{"id":98410,"date":"2026-08-02T09:00:35","date_gmt":"2026-08-02T12:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=98410"},"modified":"2026-07-28T14:12:44","modified_gmt":"2026-07-28T17:12:44","slug":"dai-lhes-vos-mesmo-de-comer-partilhemos-o-pao-nosso-de-cada-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/dai-lhes-vos-mesmo-de-comer-partilhemos-o-pao-nosso-de-cada-dia\/","title":{"rendered":"\u201cDai-lhes v\u00f3s mesmo de comer!\u201d Partilhemos o p\u00e3o nosso de cada dia!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste XVIII Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos convida a despir a narrativa da Multiplica\u00e7\u00e3o dos P\u00e3es de qualquer sentimentalismo. Para compreender o que acontece em Mateus 14, precisamos escavar a raiz antropol\u00f3gica, hist\u00f3rica, social e pol\u00edtica do s\u00e9culo I. O &#8220;milagre&#8221; que Jesus realiza no deserto n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1gica para impressionar devotos; \u00e9 um \u201csinal\u201d prof\u00e9tico de ruptura contra a engrenagem de morte do seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender este bin\u00f4mio milagre-sinal, \u00e9 preciso entender o cen\u00e1rio. A Galileia do tempo de Jesus estava esmagada por uma dupla tributa\u00e7\u00e3o sufocante: de um lado, os impostos de Roma e da dinastia herodiana (tributos sobre a terra, o com\u00e9rcio e a pesca); do outro, as taxas do Templo de Jerusal\u00e9m (os d\u00edzimos e as ofertas obrigat\u00f3rias). Essa press\u00e3o fiscal fazia com que os camponeses perdessem suas terras por d\u00edvidas, levando muitos ao extremo da mis\u00e9ria, vivendo de esmolas e donativos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fome no tempo de Jesus n\u00e3o era um acidente natural; era uma fome constru\u00edda politicamente, de modo que ainda que trabalhassem pesado, as fam\u00edlias acabavam por viver sob o fardo de estarem constantemente pobres, no limite de suas for\u00e7as e de suas proveni\u00eancias, sendo v\u00edtimas de artimanhas t\u00edpicas dos que se apegam \u00e0s estruturas de poder e aos privil\u00e9gios obtidos a partir de mentiras, abusos e desonestidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mateus situa este epis\u00f3dio logo ap\u00f3s a execu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Batista. Herodes Antipas acabara de dar um banquete de morte em seu pal\u00e1cio (Mt 14, 1-12), um banquete marcado pela opul\u00eancia, pelo luxo, pela lux\u00faria e pelo sangue do profeta. \u00c9 exatamente em contraposi\u00e7\u00e3o a esse banquete palaciano que Jesus realiza a sua ceia no deserto. Vejamos, pois, os contrapontos: se o banquete de Herodes contava com a presen\u00e7a de uma elite pol\u00edtica e militar, o banquete de Jesus tem como comensais os famintos, doentes e exclu\u00eddos; se em um impera a explora\u00e7\u00e3o e a morte de um profeta, no outro se prevalece a compaix\u00e3o e a vida em abund\u00e2ncia; se no pal\u00e1cio se nota uma atmosfera de medo e um prazer cruel e tirano a partir de uma decapita\u00e7\u00e3o, no deserto se vislumbra uma atmosfera de partilha fraterna, de saciedade, ainda que em meio a perip\u00e9cias, de sobra onde at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 se via mis\u00e9ria. Que beleza a desse deserto; beleza incomum que nos convida a ir um pouco al\u00e9m no exerc\u00edcio exeg\u00e9tico, hermen\u00eautico e contemplativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O deserto na antropologia b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 apenas um lugar geogr\u00e1fico: \u00e9 o espa\u00e7o da liberta\u00e7\u00e3o do Egito, o lugar onde Deus fez chover o man\u00e1, o espa\u00e7o onde n\u00e3o h\u00e1 rei nem imperador, onde o povo aprende a ser irm\u00e3o. Quando os disc\u00edpulos dizem: &#8220;Despede as multid\u00f5es para que v\u00e3o \u00e0s aldeias comprar comida&#8221;, eles est\u00e3o reproduzindo a l\u00f3gica dominante: a l\u00f3gica do Mercado, onde quem n\u00e3o tem dinheiro passa fome. A solu\u00e7\u00e3o do sistema \u00e9 sempre &#8220;cada um por si&#8221;. A resposta de Jesus \u00e9 um raio em c\u00e9u aberto: &#8220;Dai-lhes v\u00f3s mesmos de comer.&#8221; Jesus recusa a l\u00f3gica mercantil e estabelece a economia da Gra\u00e7a. Ele pega cinco p\u00e3es e dois peixes, o alimento b\u00e1sico da dieta dos camponeses pobres da Galileia, e realiza os gestos da Alian\u00e7a. Ao recolherem doze cestos, o Evangelho sinaliza a restaura\u00e7\u00e3o do novo Povo de Deus (as 12 tribos de Israel). Onde o sistema gera escassez e mis\u00e9ria, a partilha no Reino gera abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao olhar para a realidade de hoje, em especial no Brasil, onde a fome e a desigualdade ainda laceram a dignidade de milh\u00f5es de irm\u00e3os, a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 frequentemente atacada quando exige justi\u00e7a social e defende os pobres. Quantas vezes ouvimos a acusa\u00e7\u00e3o leviana de que a preocupa\u00e7\u00e3o com os famintos \u00e9 &#8220;ideologia&#8221; ou &#8220;comunismo&#8221;? A Palavra de Deus e a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja respondem com clareza cristalina: a partilha do p\u00e3o n\u00e3o \u00e9 comunismo; \u00e9 Cristianismo na sua mais pura express\u00e3o e ess\u00eancia, com toda sua radicalidade, a partir de Cristo, e sua fecundidade, a partir da Igreja!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Doutrina Social da Igreja (DSI) ensina pelo princ\u00edpio da Destina\u00e7\u00e3o Universal dos Bens: &#8220;Deus destinou a terra e tudo o que ela cont\u00e9m ao uso de todos os homens e povos. Por isso, os bens criados devem chegar a todos em justa propor\u00e7\u00e3o, segundo a regra da justi\u00e7a, acompanhada pela caridade.&#8221; (<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, n. 2402 \/ Gaudium et Spes, 69<\/em>). S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, Doutor da Igreja no s\u00e9culo IV, j\u00e1 dizia com rigor prof\u00e9tico: &#8220;N\u00e3o fazer os pobres participantes dos nossos pr\u00f3prios bens \u00e9 roub\u00e1-los e tirar-lhes a vida. Os bens que possu\u00edmos n\u00e3o s\u00e3o nossos, mas deles.&#8221; E S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno refor\u00e7ava: &#8220;Quando damos aos pobres as coisas indispens\u00e1veis, n\u00e3o lhes fazemos liberais doa\u00e7\u00f5es pessoais, mas lhes devolvemos o que \u00e9 deles. Cumprimos um dever de justi\u00e7a, mais do que um ato de caridade.&#8221; Estes homens, caros irm\u00e3os, n\u00e3o foram comunistas ao fazerem ressoar, categoricamente, tais afirma\u00e7\u00f5es; eles foram verdadeiramente crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trazendo para os tempos atuais vemos que esta f\u00e9 encarnada n\u00e3o \u00e9 uma teoria distante, pois a podemos testemunhar na hist\u00f3ria recente da Igreja no Brasil atrav\u00e9s de homens da Igreja que entenderam o &#8220;Dai-lhes v\u00f3s mesmos de comer&#8221;. Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, o &#8220;Irm\u00e3o dos Pobres&#8221;, Auxiliar do Rio de Janeiro e depois Arcebispo de Olinda e Recife, que denunciou as estruturas de mis\u00e9ria e nos deixou a frase hist\u00f3rica: &#8220;Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles n\u00e3o t\u00eam comida, me chamam de comunista.&#8221; Dom H\u00e9lder, que no Rio de Janeiro foi bispo auxiliar do Cardeal Jaime de Barros C\u00e2mara e criou o Banco (hoje Instituto) da Provid\u00eancia, sabia que a caridade n\u00e3o se limita a dar a esmola que sobra, mas exige combater as causas da fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00e3o incorrer em injusta propor\u00e7\u00e3o, cabe lembrar que n\u00e3o s\u00f3 tais homens da Igreja tiveram a felicidade de aplicar o Cristianismo em sua dimens\u00e3o libertadora; haja vista o testemunho de uma mulher aparentemente fr\u00e1gil, mas essencialmente forte no Esp\u00edrito do Senhor. Fa\u00e7o refer\u00eancia, queridos irm\u00e3os, \u00e0 nossa querida Santa Dulce dos Pobres, o &#8220;Anjo Bom da Bahia&#8221;, que sem recursos financeiros, mas movida por uma compaix\u00e3o visceral, transformou um galinheiro no maior complexo de sa\u00fade p\u00fablica da Bahia para acolher os mendigos e doentes de rua, alcan\u00e7ando assim a incomensur\u00e1vel Gra\u00e7a de, a exemplo de Cristo, pegar tamb\u00e9m ela os &#8220;cinco p\u00e3es e dois peixes&#8221; de sua fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o e de seus poucos recursos, para desde a\u00ed alimentar multid\u00f5es, multiplicando amor e ternura no meio de quem estava acostumado a condutas de desprezo e \u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Participar da Santa Missa, comungar o Corpo de Cristo e fechar os olhos para o irm\u00e3o que passa fome na porta da igreja ou nas periferias de nossas cidades \u00e9 viver uma Eucaristia vazia. Como nos alerta o Papa Francisco na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii Gaudium<\/em> (n. 53): &#8220;Assim como o mandamento &#8216;n\u00e3o matar\u00e1s&#8217; p\u00f5e um limite claro para assegurar o valor da vida humana, hoje devemos dizer &#8216;n\u00e3o a uma economia da exclus\u00e3o e da desigualdade social&#8217;. Esta economia mata.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que a celebra\u00e7\u00e3o deste XVIII Domingo do Tempo Comum purifique a nossa f\u00e9. Que o Senhor nos livre da tenta\u00e7\u00e3o de acomodar o Evangelho aos interesses dos poderosos ou de reduzi-lo a um mero ritual est\u00e9tico. Que ao sairmos de nossas celebra\u00e7\u00f5es, de nossas Igrejas, atendendo ao envio mission\u00e1rio: \u201cIde em paz e o Senhor vos acompanhe\u201d, tenhamos a coragem de ser as m\u00e3os de Cristo que multiplicam o p\u00e3o, denunciando a injusti\u00e7a e construindo a sociedade sonhada por Deus, onde a mesa seja ampla, o p\u00e3o seja de todos e a dignidade humana seja o \u00fanico luxo a se ostentar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste XVIII Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos convida a despir a narrativa da Multiplica\u00e7\u00e3o dos P\u00e3es de qualquer sentimentalismo. Para compreender o que acontece em Mateus 14, precisamos escavar a raiz antropol\u00f3gica, hist\u00f3rica, social e pol\u00edtica do s\u00e9culo I. 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