{"id":97436,"date":"2026-03-29T09:05:38","date_gmt":"2026-03-29T12:05:38","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=97436"},"modified":"2026-04-01T15:06:31","modified_gmt":"2026-04-01T18:06:31","slug":"domingo-de-ramos-da-paixao-do-senhor-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/domingo-de-ramos-da-paixao-do-senhor-3\/","title":{"rendered":"Domingo de Ramos da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Iniciamos com a celebra\u00e7\u00e3o do Domingo de Ramos da Paix\u00e3o do Senhor, a Semana Maior da nossa f\u00e9, a Semana Santa. A liturgia deste dia nos envolve em uma atmosfera paradoxal, que transita da exulta\u00e7\u00e3o festiva \u00e0 dor profunda do Calv\u00e1rio. Come\u00e7amos a nossa celebra\u00e7\u00e3o com a prociss\u00e3o festiva, revivendo a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa (cf. Mt 21,1-11). Vemos o povo que O recebe com ramos nas m\u00e3os, estendendo seus mantos pelo ch\u00e3o e entoando cantos de alegria: <em>\u201cHosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!\u201d<\/em> (Mt 21,9). Por\u00e9m, a mesma liturgia rapidamente nos conduzir\u00e1 a um sil\u00eancio consternado, mergulhando-nos no mist\u00e9rio do sofrimento ao escutarmos o longo e doloroso relato da Paix\u00e3o segundo Mateus (Mt 26,14 \u2013 27,66).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa mudan\u00e7a abrupta e lit\u00fargica n\u00e3o \u00e9 um mero recurso ret\u00f3rico da M\u00e3e Igreja, mas uma profunda pedagogia espiritual. Ela revela, antes de tudo, a inconst\u00e2ncia da multid\u00e3o e a fragilidade dos nossos pr\u00f3prios cora\u00e7\u00f5es, que num dia louvam e aclamam, mas noutro dia se deixam levar pela indiferen\u00e7a ou pelo \u00f3dio, clamando: <em>\u201cSeja crucificado!\u201d<\/em> (Mt 27,22-23). Mais do que isso, a entrada em Jerusal\u00e9m revela a verdadeira identidade do Messias. Ele cumpre de forma singular a antiga profecia: <em>\u201cEis que o teu rei vem a ti, humilde, montado num jumento\u201d <\/em>(Mt 21,5; cf. Zc 9,9). O nosso Rei n\u00e3o se imp\u00f5e pela for\u00e7a dos ex\u00e9rcitos, pela opul\u00eancia ou pelas armas de guerra, mas pela mansid\u00e3o extrema e pela entrega total de Si mesmo pela salva\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na primeira leitura \u2013 Is 50,4-7 \u2013, o profeta Isa\u00edas nos apresenta o tocante c\u00e2ntico do Servo Sofredor, uma prefigura\u00e7\u00e3o cristalina da atitude de Cristo diante do flagelo que se aproxima: \u201c<em>Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; n\u00e3o desviei o rosto de bofet\u00f5es e cusparadas\u201d<\/em> (Is 50,6). O Servo n\u00e3o recua diante da viol\u00eancia do mundo porque a sua confian\u00e7a est\u00e1 inteiramente enraizada em Deus Pai: <em>\u201cO Senhor Deus \u00e9 meu aux\u00edlio, por isso n\u00e3o me deixei abater\u201d<\/em> (Is 50,7). Esta fidelidade inabal\u00e1vel nos ensina teologicamente que o sofrimento, quando abra\u00e7ado por amor e em obedi\u00eancia \u00e0 vontade divina, torna-se fonte inesgot\u00e1vel de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A profunda ang\u00fastia deste Servo ecoa perfeitamente no Salmo responsorial de hoje. Jesus, no auge de sua dor na cruz, consumido fisicamente, reza com as palavras do salmista: <em>\u201cMeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u201d<\/em> (Sl 21[22],2; cf. Mt 27,46). Este brado, que tantas vezes ressoa silenciosamente no cora\u00e7\u00e3o de tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s nossos mergulhados no desespero da vida moderna, na boca de Jesus \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de quem, mesmo na dor extrema, n\u00e3o perde a confian\u00e7a, entregando a sua vulnerabilidade nas m\u00e3os do Criador e fazendo-se solid\u00e1rio com todas as dores da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para que possamos vislumbrar o abismo desse amor imensur\u00e1vel, a segunda leitura nos traz o sublime hino cristol\u00f3gico da Carta de S\u00e3o Paulo aos Filipenses. O Ap\u00f3stolo \u2013 Fl 2,6-11 \u2013 nos ensina que Jesus, <em>\u201cexistindo em condi\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o se apegou ao ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servo\u201d<\/em> (Fl 2,6-7). Este esvaziamento total, que a teologia chama de kenosis, atinge o seu \u00e1pice incomensur\u00e1vel quando Ele <em>\u201chumilhou-se, tornando-se obediente at\u00e9 a morte, e morte de cruz\u201d<\/em> (Fl 2,8). N\u00e3o h\u00e1 outro caminho para a gl\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passe pela rudeza do madeiro. \u00c9 justamente por descer de forma t\u00e3o radical \u00e0s profundezas da mis\u00e9ria e do pecado humanos que <em>\u201cDeus o exaltou acima de tudo\u201d<\/em> (Fl 2,9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Evangelho da Paix\u00e3o \u2013 Mt 27,11-54 \u2013 nos detalha com crueza cada passo dessa doa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria. Acompanhamos Jesus desde os \u00faltimos ensinamentos, passando pela agonia e pela amarga trai\u00e7\u00e3o no Gets\u00eamani (cf. Mt 26,36-56). Vemos a nega\u00e7\u00e3o de Pedro, que tantas vezes espelha as nossas pr\u00f3prias covardias cotidianas (cf. Mt 26,69-75), e assistimos perplexos \u00e0 injusti\u00e7a dos tribunais humanos perante Pilatos (cf. Mt 27,11-26). Em cada chaga, vemos o Cordeiro de Deus suportando silenciosamente a zombaria e a coroa de espinhos (cf. Mt 27,27-31). Tudo ocorre n\u00e3o por um capricho do destino, mas em obedi\u00eancia \u00e0 miss\u00e3o salv\u00edfica, como Jesus mesmo alerta aos seus captores nas trevas do Horto das Oliveiras: <em>\u201cTudo isso aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas\u201d<\/em> (Mt 26,56). Quando Ele, por fim, rende o seu esp\u00edrito, e o v\u00e9u do santu\u00e1rio se rasga de alto a baixo (cf. Mt 27,51), a barreira entre Deus e a humanidade cai por terra para sempre. A entrega \u00e9 t\u00e3o majestosa que arranca do centuri\u00e3o pag\u00e3o, aos p\u00e9s da cruz, a mais pura profiss\u00e3o de f\u00e9: <em>\u201cVerdadeiramente, este era o Filho de Deus!\u201d<\/em> (Mt 27,54).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Paix\u00e3o de Nosso Senhor Jesus Cristo n\u00e3o \u00e9 uma mera recorda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do passado; ela \u00e9 um mist\u00e9rio vivo, que se prolonga nos dias de hoje no sofrimento do Seu Corpo M\u00edstico, a Igreja, e de modo especial nas chagas dos mais pobres e descartados de nossa sociedade. Neste Domingo de Ramos, em que refletimos sobre a entrega do Senhor, a Igreja no Brasil conclui seu tempo forte de conscientiza\u00e7\u00e3o com o Dia Nacional da Coleta da Solidariedade, gesto concreto e transformador da Campanha da Fraternidade de 2026 sobre a moradia e o encontro com Aquele que veio morar entre n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Neste ano, iluminados pelo Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o, com o lema <em>\u201cEle veio morar entre n\u00f3s\u201d<\/em> (Jo 1,14), fomos convocados a refletir sobre o tema <em>\u201cFraternidade e Moradia\u201d<\/em>. O mesmo Cristo que se esvaziou de sua gl\u00f3ria eterna, que nasceu sem encontrar lugar na hospedaria de Bel\u00e9m e que foi crucificado fora das muralhas, identifica-se profundamente com as multid\u00f5es que ainda hoje peregrinam sem um teto adequado para proteger suas fam\u00edlias. Como nos alerta a Igreja nesta Campanha, a falta de um teto digno n\u00e3o \u00e9 apenas uma car\u00eancia material; ela \u00e9 a express\u00e3o concreta da exclus\u00e3o social que fere de morte a dignidade de filhos e filhas de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Devemos ter consci\u00eancia crist\u00e3 de que a moradia \u00e9 a porta de entrada para os demais direitos sociais. Sem ela, faltam a seguran\u00e7a, a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria possibilidade de um conv\u00edvio familiar estruturado. Quando contemplamos o Senhor pregado e despojado de tudo na cruz, nosso cora\u00e7\u00e3o pastoral n\u00e3o pode ficar indiferente a tantas fam\u00edlias que habitam em \u00e1reas de risco ou que sobrevivem na invisibilidade das nossas ruas. Aclamar o \u201cHosana\u201d com os nossos ramos nas m\u00e3os exige de n\u00f3s o firme compromisso de sermos construtores de justi\u00e7a. Os frutos da nossa penit\u00eancia quaresmal, partilhados na Coleta de Solidariedade deste domingo e destinados aos Fundos Diocesano e Nacional de Solidariedade, s\u00e3o o nosso \u201csim\u201d para que a\u00e7\u00f5es concretas garantam que nossos irm\u00e3os tenham onde reclinar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Convido-os a entrar nesta Semana Santa com a alma descal\u00e7a e os olhos fixos em Jesus. Fa\u00e7amos destes dias um verdadeiro retiro espiritual nas nossas par\u00f3quias. Participem ativamente das liturgias do Tr\u00edduo Pascal: o Lava-p\u00e9s, a Adora\u00e7\u00e3o da Santa Cruz e a Vig\u00edlia da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Que os ramos aben\u00e7oados, levados hoje para as suas casas, n\u00e3o sejam guardados como amuleto, mas permane\u00e7am vis\u00edveis como o compromisso inabal\u00e1vel de que o seu lar \u00e9 habitado por Cristo, e de que nossa voca\u00e7\u00e3o \u00e9 lutar para que a moradia digna seja realidade para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Caminhemos nestes dias sob o olhar amparo da Virgem Maria, a Senhora das Dores, que esteve de p\u00e9 junto \u00e0 cruz de seu Filho, sustentando a f\u00e9 da nascente Igreja. Que ela interceda por n\u00f3s, nos ensine a n\u00e3o fugir diante do sofrimento dos nossos irm\u00e3os, para que, perseverando no amor at\u00e9 o fim, possamos proclamar com exulta\u00e7\u00e3o a vit\u00f3ria do Cristo Ressuscitado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Iniciamos com a celebra\u00e7\u00e3o do Domingo de Ramos da Paix\u00e3o do Senhor, a Semana Maior da nossa f\u00e9, a Semana Santa. A liturgia deste dia nos envolve em uma atmosfera paradoxal, que transita da exulta\u00e7\u00e3o festiva \u00e0 dor profunda do Calv\u00e1rio. 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