{"id":97623,"date":"2026-04-03T13:26:02","date_gmt":"2026-04-03T16:26:02","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=97623"},"modified":"2026-04-07T13:28:01","modified_gmt":"2026-04-07T16:28:01","slug":"sexta-feira-santa-descendimento-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sexta-feira-santa-descendimento-da-cruz\/","title":{"rendered":"Sexta-feira Santa Descendimento da Cruz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao cair da tarde desta dolorosa Sexta-feira Santa, a nossa Igreja nos convoca, envolvida em um profundo e respeitoso luto, para vivenciarmos um dos momentos mais comoventes e silenciosos de toda a Paix\u00e3o: o Descendimento da Cruz. O grande clamor do Calv\u00e1rio j\u00e1 cessou. A terra, que antes tremeu, agora se cala. O v\u00e9u do santu\u00e1rio encontra-se rasgado de alto a baixo. L\u00e1 no alto do monte G\u00f3lgota, ergue-se o terr\u00edvel pat\u00edbulo de madeira, e nele repousa, inerte e desfigurado, o corpo sagrado do nosso Redentor. A liturgia e a piedade secular do nosso povo nos convidam agora a nos aproximarmos do madeiro n\u00e3o mais para presenciar o sofrimento ativo, mas para recolher os frutos da reden\u00e7\u00e3o, participando espiritualmente do ato de descer o Corpo de Deus da cruz e entreg\u00e1-lo aos bra\u00e7os de sua M\u00e3e Sant\u00edssima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para adentrarmos neste mist\u00e9rio de amor e dor, os Evangelhos nos oferecem as diretrizes exatas do que ocorreu naquelas horas crepusculares. O evangelista S\u00e3o Jo\u00e3o nos relata a urg\u00eancia ditada pela lei da \u00e9poca: <em>&#8220;Como era o dia da Prepara\u00e7\u00e3o, e para que os corpos n\u00e3o ficassem na cruz durante o s\u00e1bado \u2013 porque aquele s\u00e1bado era um dia muito solene \u2013, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirassem dali&#8221;<\/em> (Jo 19,31). Os soldados quebram as pernas dos dois ladr\u00f5es, mas ao chegarem a Jesus, constatam que Ele j\u00e1 estava morto. Ent\u00e3o, cumpre-se de forma magistral a profecia de Zacarias: <em>&#8220;Um dos soldados traspassou-lhe o lado com uma lan\u00e7a, e logo saiu sangue e \u00e1gua&#8221;<\/em> (Jo 19,34), para que se cumprisse a Escritura que diz: <em>&#8220;Olhar\u00e3o para aquele que transpassaram&#8221;<\/em> (Jo 19,37; cf. Zc 12,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 exatamente neste cen\u00e1rio de devasta\u00e7\u00e3o e pressa que a provid\u00eancia divina suscita a coragem naqueles que antes viviam nas sombras do medo. O Evangelho de S\u00e3o Mateus narra de forma bel\u00edssima o surgimento de um homem providencial: <em>&#8220;Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado Jos\u00e9, que tamb\u00e9m se tornara disc\u00edpulo de Jesus. Ele foi a Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Ent\u00e3o Pilatos mandou que o corpo lhe fosse entregue&#8221;<\/em> (Mt 27,57-58). Junto a ele, aproxima-se tamb\u00e9m Nicodemos. Aquele mesmo mestre da lei que, no in\u00edcio do minist\u00e9rio de Jesus, o procurara na escurid\u00e3o da noite por medo das repres\u00e1lias, agora caminha \u00e0 luz do dia em dire\u00e7\u00e3o ao Calv\u00e1rio, trazendo <em>&#8220;cerca de trinta quilos de uma mistura de mirra e alo\u00e9s&#8221;<\/em> (Jo 19,39).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Contemplemos a atitude destes dois homens. A cruz, que escandalizou e afugentou os disc\u00edpulos mais \u00edntimos, concedeu uma coragem inabal\u00e1vel aos disc\u00edpulos ocultos. O amor, quando \u00e9 verdadeiro, n\u00e3o suporta ver o Amado exposto \u00e0 vergonha. Com suprema rever\u00eancia, eles apoiam as escadas no madeiro ensanguentado. O som surdo do martelo e do alicate, retirando os cravos que perfuravam as m\u00e3os e os p\u00e9s do Salvador, ecoa no sil\u00eancio da tarde. Com infinito cuidado, eles retiram a coroa de espinhos daquela fronte sagrada, desvencilhando-a dos cabelos empastados de sangue. Cada chaga, cada ferida \u00e9 tratada com o m\u00e1ximo respeito, pois ali jaz o verdadeiro Templo de Deus, destru\u00eddo pela maldade humana, mas que ressuscitar\u00e1 em tr\u00eas dias (cf. Jo 2,19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como monge cisterciense, n\u00e3o posso deixar de me voltar aos ensinamentos de S\u00e3o Bernardo de Claraval, que t\u00e3o profundamente meditou sobre as chagas do Senhor. Ele nos ensina que, no mist\u00e9rio da cruz, a majestade de Deus se escondeu totalmente sob o manto da fraqueza humana. O corpo que desce da cruz \u00e9 a prova cabal e incontest\u00e1vel de que Deus levou o seu amor pela humanidade at\u00e9 as \u00faltimas e mais tr\u00e1gicas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O corpo inerte de Jesus \u00e9, ent\u00e3o, descido e entregue nos bra\u00e7os de Nossa Senhora. A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 imortalizou este momento com a imagem da <em>Piet\u00e0<\/em>, a Senhora da Piedade. Diante dos nossos olhos, repete-se em contraste dilacerante o mist\u00e9rio de Bel\u00e9m. Na manjedoura, Maria segurou o corpo quente, cheio de vida e sorridente do Menino Deus, envolvendo-o em faixas com alegria (cf. Lc 2,7). Agora, no sop\u00e9 do Calv\u00e1rio, ela recebe em seu colo o corpo frio, r\u00edgido e sem vida do seu Filho, preparando-se para envolv\u00ea-lo num len\u00e7ol funer\u00e1rio. Neste abra\u00e7o mudo e doloroso, cumpre-se de forma total a profecia do velho Sime\u00e3o no Templo: <em>&#8220;Quanto a ti, uma espada te traspassar\u00e1 a alma&#8221;<\/em> (Lc 2,35). A dor de Maria \u00e9 imensur\u00e1vel, pois ela abra\u00e7a n\u00e3o apenas o seu Filho morto, mas abra\u00e7a nele toda a humanidade ferida, redimida pelo pre\u00e7o daquele sangue inocente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ap\u00f3s este momento de despedida, inicia-se o rito do sepultamento. O Evangelho atesta de forma clara a realidade do total despojamento terreno de Jesus. Segundo S\u00e3o Mateus: <em>&#8220;Jos\u00e9 tomou o corpo, envolveu-o num len\u00e7ol limpo e o colocou num t\u00famulo novo, que ele havia mandado escavar na rocha&#8221;<\/em> (Mt 27,59-60). E S\u00e3o Jo\u00e3o complementa o cen\u00e1rio: <em>&#8220;Havia um jardim no lugar onde Jesus fora crucificado e, no jardim, um t\u00famulo novo, no qual ningu\u00e9m ainda fora sepultado&#8221;<\/em> (Jo 19,41).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 nosso dever pastoral alinhar as informa\u00e7\u00f5es deste mist\u00e9rio sagrado \u00e0 reflex\u00e3o que a Igreja do Brasil, atrav\u00e9s da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), prop\u00f5e para o ano de 2026. A Campanha da Fraternidade deste ano estabelece como foco o tema &#8220;Fraternidade e Moradia&#8221;. Quando lemos os dados estritos do Evangelho sobre a morte e o sepultamento de Cristo, n\u00e3o inventamos interpreta\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, mas constatamos um fato teol\u00f3gico e hist\u00f3rico absoluto: o Filho de Deus encarnado conclui a sua miss\u00e3o terrena sem possuir uma moradia pr\u00f3pria, sem um teto onde pudesse reclinar a cabe\u00e7a (cf. Mt 8,20) e, no momento derradeiro, \u00e9 depositado num sepulcro emprestado, cedido pela caridade de Jos\u00e9 de Arimateia. O mist\u00e9rio do Descendimento da Cruz nos mostra o Senhor em total solidariedade com a condi\u00e7\u00e3o daqueles que nada possuem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O sepultamento \u00e9 conclu\u00eddo de forma austera. <em>&#8220;Depois, rolou uma grande pedra \u00e0 entrada do t\u00famulo e foi-se embora&#8221;<\/em> (Mt 27,60), atesta Mateus. A pedra sela a sepultura. No entanto, o amor n\u00e3o se afasta. O Evangelho faz quest\u00e3o de registrar a fidelidade silenciosa das mulheres: <em>&#8220;Maria Madalena e a outra Maria estavam ali, sentadas de frente para o t\u00famulo&#8221;<\/em> (Mt 27,61). Elas n\u00e3o arredam p\u00e9. Elas permanecem vigilantes, unidas na dor, sendo as sentinelas do mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Serm\u00e3o do Descendimento n\u00e3o \u00e9 um ep\u00edlogo de derrota, mas o limiar da esperan\u00e7a. Ao participarmos deste rito, devemos nos perguntar: com qual rever\u00eancia n\u00f3s descemos o corpo de Cristo de nossas pr\u00f3prias cruzes di\u00e1rias? Como n\u00f3s tratamos o Corpo de Cristo quando o recebemos na Eucaristia? Como n\u00f3s amparamos o Corpo M\u00edstico de Cristo, que \u00e9 a Igreja e que continua a sofrer nas feridas da humanidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao deixarmos as nossas igrejas nesta noite, mergulharemos no profundo sil\u00eancio do S\u00e1bado Santo. \u00c9 o dia em que a Igreja n\u00e3o canta, n\u00e3o celebra a Eucaristia, mas permanece junto ao t\u00famulo, meditando na descida do Senhor \u00e0 mans\u00e3o dos mortos. Que possamos levar para as nossas casas a coragem de Jos\u00e9 de Arimateia, a generosidade de Nicodemos, a perseveran\u00e7a de Maria Madalena e, acima de tudo, o sil\u00eancio adorador e confiante da Bem-Aventurada Virgem Maria. Que a nossa f\u00e9 n\u00e3o desmorone diante da pedra do sepulcro, mas aguarde, com a alma pacificada, o romper da aurora gloriosa da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao cair da tarde desta dolorosa Sexta-feira Santa, a nossa Igreja nos convoca, envolvida em um profundo e respeitoso luto, para vivenciarmos um dos momentos mais comoventes e silenciosos de toda a Paix\u00e3o: o Descendimento da Cruz. O grande clamor do Calv\u00e1rio j\u00e1 cessou. A terra, que antes tremeu, agora se cala. 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