{"id":98519,"date":"2026-08-06T12:33:33","date_gmt":"2026-08-06T15:33:33","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=98519"},"modified":"2026-08-06T12:33:33","modified_gmt":"2026-08-06T15:33:33","slug":"jesus-revela-a-sua-gloria-e-nos-convida-a-contemplar-a-plenitude-de-seu-amor-e-majestade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/jesus-revela-a-sua-gloria-e-nos-convida-a-contemplar-a-plenitude-de-seu-amor-e-majestade\/","title":{"rendered":"Jesus revela a sua gl\u00f3ria  e nos convida a contemplar a plenitude de seu amor e majestade!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O in\u00edcio de m\u00eas de agosto sempre nos presenteia com a Festa da Transfigura\u00e7\u00e3o do Senhor. A per\u00edcope evang\u00e9lica de Mateus 17,1-9 insere-se na se\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica da caminhada de Jesus rumo a Jerusal\u00e9m, imediatamente posterior ao primeiro an\u00fancio da Paix\u00e3o e ao pronunciamento petrino em Cesareia de Filipe (Mt 16, 13-28). O texto abre-se com uma indica\u00e7\u00e3o temporal precisa e carregada de valor teol\u00f3gico: <em>\u201cSeis dias depois\u201d<\/em>. Trata-se de uma resson\u00e2ncia exeg\u00e9tica direta do Livro do \u00caxodo (\u00cax 24, 16), onde a gl\u00f3ria de YHWH cobriu o Monte Sinai por seis dias, e no s\u00e9timo dia Deus chamou Mois\u00e9s do meio da nuvem. Mateus constr\u00f3i uma tipologia mosaica: Jesus \u00e9 o novo e definitivo legislador, o Profeta prometido em Deuteron\u00f4mio 18, 15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A subida ao <em>\u201calto monte\u201d<\/em> evoca a topografia da revela\u00e7\u00e3o. O monte, na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, n\u00e3o \u00e9 mero cen\u00e1rio geogr\u00e1fico, mas o espa\u00e7o teol\u00f3gico onde a finitude humana e a transcend\u00eancia divina se encontram. A \u201cmetamorfose\u201d de Jesus designa n\u00e3o uma mudan\u00e7a de subst\u00e2ncia, mas a manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel daquela gl\u00f3ria divina que lhe \u00e9 conatural, contida at\u00e9 ent\u00e3o sob a forma de servo (Fl 2, 7). Seu rosto que <em>\u201cbrilhou como o sol\u201d<\/em> e suas vestes que <em>\u201ctornaram-se brancas como a luz\u201d<\/em> revelam a condi\u00e7\u00e3o da segunda pessoa da Sant\u00edssima Trindade e antecipam a parusia e o corpo ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A apari\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s e Elias dialoga estruturalmente com a totalidade da Antiga Alian\u00e7a: a Lei (<em>Torah<\/em>) e os Profetas (<em>Nebi&#8217;im<\/em>). Ambos experimentaram a teofania no Horeb e ambos tiveram o fim de suas vidas envolvido no mist\u00e9rio divino. Eles conversam com Jesus sobre o seu <em>\u00eaxodo<\/em>, cuja plenitude \u00e9 alcan\u00e7ada pelo cumprimento da salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do mist\u00e9rio pascal da Cruz e Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rea\u00e7\u00e3o de Pedro articula o desejo humano de capturar a teofania na iman\u00eancia. A palavra \u201ctenda\u201d evoca a Festa dos Tabern\u00e1culos, na qual Israel celebrava a habita\u00e7\u00e3o de Deus no meio do povo no deserto e aguardava a restaura\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica. No entanto, a resposta divina vem na forma da nuvem luminosa, sinal da <em>Shekinah<\/em>, a presen\u00e7a divina que ao mesmo tempo revela e oculta o Mist\u00e9rio. A voz do Pai, aplicando a terminologia dos Salmos reais e do Servo Sofredor (Sl 2, 7; Is 42, 1), pronuncia a f\u00f3rmula trinit\u00e1ria de filia\u00e7\u00e3o e promulga o mandamento supremo da Nova Alian\u00e7a: <em>\u201c<\/em>Escutai-o!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hermeneuticamente, o mist\u00e9rio da Transfigura\u00e7\u00e3o confronta a antropologia filos\u00f3fica contempor\u00e2nea. Vivemos sob a hegemonia do que o fil\u00f3sofo Charles Taylor denomina de \u201ca moldura imanente\u201d, na qual a realidade \u00e9 reduzida a esquemas puramente horizontais, utilit\u00e1rios e fechados ao Transcendente. A pretens\u00e3o de Pedro em erigir &#8220;tr\u00eas tendas&#8221; representa a tentativa da raz\u00e3o instrumental de apreender o dom divino, enquadrando o Mist\u00e9rio em categorias de posse e seguran\u00e7a temporal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, como ensina Santo Tom\u00e1s de Aquino na <em>Summa Theologiae<\/em> (III, q. 45), a Transfigura\u00e7\u00e3o \u00e9 o <em>sacramentum secundae regenerationis<\/em> (o sacramento da segunda regenera\u00e7\u00e3o): assim como no Batismo a Trindade se manifestou para indicar a ado\u00e7\u00e3o filial de Cristo, no Tabor ela se manifesta para revelar a gl\u00f3ria futura \u00e0 qual a natureza humana \u00e9 destinada. A gra\u00e7a n\u00e3o destr\u00f3i a natureza, mas a eleva e a diviniza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ilumina\u00e7\u00e3o das vestes de Jesus ensina que a mat\u00e9ria criada n\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel ou destinada ao nada, mas est\u00e1 vocacionada \u00e0 reden\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica. H\u00e1 uma est\u00e9tica teol\u00f3gica, na linha exposta por Hans Urs von Balthasar: a gl\u00f3ria de Deus que reluz no Tabor \u00e9 o <em>pulchrum<\/em> (o Belo) insepar\u00e1vel do <em>verum<\/em> (o Verdadeiro) e do <em>bonum<\/em> (o Bom). A beleza da Transfigura\u00e7\u00e3o atrai a alma humana para fora da apatia, curando a cegueira espiritual causada pelo pecado. Os Pont\u00edfices das \u00faltimas d\u00e9cadas iluminaram este mist\u00e9rio sob \u00e2ngulos complementares, oferecendo \u00e0 Igreja um roteiro seguro para o seu ser no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, na Carta Apost\u00f3lica <em>Rosarium Virginis Mariae<\/em>, introduziu os Mist\u00e9rios da Luz, colocando a Transfigura\u00e7\u00e3o no seu centro. Ele nos recordava que a contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo no Tabor \u00e9 o ponto de partida indispens\u00e1vel de toda a a\u00e7\u00e3o eclesial. N\u00e3o h\u00e1 miss\u00e3o aut\u00eantica que n\u00e3o nas\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o profunda e da adora\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio. Bento XVI, em suas homilias para este dia e nas suas catequeses sobre a ora\u00e7\u00e3o, enfatizou a rela\u00e7\u00e3o entre a subida e a descida da montanha. Para Ratzinger, a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um alienante evadir-se da hist\u00f3ria, mas um &#8220;subir \u00e0 montanha&#8221; para respirar o ar puro de Deus e, em seguida, &#8220;descer&#8221; portando a sua luz para iluminar as trevas da exist\u00eancia. O Papa Francisco, ao convocar o Pacto Educativo Global e ao refletir sobre a sinodalidade, insiste que o imperativo <em>\u201cEscutai-o\u201d<\/em> exige da Igreja uma atitude de escuta atenta das dores da humanidade. Para Francisco, a Transfigura\u00e7\u00e3o convida a Igreja a n\u00e3o estagnar na seguran\u00e7a do templo, mas a ser uma Igreja em sa\u00edda, que traz no pr\u00f3prio rosto a luz do Tabor para consolar os desfigurados das periferias existenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9 a palavra definitiva que o Esp\u00edrito Santo nos dirige a partir da solene liturgia da Festa da Transfigura\u00e7\u00e3o do Senhor? Aquela que nos chama a ser Igreja, \u00e0 luz do Evangelho do Tabor, atuando no mundo como uma comunidade transfigurada e transfiguradora. N\u00e3o fomos chamados a viver uma f\u00e9 defensiva, entrincheirada atr\u00e1s das velhas &#8220;tendas&#8221; da comodidade espiritual, nem a sucumbir ao cinismo e ao desencanto de um mundo sem Deus. Quando os disc\u00edpulos ca\u00edram por terra amedrontados pela grandeza do Mist\u00e9rio, Jesus aproximou-se, tocou-os e disse: <em>\u201cLevantai-vos e n\u00e3o tenhais medo\u201d<\/em>. Ao erguerem os olhos, n\u00e3o viram mais ningu\u00e9m, sen\u00e3o a Jesus, s\u00f3 Ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de tal Mist\u00e9rio, podemos concluir que esta \u00e9 a identidade e o compromisso da Igreja no mundo: uma Igreja centrada unicamente em Cristo, que mesmo em meio ao ru\u00eddo de ideologias, opini\u00f5es passageiras e polariza\u00e7\u00f5es que dividem a sociedade e at\u00e9 o tecido eclesial, a Igreja fixa o seu olhar exclusivamente no Senhor Jesus. Ele \u00e9 o \u00fanico Mediador, a \u00fanica norma de nossa vida e o \u00fanico Salvador da hist\u00f3ria; uma Igreja que desce da montanha com as m\u00e3os operantes, pois a experi\u00eancia lit\u00fargica e contemplativa do Tabor n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesma. Celebrar a Transfigura\u00e7\u00e3o exige de n\u00f3s a coragem de voltar \u00e0s plan\u00edcies da vida cotidiana, \u00e0s nossas fam\u00edlias, aos ambientes de trabalho, \u00e0s periferias humanas da nossa cidade, para transfigurar a realidade. Onde houver a sombra do abandono, da injusti\u00e7a, do sofrimento e do vazio moral, a Igreja deve estar presente como sacramento vivo de consolo e restaura\u00e7\u00e3o; uma Igreja portadora da verdadeira Esperan\u00e7a, pois o mundo em que vivemos padece de um terr\u00edvel <em>d\u00e9ficit<\/em> de transcend\u00eancia. Quando se fecha o c\u00e9u, a terra transforma-se em um campo de batalha. Cabe a n\u00f3s, Povo da Nova Alian\u00e7a, recordar \u00e0 humanidade que a dor e a morte n\u00e3o s\u00e3o a \u00faltima palavra sobre o homem. N\u00f3s vimos a sua gl\u00f3ria! N\u00f3s conhecemos a luz do Ressuscitado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Povo de Deus que se re\u00fane para celebrar eu proclamo: amada assembleia, levantai-vos! N\u00e3o tenhais medo! Descei do monte revestidos do esplendor de Cristo. Sede no mundo, marcado por tantas noites e incertezas, o reflexo radiante daquela luz que jamais se apaga. Que a Virgem Maria, a Mulher toda luminosa que soube escutar e guardar cada Palavra do Filho, guie nossos passos pelo caminho da Cruz at\u00e9 a gl\u00f3ria eterna da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O in\u00edcio de m\u00eas de agosto sempre nos presenteia com a Festa da Transfigura\u00e7\u00e3o do Senhor. A per\u00edcope evang\u00e9lica de Mateus 17,1-9 insere-se na se\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica da caminhada de Jesus rumo a Jerusal\u00e9m, imediatamente posterior ao primeiro an\u00fancio da Paix\u00e3o e ao pronunciamento petrino em Cesareia de Filipe (Mt 16, 13-28). 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