{"id":97420,"date":"2026-03-31T09:00:27","date_gmt":"2026-03-31T12:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=97420"},"modified":"2026-04-01T14:47:16","modified_gmt":"2026-04-01T17:47:16","slug":"sermao-do-encontro-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sermao-do-encontro-4\/","title":{"rendered":"Serm\u00e3o do Encontro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cora\u00e7\u00e3o da Semana Santa, a liturgia e a riqu\u00edssima piedade popular da nossa Igreja nos convidam a parar, a silenciar as nossas inquieta\u00e7\u00f5es e a contemplar um dos momentos mais comoventes e dilacerantes da Paix\u00e3o: o Encontro de Jesus com a sua M\u00e3e Sant\u00edssima a caminho do Calv\u00e1rio. Caminhamos pelas ruas de nossa cidade acompanhando duas prociss\u00f5es distintas. De um lado, seguimos a imagem do Senhor dos Passos, curvado sob o peso do madeiro; do outro, acompanhamos a imagem de Nossa Senhora das Dores, a Virgem trespassada pela espada do sofrimento. Onde essas duas prociss\u00f5es convergem, d\u00e1-se o sagrado encontro. N\u00e3o h\u00e1 palavras neste instante. H\u00e1 apenas o cruzamento de olhares entre a dor infinita do Filho que se entrega pela salva\u00e7\u00e3o do mundo e a dor indescrit\u00edvel da M\u00e3e que v\u00ea o fruto do seu ventre sendo levado ao matadouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para compreendermos a profundidade deste mist\u00e9rio, precisamos voltar o nosso cora\u00e7\u00e3o para as Sagradas Escrituras, recordando o que fora profetizado sobre Maria desde os primeiros dias da vida de Jesus. O evangelista S\u00e3o Lucas nos narra a apresenta\u00e7\u00e3o do Menino no Templo, quando o velho Sime\u00e3o, movido pelo Esp\u00edrito Santo, aben\u00e7oa a Sagrada Fam\u00edlia e dirige palavras prof\u00e9ticas, e ao mesmo tempo terr\u00edveis, \u00e0 Virgem Maria: <em>&#8220;Eis que este menino est\u00e1 destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos em Israel, e a ser um sinal de contradi\u00e7\u00e3o. Quanto a ti, uma espada te traspassar\u00e1 a alma, para que se revelem os pensamentos de muitos cora\u00e7\u00f5es&#8221;<\/em> (Lc 2,34-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A espada profetizada por Sime\u00e3o atinge o seu cume neste encontro na Via Dolorosa. Jesus avan\u00e7a com o rosto desfigurado. O profeta Isa\u00edas, na sua vis\u00e3o do Servo Sofredor, descreveu exata e dolorosamente este momento s\u00e9culos antes: <em>&#8220;Ele n\u00e3o tinha beleza nem atrativo para o olharmos, n\u00e3o tinha apar\u00eancia que nos agradasse. Era desprezado e o \u00faltimo dos mortais, homem de dores, acostumado ao sofrimento, como algu\u00e9m de quem se desvia o rosto; t\u00e3o desprezado que n\u00e3o o estim\u00e1vamos. Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores; e n\u00f3s o reput\u00e1vamos por um castigado, ferido por Deus e humilhado&#8221;<\/em> (Is 53,2-4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Neste cen\u00e1rio de humilha\u00e7\u00e3o, onde a multid\u00e3o grita inj\u00farias e os soldados O empurram rumo \u00e0 morte, S\u00e3o Lucas nos revela que houve quem se compadecesse: <em>&#8220;Seguia-o grande multid\u00e3o de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam&#8221;<\/em> (Lc 23,27). E no meio dessa multid\u00e3o, estava a Sua M\u00e3e. Imaginemos o impacto desse encontro. Maria v\u00ea o seu Filho, Aquele que ela gerou no seu seio pur\u00edssimo, Aquele que ela amamentou e protegeu no ex\u00edlio do Egito, agora tratado como o pior dos malfeitores. Jesus, exausto, ergue os olhos e v\u00ea a sua M\u00e3e. O olhar de Maria n\u00e3o O faz desistir; pelo contr\u00e1rio, infunde-Lhe a for\u00e7a do amor materno para que Ele cumpra at\u00e9 o fim a vontade do Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 o encontro de dois sil\u00eancios que gritam o amor de Deus pela humanidade. A teologia cat\u00f3lica nos ensina que, neste exato momento, Maria vive o seu mart\u00edrio interior. Como nos recorda o grande mestre cisterciense, S\u00e3o Bernardo de Claraval, ao meditar sobre as dores de Maria: <em>&#8220;O mart\u00edrio da Virgem ocorreu na alma. A espada n\u00e3o transpassou a carne de Cristo, mas transpassou a alma de Maria&#8221;<\/em>. A sua dor n\u00e3o \u00e9 de desespero, mas de uma obla\u00e7\u00e3o perfeita. Ela se une incondicionalmente ao sacrif\u00edcio do Filho. \u00c9 a verdadeira \u201c<em>com-paix\u00e3o\u201d<\/em>, o padecer junto, o carregar espiritualmente o peso daquela mesma cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este encontro n\u00e3o ficou congelado na poeira da hist\u00f3ria de Jerusal\u00e9m. Ele \u00e9 um mist\u00e9rio vivo e operante, que continua a se desdobrar nos dias de hoje nas ruas das nossas cidades, nos corredores frios dos nossos hospitais e dentro das nossas pr\u00f3prias casas. Jesus continua a caminhar sob o peso da cruz cada vez que um irm\u00e3o nosso sofre a viol\u00eancia, a doen\u00e7a, a depress\u00e3o ou o abandono cruel. E Nossa Senhora das Dores continua a vir ao encontro de seus filhos sofredores para consol\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quantas m\u00e3es hoje, na nossa amada Arquidiocese, refazem diariamente os passos da Virgem Maria? M\u00e3es que acompanham o calv\u00e1rio de filhos perdidos para as drogas, filhos enfermos em leitos de dor, filhos aprisionados nas diversas formas de escravid\u00e3o do nosso tempo. O olhar de Maria neste Serm\u00e3o do Encontro \u00e9 um b\u00e1lsamo sagrado para todas as fam\u00edlias enlutadas e para todos os cora\u00e7\u00f5es que carregam fardos pesados demais para suportarem sozinhos. Ela nos ensina, com o seu sil\u00eancio majestoso, a n\u00e3o fugir covardemente diante da cruz que a vida nos apresenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Palavra de Deus nos exorta a n\u00e3o sermos meros espectadores da Paix\u00e3o. Quando as imagens sagradas se encontram nas pra\u00e7as das nossas par\u00f3quias e as l\u00e1grimas rolam dos nossos olhos movidos pela devo\u00e7\u00e3o, devemos nos perguntar com extrema sinceridade: onde eu estou nesta Via Sacra? Sou como os soldados que empurram, julgam e humilham o meu pr\u00f3ximo? Sou como a multid\u00e3o curiosa que apenas assiste \u00e0 dor alheia sem mover um dedo para ajudar? Ou sou como Maria, como o Cirineu, como a Ver\u00f4nica, que ousam romper a barreira do medo para aliviar o sofrimento de Cristo presente nos irm\u00e3os?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A verdadeira e frutuosa devo\u00e7\u00e3o a Nosso Senhor dos Passos e a Nossa Senhora das Dores exige de n\u00f3s uma convers\u00e3o de vida. N\u00e3o basta chorarmos de emo\u00e7\u00e3o nas prociss\u00f5es da Semana Santa se, ao voltarmos para os nossos lares, os nossos cora\u00e7\u00f5es continuam endurecidos pelo rancor, pela falta de perd\u00e3o e pelo orgulho implac\u00e1vel nas nossas rela\u00e7\u00f5es. O encontro transformador que celebramos hoje deve nos impulsionar a promover a cultura do encontro e da paz em nossas pr\u00f3prias fam\u00edlias, derrubando os muros da indiferen\u00e7a e construindo pontes s\u00f3lidas de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este percurso doloroso caminha inelutavelmente para o seu desfecho no alto do Calv\u00e1rio, onde a nova fam\u00edlia dos redimidos ser\u00e1 selada. O evangelista S\u00e3o Jo\u00e3o relata o momento supremo em que o amor atinge o seu \u00e1pice de doa\u00e7\u00e3o: <em>&#8220;Perto da cruz de Jesus, permaneciam de p\u00e9 sua m\u00e3e, a irm\u00e3 de sua m\u00e3e, Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena. Jesus, ent\u00e3o, vendo sua m\u00e3e e, perto dela, o disc\u00edpulo a quem amava, disse \u00e0 m\u00e3e: &#8216;Mulher, eis a\u00ed o teu filho&#8217;. Depois disse ao disc\u00edpulo: &#8216;Eis a\u00ed a tua m\u00e3e&#8217;. E a partir daquela hora, o disc\u00edpulo a acolheu em sua casa&#8221;<\/em> (Jo 19,25-27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nestas palavras derradeiras, pronunciadas como um testamento no altar do madeiro, Jesus n\u00e3o deixa a Sua M\u00e3e \u00f3rf\u00e3 de afeto, nem deixa a Sua Igreja \u00f3rf\u00e3 de m\u00e3e. O disc\u00edpulo amado, representando toda a comunidade dos fi\u00e9is e cada um de n\u00f3s batizados, acolhe Maria em sua casa. Esta \u00e9 a nossa voca\u00e7\u00e3o irrevog\u00e1vel: sermos a casa que acolhe a presen\u00e7a maternal de Maria. Acolh\u00ea-la \u00e9 matricular-se na sua escola de fidelidade. \u00c9 aprender com ela a virtude da fortaleza, para permanecer de p\u00e9 junto \u00e0s cruzes da vida, sem jamais perder a f\u00e9 na alvorada da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Que este Serm\u00e3o do Encontro n\u00e3o termine quando as imagens sagradas retornarem para os seus andores. Que o encontro inef\u00e1vel entre Jesus e Maria continue a ecoar nos nossos cora\u00e7\u00f5es, inspirando o perd\u00e3o entre pais e filhos, esposos e esposas, irm\u00e3os e vizinhos. Pe\u00e7amos a intercess\u00e3o valios\u00edssima da Virgem M\u00e3e das Dores e do Senhor Bom Jesus dos Passos. Que os nossos encontros di\u00e1rios sejam sempre marcados pela ternura compassiva, pela paci\u00eancia evang\u00e9lica e pelo amor incondicional que nos abre as portas da vida eterna.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cora\u00e7\u00e3o da Semana Santa, a liturgia e a riqu\u00edssima piedade popular da nossa Igreja nos convidam a parar, a silenciar as nossas inquieta\u00e7\u00f5es e a contemplar um dos momentos mais comoventes e dilacerantes da Paix\u00e3o: o Encontro de Jesus com a sua M\u00e3e Sant\u00edssima a caminho do Calv\u00e1rio. 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