{"id":97665,"date":"2026-04-03T14:05:58","date_gmt":"2026-04-03T17:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=97665"},"modified":"2026-04-07T14:06:37","modified_gmt":"2026-04-07T17:06:37","slug":"sexta-feira-santa-as-sete-palavras-de-cristo-na-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sexta-feira-santa-as-sete-palavras-de-cristo-na-cruz\/","title":{"rendered":"Sexta-feira Santa As Sete Palavras de Cristo na Cruz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A manh\u00e3 desta Sexta-feira Santa nos envolve em um profundo e reverente sil\u00eancio. Entramos em nossas igrejas despojadas; os altares est\u00e3o completamente desnudados, sem toalhas, sem flores, sem o brilho das velas. Os sinos emudeceram. \u00c9 o dia em que a M\u00e3e Igreja se senta aos p\u00e9s do madeiro para contemplar, at\u00f4nita e silenciosa, o mist\u00e9rio insond\u00e1vel do amor de Deus, que entregou o Seu pr\u00f3prio Filho Unig\u00eanito pela nossa salva\u00e7\u00e3o. Nesta manh\u00e3 de profundo recolhimento, a sabedoria secular da nossa piedade crist\u00e3 nos convida a meditar sobre o testamento espiritual definitivo de Jesus: as suas Sete \u00daltimas Palavras proferidas do alto da cruz. S\u00e3o pequenos fragmentos de voz, verdadeiros testamentos de amor, que rasgam a escurid\u00e3o espessa do Calv\u00e1rio e iluminam o nosso caminhar at\u00e9 o fim dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A primeira palavra de Jesus \u00e9 uma prece de insond\u00e1vel miseric\u00f3rdia por seus pr\u00f3prios algozes. O evangelista S\u00e3o Lucas registra o momento em que, enquanto os cravos rasgavam a sua carne sagrada, Jesus ergue os olhos ao c\u00e9u e diz: <em>&#8220;Pai, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem&#8221;<\/em> (Lc 23,34). O Mestre n\u00e3o profere maldi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o roga pragas, mas inaugura de forma radical a nova lei do perd\u00e3o. Essa palavra nos interpela fortemente hoje. Em nossa sociedade contempor\u00e2nea, marcada pela exclus\u00e3o, quantas vezes n\u00f3s crucificamos o Cristo novamente na pessoa dos nossos irm\u00e3os mais pobres? Quando a nossa cegueira e indiferen\u00e7a coletiva permitem que fam\u00edlias inteiras habitem em condi\u00e7\u00f5es desumanas, n\u00f3s participamos, ainda que por omiss\u00e3o, dessa crucifix\u00e3o. O perd\u00e3o que Jesus suplica ao Pai deve nos constranger a uma sincera convers\u00e3o, para que n\u00e3o sejamos n\u00f3s a perpetuar a viol\u00eancia da desigualdade social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A segunda palavra \u00e9 dirigida a um condenado ao seu lado. O chamado &#8220;bom ladr\u00e3o&#8221;, iluminado pela gra\u00e7a derradeira, reconhece a inoc\u00eancia de Jesus e suplica-lhe uma simples lembran\u00e7a. O Mestre responde com a mais bela promessa j\u00e1 ouvida pela humanidade: <em>&#8220;Em verdade te digo: hoje estar\u00e1s comigo no Para\u00edso&#8221;<\/em> (Lc 23,43). O Para\u00edso \u00e9 a nossa morada definitiva, a casa paterna de onde o pecado nos havia expulsado e que Jesus agora reabre. \u00c9 providencial meditarmos sobre isso neste ano em que a nossa Igreja, por meio da Campanha da Fraternidade de 2026, volta o seu cora\u00e7\u00e3o para o tema <em>&#8220;Fraternidade e Moradia&#8221;<\/em>, iluminada pelo lema <em>&#8220;Ele veio morar entre n\u00f3s&#8221;<\/em> (Jo 1,14). A promessa irrefut\u00e1vel da moradia celestial n\u00e3o nos isenta da luta por moradia digna aqui na terra. Pelo contr\u00e1rio: quem tem os olhos fixos e a esperan\u00e7a firmada no Para\u00edso n\u00e3o pode suportar ver o seu irm\u00e3o desprovido do direito fundamental a um teto seguro neste mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A terceira palavra funda a nossa grande fam\u00edlia espiritual, a Igreja. Olhando para a Virgem Maria e para o ap\u00f3stolo S\u00e3o Jo\u00e3o, de p\u00e9 junto \u00e0 cruz, Jesus diz: <em>&#8220;Mulher, eis a\u00ed o teu filho&#8221;. Depois disse ao disc\u00edpulo: &#8220;Eis a\u00ed a tua m\u00e3e&#8221;<\/em> (Jo 19,26-27). O evangelista faz quest\u00e3o de acrescentar que, a partir daquela hora, o disc\u00edpulo a acolheu em sua casa. No \u00e1pice da sua dor, Jesus n\u00e3o quer que Sua M\u00e3e fique desamparada nas ruas, sem um teto, sem uma fam\u00edlia que a sustente. Ele providencia um lar para ela. Como herdeiros de S\u00e3o Jo\u00e3o, n\u00f3s somos convocados a ser esta casa que acolhe. Acolher Maria em nossa casa significa tamb\u00e9m acolher os preferidos do seu Filho. Quando uma sociedade falha em garantir habita\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o para as suas m\u00e3es e os seus filhos, ela falha no mandato sagrado do Calv\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A quarta palavra \u00e9 um grito que rasga os c\u00e9us escurecidos do meio-dia. O Evangelho de S\u00e3o Mateus narra esse instante aterrador: <em>&#8220;Por volta da hora nona, Jesus deu um forte grito: Eli, Eli, lam\u00e1 sabact\u00e2ni?, isto \u00e9, Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?&#8221;<\/em> (Mt 27,46). O Verbo Encarnado assume o Salmo 22, mergulhando na mais total desola\u00e7\u00e3o e solid\u00e3o humanas. Esse grito desesperado de abandono continua a ecoar de forma ensurdecedora nas grandes cidades do nosso pa\u00eds. \u00c9 o grito silencioso e angustiado das popula\u00e7\u00f5es invis\u00edveis, daqueles que n\u00e3o t\u00eam onde morar, dos que sobrevivem nas \u00e1reas de risco, sentindo na pr\u00f3pria pele o abandono do poder p\u00fablico e da sociedade. Ouvir este grito de Jesus na cruz exige que abramos os nossos ouvidos e o nosso cora\u00e7\u00e3o para o clamor por habita\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a social em nossa cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A quinta palavra revela o profundo esgotamento f\u00edsico, mas tamb\u00e9m o ardente desejo espiritual do Redentor. O evangelista Jo\u00e3o relata: <em>&#8220;Para que a Escritura se cumprisse at\u00e9 o fim, Jesus disse: &#8216;Tenho sede'&#8221;<\/em> (Jo 19,28). Trata-se da sede literal de um homem torturado, sangrando e desidratado, mas \u00e9 infinitamente mais do que isso: \u00e9 a sede pela salva\u00e7\u00e3o das almas, a sede de ver a vontade do Pai realizada, a sede de justi\u00e7a. No Brasil de hoje, a sede de Cristo se manifesta de forma gritante nas estat\u00edsticas que nos entristecem e que embasam nossa reflex\u00e3o quaresmal: milh\u00f5es de brasileiros habitam em moradias t\u00e3o prec\u00e1rias que sequer possuem acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e ao saneamento b\u00e1sico. A moradia digna exige infraestrutura vital. Dar de beber a Jesus hoje \u00e9 lutar concretamente para que a \u00e1gua limpa e as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade cheguem aos lares mais afastados e esquecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A sexta palavra \u00e9 o majestoso selo de uma miss\u00e3o cumprida de forma perfeita. Tendo provado o vinagre, Jesus diz, em um brado de consuma\u00e7\u00e3o: <em>&#8220;Tudo est\u00e1 consumado&#8221;<\/em> (Jo 19,30). N\u00e3o pensem que este \u00e9 o suspiro de um homem derrotado e esmagado pelo fracasso. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 o grito de vit\u00f3ria do Cordeiro que realizou perfeitamente a vontade Daquele que O enviou. A obra da reden\u00e7\u00e3o est\u00e1 feita. A ponte entre o c\u00e9u e a terra foi reconstru\u00edda com o seu pr\u00f3prio corpo. O Filho de Deus, que se esvaziou de sua gl\u00f3ria e veio morar entre n\u00f3s, foi at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias do amor. Contudo, a aplica\u00e7\u00e3o dessa obra de amor na hist\u00f3ria exige a nossa firme participa\u00e7\u00e3o. O nosso compromisso com o Evangelho da vida e com a promo\u00e7\u00e3o da moradia digna \u00e9 a nossa forma irrenunci\u00e1vel de darmos continuidade, na sociedade, ao amor que Ele consumou de forma absoluta no madeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A s\u00e9tima e \u00faltima palavra \u00e9 a confian\u00e7a extrema, o mergulho definitivo no amor do Pai. S\u00e3o Lucas nos comove com este suspiro final: <em>&#8220;Jesus deu um forte grito e disse: &#8216;Pai, nas tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito&#8217;. Dizendo isso, expirou&#8221;<\/em> (Lc 23,46). A <em>kenosis<\/em>, o esvaziamento do qual nos instrui o Ap\u00f3stolo Paulo, atinge aqui o seu limite m\u00e1ximo. Cristo entrega tudo, n\u00e3o ret\u00e9m absolutamente nada para Si; nem mesmo a pr\u00f3pria vida. \u00c9 exatamente neste abandono submisso e confiante nas m\u00e3os do Pai que brota a nossa salva\u00e7\u00e3o. Quando a Igreja nos convoca a partilhar os nossos bens, a n\u00e3o reter o nosso ego\u00edsmo, a estender as m\u00e3os aos sem-teto e a lutar por uma sociedade mais igualit\u00e1ria, ela nos chama a imitar essa atitude de total despojamento e doa\u00e7\u00e3o que vemos em Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As Sete Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz n\u00e3o s\u00e3o uma lembran\u00e7a po\u00e9tica do passado. Elas s\u00e3o o vigoroso programa de vida da Santa Igreja Cat\u00f3lica. Neste dia de sil\u00eancio, luto e rigoroso jejum, permitamos que estas sete flechas de amor penetrem no mais \u00edntimo dos nossos cora\u00e7\u00f5es. Se, de fato, o Verbo veio morar entre n\u00f3s, que o nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e as nossas atitudes sejam a sua morada viva e atuante. Purificados por este sangue que escorre da cruz, sejamos construtores de justi\u00e7a, para que cada fam\u00edlia brasileira encontre o seu espa\u00e7o, a sua casa e a sua dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Permane\u00e7amos em ora\u00e7\u00e3o silenciosa e recolhimento durante esta manh\u00e3. Preparemo-nos espiritualmente para a solene A\u00e7\u00e3o Lit\u00fargica da Paix\u00e3o do Senhor, que celebraremos logo mais, \u00e0s tr\u00eas horas da tarde, adorando com l\u00e1grimas e gratid\u00e3o o sagrado madeiro do qual pendeu a Salva\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A manh\u00e3 desta Sexta-feira Santa nos envolve em um profundo e reverente sil\u00eancio. Entramos em nossas igrejas despojadas; os altares est\u00e3o completamente desnudados, sem toalhas, sem flores, sem o brilho das velas. Os sinos emudeceram. \u00c9 o dia em que a M\u00e3e Igreja se senta aos p\u00e9s do madeiro para contemplar, at\u00f4nita e silenciosa, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":55819,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-97665","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97665"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97665\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97667,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97665\/revisions\/97667"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}