{"id":99049,"date":"2026-09-24T10:41:31","date_gmt":"2026-09-24T13:41:31","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=99049"},"modified":"2026-09-24T15:42:36","modified_gmt":"2026-09-24T18:42:36","slug":"o-que-e-a-doutrina-social-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-que-e-a-doutrina-social-da-igreja\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 a Doutrina Social da Igreja?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Transformar a sociedade com a for\u00e7a do Evangelho sempre foi um desafio para os crist\u00e3os. Mas em que crit\u00e9rios os cat\u00f3licos se apoiam para aplicar e fazer ter resson\u00e2ncia a Boa Nova de Jesus Cristo nas quest\u00f5es sociais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"subtitle\">Transformar a sociedade com a for\u00e7a do Evangelho sempre foi um desafio para os crist\u00e3os. Mas em que crit\u00e9rios os cat\u00f3licos se apoiam para aplicar e fazer ter resson\u00e2ncia a Boa Nova de Jesus Cristo nas quest\u00f5es sociais?<\/span><em>A express\u00e3o \u201cdoutrina social da Igreja\u201d designa o conjunto de orienta\u00e7\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica para os temas sociais. Ela re\u00fane os pronunciamentos do magist\u00e9rio cat\u00f3lico sobre tudo que implica a presen\u00e7a do homem na sociedade e no contexto internacional. Trata-se de uma reflex\u00e3o feita \u00e0 luz da f\u00e9 e da tradi\u00e7\u00e3o eclesial.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A fun\u00e7\u00e3o da doutrina social \u00e9 o an\u00fancio de uma vis\u00e3o global do homem e da humanidade e a den\u00fancia do pecado de injusti\u00e7a e de viol\u00eancia que de v\u00e1rios modos atravessa a sociedade<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo assim, n\u00e3o \u00e9 uma ideologia, nem se confunde com as v\u00e1rias doutrinas pol\u00edticas constru\u00eddas pelo homem. Ela poder\u00e1 encontrar pontos de concord\u00e2ncia com as diversas ideologias e doutrinas pol\u00edticas quando estas buscam a verdade e a constru\u00e7\u00e3o do bem comum, mas ir\u00e1 denunci\u00e1-las sempre que se afastarem destes ideais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A doutrina social da Igreja \u201csitua-se no cruzamento da vida e da consci\u00eancia crist\u00e3 com as situa\u00e7\u00f5es do mundo e exprime-se nos esfor\u00e7os que indiv\u00edduos, fam\u00edlias, agentes culturais e sociais, pol\u00edticos e homens de Estado realizam para lhe dar forma e aplica\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, Carta encicl. Centesimus annus, 59).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela busca o desenvolvimento humano integral, que \u00e9 \u201co desenvolvimento do homem todo e de todos os homens\u201d (Paulo VI, Carta encicl. Populorum Progressio, 42; Bento XVI, Carta encicl. Caritas in veritate, 8).<\/p>\n<div id=\"aleteia-welcome\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao anunciar o Evangelho \u00e0 sociedade em seu ordenamento pol\u00edtico, econ\u00f4mico, jur\u00eddico e cultural, a Igreja quer atualizar no curso da hist\u00f3ria a mensagem de Jesus Cristo. Ela busca colaborar na constru\u00e7\u00e3o do bem comum, iluminando as rela\u00e7\u00f5es sociais com a luz do Evangelho.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cdoutrina social\u201d remonta a Pio XI (Carta encicl. Quadragesimo anno, 1931). Designa o corpus doutrinal referente \u00e0 sociedade desenvolvido na Igreja a partir da enc\u00edclica Rerum novarum (1891), de Le\u00e3o XIII. Em 2004, foi publicado o Comp\u00eandio de Doutrina Social da Igreja, organizado pelo Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, que apresenta de forma sistem\u00e1tica o conte\u00fado da doutrina social da Igreja produzido at\u00e9 aquela ocasi\u00e3o. A partir da\u00ed, este se tornou o documento de refer\u00eancia obrigat\u00f3rio para quem deseja aprofundar-se neste campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerado o primeiro grande documento da doutrina social da Igreja, a Rerum novarum aborda a quest\u00e3o oper\u00e1ria no fim do s\u00e9culo XIX. Le\u00e3o XIII denuncia a penosa situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores das f\u00e1bricas, afligidos pela mis\u00e9ria, num contexto profundamente transformado pela revolu\u00e7\u00e3o industrial. Depois da Rerum novarum, apareceram diversas enc\u00edclicas e mensagens referentes aos problemas sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com sua doutrina social, a Igreja n\u00e3o quer impor-se \u00e0 sociedade, mas sim fornecer crit\u00e9rios de discernimento para a orienta\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias. Nesta perspectiva, a doutrina social cumpre uma fun\u00e7\u00e3o de an\u00fancio de uma vis\u00e3o global do homem e da humanidade, e tamb\u00e9m de den\u00fancia do pecado de injusti\u00e7a e de viol\u00eancia que de v\u00e1rios modos atravessa a sociedade (Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja \u2013 CDSI \u2013, 81). N\u00e3o entra em aspectos t\u00e9cnicos nem se apresenta como uma terceira via para substituir sistemas pol\u00edticos ou econ\u00f4micos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu prop\u00f3sito \u00e9 religioso, sendo mat\u00e9ria do campo da teologia moral. Sua finalidade \u00e9 interpretar as realidades da exist\u00eancia do homem, examinando a sua conformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho. \u00c9 uma doutrina dirigida em especial a cada crist\u00e3o que assume responsabilidades sociais, para que atue com justi\u00e7a e caridade. Ou seja, visa a orientar o comportamento crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, a doutrina social implica \u201cresponsabilidades referentes \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e ao funcionamento da sociedade: obriga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, administrativas, vale dizer, de natureza secular, que pertencem aos fi\u00e9is leigos, n\u00e3o aos sacerdotes e aos religiosos\u201d (CDSI, 83).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os direitos humanos, o bem comum, a vida social, o desenvolvimento, a justi\u00e7a, a fam\u00edlia, o trabalho, a economia, a pol\u00edtica, a comunidade internacional, o meio ambiente, a paz. Todos esses s\u00e3o campos sobre os quais a Igreja dirige a sua reflex\u00e3o no contexto da doutrina social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Todo homem \u00e9 um ser aberto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com os outros na sociedade. Para assegurar o seu bem pessoal e familiar, cada pessoa \u00e9 chamada a realizar-se plenamente, promovendo o desenvolvimento e o bem da pr\u00f3pria sociedade. Assim, a pessoa \u00e9 o centro do ensinamento social cat\u00f3lico. Qualquer conte\u00fado da doutrina social encontra seu fundamento na dignidade da pessoa humana. Outros princ\u00edpios b\u00e1sicos do ensinamento social s\u00e3o: o bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade.<\/strong><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1 Dignidade da pessoa humana<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja n\u00e3o pensa em primeiro lugar no Estado, no partido ou no grupo \u00e9tnico. Pensa na pessoa como ser \u00fanico e irrepet\u00edvel, criado \u00e0 imagem de Deus. Uma sociedade s\u00f3 ser\u00e1 justa se souber respeitar a dignidade de cada pessoa. Portanto, a ordem social e o progresso devem ordenar-se segundo o bem das pessoas, pois a organiza\u00e7\u00e3o das coisas deve subordinar-se \u00e0 ordem das pessoas e n\u00e3o o contr\u00e1rio (Gaudium et spes, 26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O respeito \u00e0 dignidade humana passa necessariamente por considerar o pr\u00f3ximo como outro eu, sem excetuar ningu\u00e9m. A vida do outro deve ser levada em considera\u00e7\u00e3o, assim como os meios necess\u00e1rios para mant\u00ea-la dignamente. Assim, o conte\u00fado da doutrina social \u00e9 universal, pois considera a dignidade de cada pessoa como inalien\u00e1vel, \u00fanica e necess\u00e1ria para construir o bem de todos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2 Bem comum<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bem comum \u00e9 o \u201cconjunto das condi\u00e7\u00f5es da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcan\u00e7ar mais plena e facilmente a pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o\u201d (GS, 26). N\u00e3o se trata de simples soma dos bens particulares de cada sujeito. \u00c9 um bem indivis\u00edvel, porque somente juntos se pode alcan\u00e7\u00e1-lo, aumenta-lo e conserv\u00e1-lo (CDSI, 164).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se colocar autenticamente ao servi\u00e7o do ser humano, a sociedade deve colocar como meta o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem todo (CIC, 1912).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bem comum refere-se, por exemplo, a servi\u00e7os essenciais ao ser humano: acesso a alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, trabalho, educa\u00e7\u00e3o, cultura, transporte, sa\u00fade, informa\u00e7\u00e3o, liberdade. Implica tamb\u00e9m o empenho pela paz, a organiza\u00e7\u00e3o dos poderes do Estado, um s\u00f3lido ordenamento jur\u00eddico, a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3 Subsidiariedade<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio da subsidiariedade indica que, na sociedade, as institui\u00e7\u00f5es e organismos de ordem superior devem se colocar em atitude de ajuda (\u2018subsidium\u2019) \u2013 e, portanto, de apoio, promo\u00e7\u00e3o e incremento \u2013 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s menores (CDSI, 186). Por n\u00edvel superior se entende aquelas que s\u00e3o mais gerais (por exemplo, o governo federal em rela\u00e7\u00e3o aos governos regionais e estes em rela\u00e7\u00e3o aos municipais) e os organismos estatais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais. \u00c9 importante notar que o princ\u00edpio da subsidiariedade inverte a l\u00f3gica dos governos muito centralizadores e assistencialistas. Para estes governos, o Estado deve organizar e controlar os servi\u00e7os sociais e as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais apenas o ajudam nesta tarefa. Pelo princ\u00edpio da subsidiariedade, as pessoas, ao se organizarem, devem procurar, a partir de sua hist\u00f3ria, de seus valores e princ\u00edpios, as melhores solu\u00e7\u00f5es para seus problemas e o Estado deve ajuda-las a viabilizar estas solu\u00e7\u00f5es na busca do bem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo fundamental deste princ\u00edpio \u00e9 garantir o protagonismo da pessoa na sua vida pessoal e social. Ele protege as pessoas dos abusos das inst\u00e2ncias sociais superiores \u2013 por exemplo, do Estado \u2013 e solicita que as inst\u00e2ncias superiores ajudem os indiv\u00edduos e grupos intermedi\u00e1rios a desempenhar suas pr\u00f3prias fun\u00e7\u00f5es (CDSI, 187).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A subsidiariedade n\u00e3o prega formas de centraliza\u00e7\u00e3o, de burocratiza\u00e7\u00e3o, de assistencialismo, de presen\u00e7a injustificada e excessiva do Estado e do aparato p\u00fablico, pois considera que tirar a responsabilidade da sociedade provoca a perda de energias humanas e o aumento exagerado do setor estatal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma positiva, indica a necessidade de se dar suporte \u00e0s pessoas, fam\u00edlias, associa\u00e7\u00f5es, iniciativas privadas, promovendo \u201cuma adequada responsabiliza\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o no seu \u2018ser parte\u2019 ativa da realidade pol\u00edtica e social do Pa\u00eds\u201d (CDSI 187).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">4 Solidariedade<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solidariedade n\u00e3o \u00e9 um simples sentimento de compaix\u00e3o pelos males sofridos por tantas pessoas pr\u00f3ximas ou distantes. \u00c9 a determina\u00e7\u00e3o firme e perseverante de se empenhar pelo bem de todos e de cada um, porque \u201ctodos n\u00f3s somos verdadeiramente respons\u00e1veis por todos\u201d (Sollicitudo rei socialis, 38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solidariedade se apresenta sob dois aspectos complementares: o de princ\u00edpio social \u2013 ordenador das institui\u00e7\u00f5es \u2013 e o de virtude moral \u2013 responsabilidade pessoal com o pr\u00f3ximo (CDSI, 193).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solidariedade se manifesta antes de tudo na distribui\u00e7\u00e3o dos bens e na remunera\u00e7\u00e3o do trabalho. O ensinamento social cat\u00f3lico defende que os problemas socioecon\u00f4micos \u201cs\u00f3 podem ser resolvidos com o aux\u00edlio da solidariedade: solidariedade dos pobres entre si, dos ricos e dos pobres, dos trabalhadores entre si, dos empregadores e dos empregados na empresa, solidariedade entra as na\u00e7\u00f5es e entre os povos\u201d (CIC, 1940).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">5 A integra\u00e7\u00e3o entre subsidiariedade e solidariedade<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na aplica\u00e7\u00e3o da doutrina social da Igreja, os princ\u00edpios da subsidiariedade e solidariedade sempre devem ser vistos e aplicados em conjunto, pois \u201co princ\u00edpio de subsidiariedade h\u00e1-de ser mantido estritamente ligado com o princ\u00edpio de solidariedade e vice-versa, porque, se a subsidiariedade sem a solidariedade decai no particularismo social, a solidariedade sem a subsidiariedade decai no assistencialismo que humilha o sujeito necessitado\u201d (Bento XVI, Carta encicl. Caritas in veritate, 58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O ensinamento social cat\u00f3lico tem o valor de um instrumento de evangeliza\u00e7\u00e3o. Anuncia e atualiza a mensagem de Jesus Cristo em campos fundamentais da vida do homem. Grandes temas da doutrina social s\u00e3o: a fam\u00edlia, o trabalho, a vida econ\u00f4mica, a pol\u00edtica, a comunidade internacional, a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente e a promo\u00e7\u00e3o da paz.<\/strong><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1 Fam\u00edlia<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja considera a fam\u00edlia \u201ccomo a primeira sociedade natural, titular de direitos pr\u00f3prios e origin\u00e1rios, e a p\u00f5e no centro da vida social\u201d. Ela \u00e9 \u201ca c\u00e9lula primeira e vital da sociedade\u201d, fundamento da vida das pessoas e base de todo ordenamento social (CDSI, 211).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia tem o seu fundamento na livre vontade dos c\u00f4njuges de se unirem em matrim\u00f4nio. Ela \u00e9 um ambiente de vida, de doa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca do homem e da mulher, e de bem para as crian\u00e7as. \u00c9 comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana. Contribui \u201cde modo \u00fanico e insubstitu\u00edvel para o bem da sociedade\u201d (CDSI, 213).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2 Trabalho<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho humano tem uma dupla dimens\u00e3o. Em sentido objetivo, \u00e9 \u201co conjunto de atividades, recursos, instrumentos e t\u00e9cnicas de que o homem se serve para produzir\u201d. Em sentido subjetivo, \u00e9 \u201co agir do homem enquanto ser din\u00e2mico, capaz de realizar as v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es que pertencem ao processo do trabalho e que correspondem \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o pessoal\u201d (CDSI, 270).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho \u00e9 um dever do homem. Mas nunca deve ser considerado simples mercadoria ou elemento impessoal da organiza\u00e7\u00e3o produtiva. O trabalho \u00e9 express\u00e3o essencial da pessoa, sendo a pr\u00f3pria pessoa o par\u00e2metro da dignidade do trabalho (CDSI, 271).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3 Economia<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objeto da economia \u201c\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da riqueza e o seu incremento progressivo, em termos n\u00e3o apenas quantitativos, mas qualitativos\u201d. Tudo isso \u201c\u00e9 moralmente correto se orientado para o desenvolvimento global e solid\u00e1rio do homem e da sociedade em que ele vive e atua\u201d (CDSI, 334).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ensinamento social cat\u00f3lico considera a liberdade da pessoa no campo econ\u00f4mico como um valor fundamental, reconhece a justa fun\u00e7\u00e3o do lucro, harmonizada com a capacidade da empresa de servir \u00e0 sociedade. Defende o livre mercado, prega que o Estado assuma o princ\u00edpio da subsidiariedade, valoriza a co-presen\u00e7a de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica e privada, defende a obten\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento integral e solid\u00e1rio para a humanidade.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">4 Pol\u00edtica<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunidade pol\u00edtica \u00e9 \u201ca unidade org\u00e2nica e organizadora de um verdadeiro povo\u201d. Seu dever \u00e9 perseguir o bem comum, atuando em vista de um ambiente humano em que seja oferecida aos cidad\u00e3os \u201ca possibilidade de um real exerc\u00edcio dos direitos humanos e de um pleno cumprimento dos respectivos deveres\u201d (CDSI, 385, 389).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ensinamento social cat\u00f3lico reconhece o valor do sistema da democracia e a validade do princ\u00edpio da divis\u00e3o dos poderes em um Estado. Afirma que a comunidade pol\u00edtica \u00e9 constitu\u00edda para estar ao servi\u00e7o da sociedade civil. Igreja e comunidade pol\u00edtica s\u00e3o de natureza diversa, quer pela configura\u00e7\u00e3o, quer pela finalidade que buscam (CDSI, 424).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">5 Comunidade internacional<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conviv\u00eancia entre as na\u00e7\u00f5es \u201cfunda-se nos mesmos valores que devem orientar a conviv\u00eancia entre os seres humanos: a verdade, a justi\u00e7a, a solidariedade e a liberdade\u201d. Essa conviv\u00eancia tem o direito como instrumento de garantia de sua ordem (CDSI 433, 434). A pol\u00edtica internacional deve ser voltada para o objetivo da paz, do desenvolvimento e da luta contra a pobreza, mediante a ado\u00e7\u00e3o de medidas coordenadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Magist\u00e9rio da Igreja defende a institui\u00e7\u00e3o de uma \u201cautoridade p\u00fablica universal, reconhecida por todos, que goze de poder eficiente, a fim de que sejam salvaguardadas a seguran\u00e7a, a observ\u00e2ncia da justi\u00e7a e a garantia dos direitos\u201d (CDSI, 441).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">6 Meio ambiente<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja Cat\u00f3lica afirma que cuidar do meio ambiente \u00e9 um desafio para toda a humanidade. Trata-se de um dever, comum e universal, de respeitar um bem que \u00e9 coletivo e destinado a todos (CDSI, 466).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perante os graves problemas ecol\u00f3gicos, o ensinamento cat\u00f3lico defende uma mudan\u00e7a de mentalidade, que induza a adotar novos estilos de vida. Tais estilos devem ser inspirados na sobriedade, na temperan\u00e7a, na autodisciplina, no plano pessoal e social.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">7 Paz<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A paz \u00e9 um valor e um dever universal. Ela \u00e9 fruto da justi\u00e7a, entendida em sentido amplo como o respeito ao equil\u00edbrio de todas as dimens\u00f5es da pessoa humana. A paz \u00e9 tamb\u00e9m fruto do amor, \u00e9 ato pr\u00f3prio e espec\u00edfico da caridade (CDSI, 494). A Igreja considera como parte integrante de sua miss\u00e3o a promo\u00e7\u00e3o da paz no mundo. Tamb\u00e9m convoca cada cidad\u00e3o a essa tarefa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para a doutrina social da Igreja, o objetivo \u00faltimo de toda a\u00e7\u00e3o social \u00e9 o desenvolvimento humano integral, ou seja, permitir que o desenvolvimento de todas as dimens\u00f5es da pessoa (material, afetivo, social, espiritual) chegue igualmente a todos na sociedade.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1967, o Papa Paulo VI publicou sua enc\u00edclica Populorum progressio, na qual apresentava o conceito de desenvolvimento humano integral. Com isto, criticava a ideia de que o progresso das na\u00e7\u00f5es podia ser medido apenas por seu crescimento econ\u00f4mico ou mesmo apenas pelo aumento do poder aquisitivo da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim Paulo VI se antecipava a reflex\u00f5es cr\u00edticas que se tornaram comuns nas d\u00e9cadas seguintes, atrav\u00e9s de ideias como a de desenvolvimento sustent\u00e1vel, difundida a partir de um documento de 1980 da Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza, ou de \u00edndices de desenvolvimento humano e desenvolvimento como aumento das oportunidades sociais, da d\u00e9cada de 1990. Em 2009, o Papa Bento XVI retomou o conceito, utilizando-o como base para a reda\u00e7\u00e3o de sua enc\u00edclica Caritas in veritate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento humano integral implica que as possibilidades criadas pelo crescimento e desenvolvimento econ\u00f4mico das na\u00e7\u00f5es estejam igualmente ao alcance de todas as pessoas. Al\u00e9m disso, considera que o desenvolvimento n\u00e3o pode ser apenas material, mas deve incluir todas as dimens\u00f5es da pessoa. Quem, por exemplo, aumentou muito seu poder aquisitivo, mas se fechou numa posi\u00e7\u00e3o individualista e n\u00e3o colabora na constru\u00e7\u00e3o do bem comum, ou n\u00e3o cresceu intelectualmente ou na vida espiritual, n\u00e3o se desenvolveu integralmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num mundo cada vez mais rico, mas que permanece com suas desigualdades globais e sofre com a desumaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais e do estilo de vida das popula\u00e7\u00f5es com mais recursos, o conceito de desenvolvimento humano integral revela-se um instrumento para o di\u00e1logo com todas as tend\u00eancias de pensamento social e pol\u00edtico e para a den\u00fancia da crise de sentido e das injusti\u00e7as que afetam as sociedades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os papas e a Igreja t\u00eam trabalhado sem cessar para iluminar o vasto campo da vida social e oferecer, \u00e0 luz do Evangelho, diretrizes para iluminar o caminho de um aut\u00eantico desenvolvimento do homem.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ter marcado seu desenvolvimento de forma mais estruturada a partir do final do s\u00e9culo XIX, a doutrina social \u00e9 resultado da experi\u00eancia ancestral e pastoral eclesial. \u201cA Igreja jamais deixou de se interessar pela sociedade; n\u00e3o obstante, a enc\u00edclica Rerum novarum d\u00e1 in\u00edcio a um novo caminho\u201d (CDSI, 87).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Etapas do ensinamento social cat\u00f3lico:<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 De 1891 at\u00e9 hoje, a doutrina social da Igreja foi um ensinamento constante por parte de todos os papas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Le\u00e3o XIII (1878-1903), na Rerum Novarum (1891), denunciou as condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis em que vivia a classe oper\u00e1ria, protagonista da revolu\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pio XI (1922-1939), na Quadragesimo Anno (1931), amplia a doutrina social crist\u00e3. Aborda o dif\u00edcil tema do totalitarismo, encarnado nos regimes fascista, comunista, socialista e nazista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pio XII (1939-1958), papa durante a guerra e o p\u00f3s-guerra, focaliza a aten\u00e7\u00e3o nos \u201csinais dos tempos\u201d. Ainda que n\u00e3o tenha publicado uma enc\u00edclica social, em seus numerosos discursos h\u00e1 uma imensa variedade de ensinamentos pol\u00edticos, jur\u00eddicos, sociais e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Jo\u00e3o XXIII (1958-1963), na Mater et Magistra (1961) e na Pacen in Terris (1963), abre a doutrina social \u201ca todos os homens de boa vontade\u201d e, assim, a quest\u00e3o social se torna um tema universal que afeta e \u00e9 responsabilidade de todos os homens e povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Com a Constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes (1965), o Conc\u00edlio Vaticano II sublinha o rosto de uma Igreja realmente solid\u00e1ria com o g\u00eanero humano e sua hist\u00f3ria. J\u00e1 na declara\u00e7\u00e3o Dignitatis humanae (1965), o Conc\u00edlio enfatiza o direito \u00e0 liberdade religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Paulo VI (1963-1978), na Populorum Progressio (1967) e na Octogesima adveniens (1971), afirma que o desenvolvimento \u201c\u00e9 o novo nome da paz\u201d entre os povos. Ele cria o Pontif\u00edcio Conselho \u201cJusti\u00e7a e Paz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Jo\u00e3o Paulo II (1978-2005) compromete-se na difus\u00e3o do ensinamento social em todos os continentes. Escreve tr\u00eas enc\u00edclicas sociais: Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e Centesimus Annum (1991). Al\u00e9m disso, o Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (2004) leva a sua assinatura apost\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Bento XVI (2005), em sua enc\u00edclica social Caritas in veritate (2009), defende o desenvolvimento integral da pessoa pautado caridade e na verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Aleteia agradece pela colabora\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o deste artigo ao prof. Dr. Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do N\u00facleo F\u00e9 e Cultura da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transformar a sociedade com a for\u00e7a do Evangelho sempre foi um desafio para os crist\u00e3os. Mas em que crit\u00e9rios os cat\u00f3licos se apoiam para aplicar e fazer ter resson\u00e2ncia a Boa Nova de Jesus Cristo nas quest\u00f5es sociais? 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