{"id":97333,"date":"2026-03-22T09:00:35","date_gmt":"2026-03-22T12:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=97333"},"modified":"2026-03-25T20:17:18","modified_gmt":"2026-03-25T23:17:18","slug":"quinto-domingo-da-quaresma-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/quinto-domingo-da-quaresma-4\/","title":{"rendered":"Quinto Domingo da Quaresma"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao chegarmos ao quinto domingo da Quaresma, a liturgia nos coloca diante de uma verdade exigente e, ao mesmo tempo, desconcertante: Deus n\u00e3o apenas nos consola diante da morte, Ele a enfrenta e a vence. O Evangelho da ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro (Jo 11,1-45) n\u00e3o \u00e9 simplesmente um relato de milagre, mas uma revela\u00e7\u00e3o progressiva de quem \u00e9 Jesus e do que significa crer verdadeiramente n\u2019Ele. \u00c0 medida que nos aproximamos da Semana Santa, a Igreja deixa de falar apenas de convers\u00e3o moral e passa a nos introduzir no drama da vida e da morte, onde a f\u00e9 \u00e9 provada em sua forma mais radical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A primeira leitura (Ez 37,12-14) apresenta uma imagem forte e quase escandalosa: Deus abrindo sepulturas. <em>\u201cEis que vou abrir as vossas sepulturas e vos farei sair delas, \u00f3 meu povo\u201d<\/em> (Ez 37,12). Aqui n\u00e3o se trata apenas de consolar um povo exilado, mas de afirmar que Deus age precisamente onde tudo parece perdido. O povo estava como morto, sem esperan\u00e7a, sem futuro. E Deus n\u00e3o prop\u00f5e um simples recome\u00e7o superficial, mas uma verdadeira recria\u00e7\u00e3o: <em>\u201cPorei em v\u00f3s o meu esp\u00edrito, para que vivais\u201d <\/em>(Ez 37,14). Ou seja, a vida que Deus oferece n\u00e3o \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 existe, mas algo novo, que nasce da a\u00e7\u00e3o do seu Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Paulo, na segunda leitura (Rm 8,8-11), radicaliza ainda mais essa compreens\u00e3o. Ele estabelece uma oposi\u00e7\u00e3o clara: viver \u201csegundo a carne\u201d ou viver \u201csegundo o Esp\u00edrito\u201d. E aqui est\u00e1 o ponto decisivo: n\u00e3o se trata de moralismo, mas de perten\u00e7a. <em>\u201cV\u00f3s n\u00e3o viveis segundo a carne, mas segundo o Esp\u00edrito, se realmente o Esp\u00edrito de Deus mora em v\u00f3s\u201d<\/em> (Rm 8,9). A vida crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 um esfor\u00e7o isolado do homem, mas uma habita\u00e7\u00e3o: Deus vive em n\u00f3s. E \u00e9 essa presen\u00e7a que garante a vit\u00f3ria sobre a morte: \u201cAquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos vivificar\u00e1 tamb\u00e9m os vossos corpos mortais\u201d (Rm 8,11). A ressurrei\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o come\u00e7a no fim dos tempos, mas no interior da exist\u00eancia daquele que acolhe o Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando chegamos ao Evangelho, percebemos que o centro n\u00e3o \u00e9 L\u00e1zaro, mas o caminho de f\u00e9 percorrido por aqueles que encontram Jesus. Curiosamente, Jesus n\u00e3o se apressa. Ele permanece dois dias ainda no lugar onde estava (cf. Jo 11,6). Isso quebra completamente a nossa l\u00f3gica. Esperar\u00edamos um Deus que interv\u00e9m imediatamente, que resolve o problema, que evita a dor. Mas Cristo permite que a morte aconte\u00e7a. Isso revela algo essencial: a a\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o se limita a evitar o sofrimento, mas a dar-lhe um sentido novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O di\u00e1logo com Marta \u00e9, nesse contexto, profundamente revelador. Ela expressa uma f\u00e9 sincera, mas ainda limitada<em>: \u201cEu sei que ele ressuscitar\u00e1 na ressurrei\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo dia\u201d<\/em> (Jo 11,24). \u00c9 uma f\u00e9 correta, mas ainda projetada para o futuro. Jesus, por\u00e9m, desloca essa compreens\u00e3o: \u201cEu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida\u201d (Jo 11,25). N\u00e3o diz \u201ceu darei\u201d, mas \u201ceu sou\u201d. A ressurrei\u00e7\u00e3o deixa de ser apenas um evento futuro e passa a ser uma pessoa presente. Crer, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas aceitar uma doutrina, mas entrar em rela\u00e7\u00e3o com Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 ainda um detalhe que n\u00e3o pode ser ignorado: Jesus chega ao t\u00famulo quando L\u00e1zaro j\u00e1 est\u00e1 morto h\u00e1 quatro dias (cf. Jo 11,17). Para a mentalidade judaica, isso significava que n\u00e3o havia mais nenhuma possibilidade humana. A morte era definitiva. \u00c9 exatamente nesse ponto que Jesus age. Isso desmonta qualquer tentativa de reduzir a f\u00e9 a uma esp\u00e9cie de \u201cajuda complementar\u201d para situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis. Deus n\u00e3o entra apenas onde ainda h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o; Ele entra onde n\u00e3o h\u00e1 mais sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O vers\u00edculo mais curto do Evangelho \u2014 <em>\u201cJesus chorou\u201d<\/em> (Jo 11,35) \u2014 talvez seja um dos mais profundos. Cristo n\u00e3o \u00e9 um espectador distante da dor humana. Ele se comove, sofre, participa. Mas seu choro n\u00e3o \u00e9 desespero; \u00e9 express\u00e3o de um amor que n\u00e3o aceita a morte como palavra final. Em seguida, diante do t\u00famulo, Ele ordena: <em>\u201cTirai a pedra!\u201d<\/em> (Jo 11,39). Aqui aparece uma exig\u00eancia: antes da a\u00e7\u00e3o divina, h\u00e1 uma colabora\u00e7\u00e3o humana. A pedra n\u00e3o \u00e9 retirada por milagre. \u00c9 preciso que algu\u00e9m a mova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando Jesus clama: \u201cL\u00e1zaro, vem para fora!\u201d (Jo 11,43), n\u00e3o est\u00e1 apenas devolvendo a vida a um homem, mas revelando o que Ele far\u00e1 plenamente na sua pr\u00f3pria P\u00e1scoa. No entanto, h\u00e1 uma diferen\u00e7a decisiva: L\u00e1zaro sai ainda preso pelas faixas, e Jesus ordena: <em>\u201cDesatai-o e deixai-o caminhar\u201d<\/em> (Jo 11,44). Isso indica que a obra de liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 progressiva. A vida nova foi dada, mas ainda h\u00e1 um caminho de liberta\u00e7\u00e3o a ser percorrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essa Palavra confronta diretamente a mentalidade contempor\u00e2nea. Vivemos em uma cultura que evita a morte, esconde o sofrimento e busca solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas. No entanto, o Evangelho de hoje mostra que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o elimina o drama humano, mas o atravessa. A esperan\u00e7a n\u00e3o nasce da nega\u00e7\u00e3o da morte, mas da certeza de que Cristo tem poder sobre ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c0 medida que nos aproximamos da Semana Santa, a liturgia nos obriga a tomar posi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o basta admirar o milagre de L\u00e1zaro; \u00e9 preciso responder \u00e0 pergunta que Jesus dirige a Marta: <em>\u201cCr\u00eas isto?\u201d<\/em> (Jo 11,26). Essa pergunta permanece atual e exige uma resposta pessoal. Crer significa aceitar que a vida de Deus j\u00e1 come\u00e7ou em n\u00f3s, mesmo em meio \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es e fragilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E aqui est\u00e1 o ponto mais exigente: a ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas promessa, \u00e9 compromisso. Se fomos chamados \u00e0 vida, n\u00e3o podemos continuar vivendo como mortos. Se o Esp\u00edrito habita em n\u00f3s, n\u00e3o podemos nos conformar com uma exist\u00eancia superficial, fechada em si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c0 luz de tudo isso, a proximidade da Semana Santa n\u00e3o pode ser vivida de forma superficial. Somos chamados a entrar no mist\u00e9rio de Cristo com verdade, deixando que Ele revele onde ainda h\u00e1 morte em nossa vida. E mais ainda: permitindo que Ele nos conduza para fora, mesmo quando isso implica mudan\u00e7a, ruptura e convers\u00e3o real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim, irm\u00e3os e irm\u00e3s, este quinto domingo da Quaresma n\u00e3o nos oferece apenas consolo, mas uma decis\u00e3o: permanecer nos nossos \u201ct\u00famulos\u201d ou responder \u00e0 voz de Cristo. Pois aquele que hoje chama L\u00e1zaro para fora \u00e9 o mesmo que, na cruz, enfrentar\u00e1 a morte e, na Ressurrei\u00e7\u00e3o, a vencer\u00e1 definitivamente. E a cada um de n\u00f3s Ele continua a dizer, com autoridade e amor:<em> \u201cVem para fora!\u201d <\/em>(Jo 11,43).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao chegarmos ao quinto domingo da Quaresma, a liturgia nos coloca diante de uma verdade exigente e, ao mesmo tempo, desconcertante: Deus n\u00e3o apenas nos consola diante da morte, Ele a enfrenta e a vence. 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