{"id":96631,"date":"2025-12-26T09:32:52","date_gmt":"2025-12-26T12:32:52","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=96631"},"modified":"2025-12-27T11:34:07","modified_gmt":"2025-12-27T14:34:07","slug":"santo-estevao-primeiro-martir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/santo-estevao-primeiro-martir\/","title":{"rendered":"Santo Est\u00eav\u00e3o, primeiro m\u00e1rtir"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">A liturgia da Igreja \u00e9 sempre pedag\u00f3gica. Nada \u00e9 colocado ao acaso no calend\u00e1rio lit\u00fargico. Celebrar Santo Est\u00eav\u00e3o imediatamente ap\u00f3s a Solenidade do Natal do Senhor n\u00e3o \u00e9 apenas uma coincid\u00eancia hist\u00f3rica, mas uma profunda catequese espiritual. Ontem contempl\u00e1vamos o Verbo feito carne, reclinado numa manjedoura; hoje, a Igreja nos apresenta um homem que entrega a pr\u00f3pria vida por esse mesmo Verbo. O contraste \u00e9 forte, mas profundamente verdadeiro: o Deus que nasce por amor encontra, j\u00e1 nos primeiros passos da Igreja, o testemunho de quem morre por amor a Ele.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">A primeira leitura, (At 6,8\u201310; 7,54\u201359), oferece-nos uma das p\u00e1ginas mais densas do Novo Testamento. Est\u00eav\u00e3o \u00e9 descrito como \u201ccheio de gra\u00e7a e poder\u201d (At 6,8). N\u00e3o se trata aqui de poder humano, pol\u00edtico ou militar, mas da for\u00e7a que brota da intimidade com Deus. A gra\u00e7a n\u00e3o o isenta do conflito; ao contr\u00e1rio, o coloca no centro dele. A f\u00e9 aut\u00eantica n\u00e3o nos afasta das tens\u00f5es da hist\u00f3ria, mas nos insere nelas com a luz do Evangelho.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Est\u00eav\u00e3o enfrenta homens <i>\u201cincapazes de resistir \u00e0 sabedoria e ao Esp\u00edrito com que ele falava\u201d<\/i> (At 6,10). A rea\u00e7\u00e3o dos seus acusadores n\u00e3o \u00e9 o di\u00e1logo, mas a viol\u00eancia. Este dado \u00e9 extremamente atual. Quando a verdade n\u00e3o encontra acolhida, muitas vezes desperta agressividade. O mart\u00edrio nasce, quase sempre, da incapacidade de escutar aquilo que desinstala. Como afirmou S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, <i>\u201co mart\u00edrio \u00e9 a prova suprema da verdade da f\u00e9 crist\u00e3\u201d<\/i> (<\/span><\/span><span class=\"s2\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Veritatis Splendor<\/span><\/span><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">, 91).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">O ponto culminante do relato \u00e9 a vis\u00e3o do c\u00e9u aberto. Est\u00eav\u00e3o v\u00ea <i>\u201co Filho do Homem de p\u00e9, \u00e0 direita de Deus\u201d<\/i> (At 7,56). Esta express\u00e3o \u00e9 teologicamente riqu\u00edssima. Normalmente, a Escritura fala do Cristo \u201csentado\u201d \u00e0 direita do Pai, em sinal de gl\u00f3ria e realeza. Aqui, Ele est\u00e1 de p\u00e9. Muitos Padres da Igreja interpretam este detalhe como o Cristo que se levanta para acolher o seu m\u00e1rtir, como um juiz que se ergue para defender o inocente, ou como um irm\u00e3o que se coloca ao lado daquele que sofre por Ele. N\u00e3o \u00e9 um Cristo distante, mas solid\u00e1rio, participante do sofrimento do seu disc\u00edpulo.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">As \u00faltimas palavras de Est\u00eav\u00e3o ecoam diretamente as palavras de Jesus na cruz. <i>\u201cSenhor Jesus, recebe o meu esp\u00edrito\u201d <\/i>(At 7,59) recorda <i>\u201cPai, em tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito\u201d<\/i> (Lc 23,46). E <i>\u201cSenhor, n\u00e3o lhes imputes este pecado\u201d<\/i> (At 7,60) retoma o clamor de Cristo:<i> \u201cPai, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u201d<\/i> (Lc 23,34). Aqui est\u00e1 o n\u00facleo do mart\u00edrio crist\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 apenas morrer por uma causa, mas morrer amando, morrer perdoando, morrer confiando.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">O Salmo responsorial (Sl 30\/31) refor\u00e7a esta atitude espiritual: <i>\u201cEm vossas m\u00e3os, Senhor, entrego o meu esp\u00edrito\u201d.<\/i> Trata-se de um salmo de confian\u00e7a absoluta, recitado por quem se sabe amea\u00e7ado, mas n\u00e3o abandonado. O m\u00e1rtir n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que despreza a vida; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 algu\u00e9m que a entrega porque sabe que ela est\u00e1 segura nas m\u00e3os de Deus. Como ensina o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, \u201co mart\u00edrio \u00e9 o testemunho supremo da verdade da f\u00e9: significa dar testemunho at\u00e9 \u00e0 morte\u201d (CIC, 2473).<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">O Evangelho (Mt 10,17\u201322) aprofunda ainda mais esta perspectiva. Jesus n\u00e3o ilude os seus disc\u00edpulos: <i>\u201cSereis odiados por todos por causa do meu nome\u201d<\/i> (Mt 10,22). O seguimento de Cristo n\u00e3o \u00e9 um caminho de facilidades, mas de fidelidade. Contudo, o Senhor acrescenta uma promessa fundamental: <i>\u201cN\u00e3o sereis v\u00f3s que falareis, mas o Esp\u00edrito de vosso Pai \u00e9 que falar\u00e1 em v\u00f3s\u201d<\/i> (Mt 10,20). O m\u00e1rtir n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i solit\u00e1rio; \u00e9 algu\u00e9m conduzido pelo Esp\u00edrito Santo. A coragem n\u00e3o nasce da autossufici\u00eancia, mas da docilidade \u00e0 a\u00e7\u00e3o de Deus.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Esta liturgia nos convida a rever uma compreens\u00e3o muitas vezes superficial do Natal. O Natal n\u00e3o pode ser reduzido a um sentimento vago de fraternidade ou a uma celebra\u00e7\u00e3o cultural. O Menino de Bel\u00e9m \u00e9 o Cristo que exige decis\u00e3o. Como escreveu Bento XVI, <i>\u201co pres\u00e9pio j\u00e1 cont\u00e9m em si o mist\u00e9rio da cruz\u201d <\/i>(<\/span><\/span><span class=\"s2\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Jesus de Nazar\u00e9 \u2013 A Inf\u00e2ncia de Jesus<\/span><\/span><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">). Est\u00eav\u00e3o compreendeu isso profundamente. Por isso, sua morte n\u00e3o \u00e9 um fracasso, mas uma vit\u00f3ria pascal.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">H\u00e1 ainda um detalhe silencioso, mas significativo, no relato do mart\u00edrio: a presen\u00e7a de Saulo, que <i>\u201caprovava a morte de Est\u00eav\u00e3o\u201d<\/i> (At 8,1). A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 sempre viu aqui um sinal da fecundidade do mart\u00edrio. O sangue de Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o foi derramado em v\u00e3o; ele se tornou semente. Tertuliano dir\u00e1, com raz\u00e3o:<i> <\/i><\/span><\/span><span class=\"s2\"><i><span style=\"font-size: 14.0pt;\">\u201cO sangue dos m\u00e1rtires \u00e9 semente de novos crist\u00e3os\u201d<\/span><\/i><\/span><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\"> (<\/span><\/span><span class=\"s2\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Apologeticum<\/span><\/span><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">, 50). O futuro ap\u00f3stolo Paulo, perseguidor da Igreja, \u00e9 misteriosamente tocado por este testemunho extremo de f\u00e9 e perd\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Para n\u00f3s, hoje, esta liturgia \u00e9 um apelo claro e exigente. Somos chamados a um testemunho que v\u00e1 al\u00e9m das palavras. Em um mundo marcado pela intoler\u00e2ncia, pela indiferen\u00e7a religiosa e, muitas vezes, pela hostilidade aberta \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, Santo Est\u00eav\u00e3o nos recorda que a Igreja cresce quando permanece fiel, n\u00e3o quando se acomoda. Talvez n\u00e3o sejamos chamados ao mart\u00edrio de sangue, mas certamente somos convocados ao mart\u00edrio cotidiano: da coer\u00eancia \u00e9tica, da fidelidade ao Evangelho, da caridade vivida sem concess\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Que esta celebra\u00e7\u00e3o nos ajude a compreender que o Natal n\u00e3o termina no pres\u00e9pio, mas se prolonga no testemunho. Que Santo Est\u00eav\u00e3o interceda por n\u00f3s, para que, fortalecidos pelo Esp\u00edrito Santo, saibamos dar raz\u00f5es da nossa esperan\u00e7a (cf. 1Pd 3,15), mesmo quando isso nos custa. E que, sustentados pela liturgia da Igreja, aprendamos a entregar nossa vida, dia ap\u00f3s dia, nas m\u00e3os daquele que por n\u00f3s nasceu, morreu e ressuscitou. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-indent: 35.4pt; text-align: justify;\"><span class=\"s3\"><span style=\"font-size: 14.0pt;\">Vivamos, com grande j\u00fabilo, a oitava de Natal: \u201cN\u00e3o sereis v\u00f3s que havereis de falar, mas sim o Esp\u00edrito do vosso Pai\u201d. Diante das incompreens\u00f5es destes tempos dif\u00edceis devemos sempre voltar a manjedoura e contemplar o Deus Menino, o Pr\u00edncipe da Paz!<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A liturgia da Igreja \u00e9 sempre pedag\u00f3gica. Nada \u00e9 colocado ao acaso no calend\u00e1rio lit\u00fargico. Celebrar Santo Est\u00eav\u00e3o imediatamente ap\u00f3s a Solenidade do Natal do Senhor n\u00e3o \u00e9 apenas uma coincid\u00eancia hist\u00f3rica, mas uma profunda catequese espiritual. 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