. Unindo-se apenas pelo \u00f3dio comum a Cristo, eles abordam o Mestre com uma lisonja venenosa: <em>&#8220;Mestre, sabemos que \u00e9s verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ningu\u00e9m&#8230;&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A armadilha \u00e9 formulada em termos de uma alternativa bin\u00e1ria e letal: <em>&#8220;\u00c9 l\u00edcito ou n\u00e3o pagar o imposto a C\u00e9sar?&#8221;<\/em> Se Jesus respondesse &#8220;Sim&#8221;, seria imediatamente rotulado pelos fariseus como um traidor da p\u00e1tria e um blasfemo contra a soberania de Deus sobre Israel, perdendo todo o cr\u00e9dito diante do povo. Se respondesse &#8220;N\u00e3o&#8221;, os herodianos e os guardas romanos o prenderiam no ato como um rebelde sedicioso e um agitador pol\u00edtico contra o Imp\u00e9rio. Quantas vezes nestes tempos de divis\u00f5es e antagonismos acontecem as mesmas armadilhas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecendo-lhes a mal\u00edcia, Jesus n\u00e3o cai na falsa dicotomia e desmascara a hipocrisia dos seus interlocutores com um gesto pedag\u00f3gico fulgurante: <em>&#8220;Mostrai-me a moeda do imposto.&#8221;<\/em> Eles apresentam-lhe um den\u00e1rio romano. O simples fato de os fariseus carregarem um den\u00e1rio dentro do recinto sagrado do Templo j\u00e1 revelava a sua cumplicidade com o sistema que verbalmente criticavam. A moeda trazia cunhada a efigie do Imperador Tib\u00e9rio acompanhada da inscri\u00e7\u00e3o divinizadora: <em>Tiberius Caesar Divi Augusti Filius Augustus<\/em> (&#8220;Tib\u00e9rio C\u00e9sar, Filho do Divino Augusto, Augusto&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contemplando o metal, Jesus faz uma pergunta de precis\u00e3o exeg\u00e9tica irrefut\u00e1vel: <em>&#8220;De quem \u00e9 esta imagem e esta inscri\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/em> Eles respondem: <em>&#8220;De C\u00e9sar.&#8221;<\/em> \u00c9 ent\u00e3o que o Senhor pronuncia a senten\u00e7a eterna que reorganiza para sempre as rela\u00e7\u00f5es entre a f\u00e9 e a pol\u00edtica, entre a Igreja e o Estado: <em>&#8220;Dai, pois, a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar, e a Deus o que \u00e9 de Deus.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira parte do preceito divino \u2014 <em>&#8220;Dai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar&#8221;<\/em> \u2014 reconhece a legitimidade da autoridade civil na sua esfera pr\u00f3pria de atua\u00e7\u00e3o, visando o bem comum, a ordem social e a justi\u00e7a. O crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um an\u00e1rquico nem um evadido da hist\u00f3ria; ele cumpre os seus deveres cidad\u00e3os, paga os tributos justos e colabora para a edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade reta. Todavia, a contribui\u00e7\u00e3o a C\u00e9sar \u00e9 limitada e condicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1pice e o cora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico do ensinamento de Cristo residem na segunda parte da senten\u00e7a: <em>&#8220;E a Deus o que \u00e9 de Deus.&#8221;<\/em> Com uma intui\u00e7\u00e3o fulgurante, a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja \u2014 de Tertuliano a S\u00e3o Greg\u00f3rio de Nissa e S\u00e3o Jer\u00f4nimo \u2014 leu nesta ant\u00edtese uma verdade antropol\u00f3gica-teol\u00f3gica e soteriol\u00f3gica fundamental: na moeda de prata estava impressa a efigie de C\u00e9sar, por isso a moeda pertencia a C\u00e9sar; contudo, na alma humana est\u00e1 gravada e impressa a Imagem de Deus (Gn 1, 26-27). Portanto, o homem pertence \u00fanica e exclusivamente a Deus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">C\u00e9sar pode exigir a moeda, a taxa, o imposto e o servi\u00e7o civil tempor\u00e1rio; mas C\u00e9sar jamais pode exigir a consci\u00eancia, o culto, o cora\u00e7\u00e3o e a adora\u00e7\u00e3o do ser humano! Nenhum Estado, nenhum imp\u00e9rio, nenhuma ideologia ou governante terreno tem o direito de se arvorar em propriet\u00e1rio da alma do homem ou de reivindicar para si o lugar que cabe unicamente ao Criador. Sempre que o poder pol\u00edtico extrapola os seus limites e tenta usurpar a consci\u00eancia, violar a lei natural ou exigir uma obedi\u00eancia absoluta que nega a Lei de Deus, a Igreja deve erguer a voz apost\u00f3lica: <em>&#8220;Importa mais obedecer a Deus do que aos homens&#8221;<\/em> (At 5, 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Primeira Leitura, extra\u00edda do Profeta Isa\u00edas (Is 45, 1.4-6), ilustra com perfei\u00e7\u00e3o a soberania absoluta de Deus sobre a hist\u00f3ria humana. O Senhor chama e unge o rei persa Ciro \u2014 um soberano pag\u00e3o que sequer conhecia o Deus de Israel \u2014 para libertar o seu povo do cativeiro da Babil\u00f4nia. Deus serve-se de Ciro para os seus des\u00edgnios de salva\u00e7\u00e3o, lembrando-nos de que todos os reinos da terra passam e os imp\u00e9rios se dobram, mas o Reino de Deus permanece para sempre: <em>&#8220;Eu sou o Senhor e n\u00e3o h\u00e1 outro; fora de mim n\u00e3o h\u00e1 Deus.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Segunda Leitura, da Primeira Carta aos Tessalonicenses (1Ts 1, 1-5b) \u2014 o escrito mais antigo de todo o Novo Testamento \u2014, S\u00e3o Paulo elogia a comunidade por viver com rigor essa perten\u00e7a a Deus, destacando a tr\u00edade das virtudes teologais: <em>&#8220;A atua\u00e7\u00e3o da vossa f\u00e9, o esfor\u00e7o da vossa caridade e a firmeza da vossa esperan\u00e7a em Nosso Senhor Jesus Cristo.&#8221;<\/em> Os tessalonicenses viviam sob o Imp\u00e9rio Romano, mas o seu cora\u00e7\u00e3o pertencia por inteiro ao Reino dos C\u00e9us.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A atualiza\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica desta passagem para a Igreja e a sociedade contempor\u00e2nea lan\u00e7a uma luz clarificadora sobre os desvios do nosso tempo. Por um lado, adverte-nos contra a tenta\u00e7\u00e3o da estatolatria e do secularismo totalit\u00e1rio, que tentam banir a f\u00e9 da pra\u00e7a p\u00fablica, rebaixando a liberdade religiosa a um mero &#8220;culto privado&#8221; e exigindo que os crist\u00e3os curvem as suas consci\u00eancias \u00e0s modas ideol\u00f3gicas do momento. O crist\u00e3o deve recordar que a sua alma traz o selo de Deus, e que nenhuma autoridade humana pode reivindicar a sua ades\u00e3o quando esta entra em contradi\u00e7\u00e3o com a Verdade revelada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, o Evangelho adverte-nos contra a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o: n\u00e3o podemos usar a f\u00e9 como bandeira para ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas terrenas, nem reduzir a salva\u00e7\u00e3o a um programa sociol\u00f3gico. A nossa miss\u00e3o no mundo \u00e9 fazer resplandecer em n\u00f3s e no conv\u00edvio humano aquela imagem divinal que foi restaurada pelo Sangue de Cristo no nosso Batismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao nos aproximarmos da Mesa Eucar\u00edstica, apresentamos ao Altar n\u00e3o moedas de prata com ef\u00edgies imperiais, mas o p\u00e3o e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, juntamente com a oferta da nossa pr\u00f3pria vida. Supliquemos ao Esp\u00edrito Santo que limpe do nosso cora\u00e7\u00e3o as poeiras do pecado e os apegos mundanos que obscurecem a Imagem Divina em n\u00f3s. Que, alimentados pelo Corpo e Sangue de Cristo, sejamos cidad\u00e3os exemplares na cidade dos homens e testemunhas corajosas da P\u00e1tria Celeste, devolvendo diariamente a Deus aquilo que d\u2019Ele recebemos por gra\u00e7a: a totalidade do nosso ser. Recordemos neste domingo de viver o 100\u00ba Dia Mundial das miss\u00f5es e colaborar com as Pontif\u00edcias Obras Mission\u00e1rias da Igreja presentes no mundo inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste XXIX Domingo do Tempo Comum, somos conduzidos a uma das passagens mais c\u00e9lebres e frequentemente mal interpretadas de todo o Evangelho de S\u00e3o Mateus: a controv\u00e9rsia sobre o tributo pago a C\u00e9sar (Mt 22, 15-21). Encerrado o tr\u00edptico das par\u00e1bolas do julgamento no Templo de Jerusal\u00e9m, os advers\u00e1rios de Jesus alteram a sua t\u00e1tica. 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