{"id":95983,"date":"2025-10-09T11:47:28","date_gmt":"2025-10-09T14:47:28","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=95983"},"modified":"2025-10-09T17:48:36","modified_gmt":"2025-10-09T20:48:36","slug":"dilexi-te-2-a-perene-tradicao-da-igreja-mae-dos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/dilexi-te-2-a-perene-tradicao-da-igreja-mae-dos-pobres\/","title":{"rendered":"\u201cDilexi te\u201d (2) A Perene Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja, M\u00e3e dos Pobres"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Continuando a reflex\u00e3o sobre o primeiro documento do pontificado do Papa Le\u00e3o XIV somos chamados a aprofundar alguns aspectos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com profunda admira\u00e7\u00e3o pela vasta erudi\u00e7\u00e3o e pelo agudo discernimento hist\u00f3rico e teol\u00f3gico de nosso Santo Padre, o Papa Le\u00e3o XIV, acolhemos a sua luminosa Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica, <em>Dilexi te<\/em>. Se em uma primeira reflex\u00e3o nos detivemos no cora\u00e7\u00e3o espiritual e cristol\u00f3gico do documento, agora nos debru\u00e7amos sobre outra de suas imensas riquezas: a demonstra\u00e7\u00e3o clara e contundente de que o amor, o cuidado e o servi\u00e7o aos pobres n\u00e3o s\u00e3o uma inven\u00e7\u00e3o recente ou uma atividade secund\u00e1ria, mas constituem a corrente viva, ininterrupta e essencial da grande Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Le\u00e3o XIV n\u00e3o nos apresenta uma doutrina nova, mas, com a autoridade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria como Sucessor de Pedro, atua como um mestre s\u00e1bio que tira de seu tesouro coisas novas e velhas. Ele tece um magn\u00edfico e inspirador panorama da hist\u00f3ria da caridade, mostrando como, ao longo de dois mil\u00eanios, em meio a persegui\u00e7\u00f5es, crises e infidelidades, a Igreja sempre redescobriu sua verdadeira identidade como \u201cIgreja pobre e para os pobres\u201d. Este documento \u00e9 um testemunho eloquente e bem fundamentado de que a fidelidade a Cristo, o Senhor pobre e crucificado, passa, necessariamente, pela fidelidade aos seus membros mais sofredores, nos quais Ele mesmo quis se identificar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo III da Exorta\u00e7\u00e3o, intitulado \u201cUma Igreja para os Pobres\u201d, \u00e9 uma verdadeira peregrina\u00e7\u00e3o pela hist\u00f3ria da santidade. O Santo Padre nos conduz por uma viagem que come\u00e7a na comunidade apost\u00f3lica de Jerusal\u00e9m. Ali, diante das primeiras dificuldades, os Ap\u00f3stolos, guiados pelo Esp\u00edrito, instituem os di\u00e1conos para o \u201cservi\u00e7o (diakonia) das mesas\u201d, garantindo que as vi\u00favas e os mais necessitados n\u00e3o fossem descurados. \u00c9 imensamente significativo, como aponta o Pont\u00edfice, que o primeiro m\u00e1rtir, Santo Est\u00eav\u00e3o, seja um destes di\u00e1conos, unindo em sua vida, de forma indel\u00e9vel, o testemunho do servi\u00e7o aos pobres e o testemunho do sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este rio de caridade flui com uma for\u00e7a impressionante atrav\u00e9s dos primeiros s\u00e9culos, na era dos Padres da Igreja. O Papa Le\u00e3o XIV nos faz reviver o testemunho heroico do di\u00e1cono S\u00e3o Louren\u00e7o que, no s\u00e9culo III, diante da exig\u00eancia das autoridades romanas de entregar os tesouros da Igreja, teve a aud\u00e1cia de apresentar os pobres, os doentes e os marginalizados, proclamando: \u201cEstes s\u00e3o os tesouros da Igreja\u201d. Que poderosa e perene afirma\u00e7\u00e3o de identidade! Os Padres, tanto do Oriente quanto do Ocidente, aprofundaram esta convic\u00e7\u00e3o. O Santo Padre recorda as palavras inflamadas de S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, que denunciava a hipocrisia de quem adorna o altar com vasos de ouro enquanto Cristo, na pessoa do pobre, morre de fome l\u00e1 fora: \u201cPrimeiro d\u00e1 de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra\u201d. Cita tamb\u00e9m Santo Ambr\u00f3sio e seu disc\u00edpulo, Santo Agostinho, que ensinavam que a esmola n\u00e3o \u00e9 um ato de generosidade, mas de justi\u00e7a, uma restitui\u00e7\u00e3o daquilo que pertence ao pobre em virtude da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens. A teologia patr\u00edstica, como bem resume o Pont\u00edfice, foi eminentemente pr\u00e1tica, alertando que \u201co rigor doutrinal sem miseric\u00f3rdia \u00e9 palavra vazia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta corrente viva de caridade n\u00e3o se esgotou. A Exorta\u00e7\u00e3o nos mostra como, a cada nova \u00e9poca, com seus desafios espec\u00edficos, o Esp\u00edrito Santo suscitou homens e mulheres que encarnaram o amor de Cristo de formas novas e criativas. O Papa nos recorda a genialidade dos santos que fundaram grandes obras e movimentos: a vida mon\u00e1stica, com S\u00e3o Bas\u00edlio Magno no Oriente, que construiu uma verdadeira cidade da caridade, a \u201cBasil\u00edades\u201d, e com S\u00e3o Bento de N\u00farsia no Ocidente, cuja Regra estabelece que os h\u00f3spedes e peregrinos, especialmente os pobres, devem ser recebidos \u201ccomo o pr\u00f3prio Cristo\u201d. Os mosteiros se tornaram, por s\u00e9culos, os primeiros hospitais, escolas e centros de assist\u00eancia social da Europa. A liberta\u00e7\u00e3o dos cativos, num gesto de caridade heroica, com as Ordens dos Trinit\u00e1rios e Merced\u00e1rios, fundadas na Idade M\u00e9dia para resgatar crist\u00e3os escravizados. O Papa Le\u00e3o XIV destaca a radicalidade de seu carisma, que os levava a recolher fundos, a negociar liberta\u00e7\u00f5es e, no limite, a se oferecerem a si mesmos em troca de um prisioneiro, cumprindo literalmente o mandamento do amor maior. As Ordens mendicantes, que no s\u00e9culo XIII representaram uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica. Com o carisma prof\u00e9tico de S\u00e3o Francisco de Assis, que desposou a \u201cSenhora Pobreza\u201d e viu em cada leproso a imagem do Cristo sofredor, e de S\u00e3o Domingos de Gusm\u00e3o, que uniu a pobreza radical \u00e0 prega\u00e7\u00e3o da Verdade, a Igreja redescobriu a alegria de uma vida simples e itinerante, pr\u00f3xima do povo. A educa\u00e7\u00e3o dos pobres, vista como um ato de justi\u00e7a e promo\u00e7\u00e3o da dignidade. A Exorta\u00e7\u00e3o percorre a obra de gigantes como S\u00e3o Jos\u00e9 de Calasanz, fundador da primeira escola popular gratuita da Europa, S\u00e3o Jo\u00e3o Batista de La Salle, S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco e tantas congrega\u00e7\u00f5es femininas que, com uma \u201cpedagogia da ternura\u201d, se dedicaram a alfabetizar e formar integralmente os filhos dos mais pobres, especialmente as meninas, que eram as mais exclu\u00eddas. O cuidado com os migrantes e os doentes, encarnado por figuras como S\u00e3o Jo\u00e3o Batista Scalabrini e Santa Francisca Cabrini, que se fizeram pr\u00f3ximos dos milh\u00f5es de europeus que emigravam em condi\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, e por S\u00e3o Camilo de Lellis ou S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus, que revolucionaram o cuidado hospitalar, vendo em cada enfermo um membro do corpo sofredor de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao apresentar esta imensa \u201cnuvem de testemunhas\u201d, que chega at\u00e9 os \u00edcones da caridade do s\u00e9culo XX como Santa Teresa de Calcut\u00e1 e Santa Dulce dos Pobres, o Papa Le\u00e3o XIV nos mostra que a caridade n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o, mas uma hist\u00f3ria de rostos, de gestos, de institui\u00e7\u00f5es e de vidas doadas que continuam a fecundar e a inspirar a Igreja hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Exorta\u00e7\u00e3o demonstra, em seu cap\u00edtulo IV, como esta Tradi\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de caridade se consolidou, nos \u00faltimos 150 anos, no corpo doutrinal do Magist\u00e9rio Social da Igreja. Desde a prof\u00e9tica Enc\u00edclica <em>Rerum novarum<\/em> de Le\u00e3o XIII (1891), que abordou a \u201cquest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d, at\u00e9 o Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II, que se autodefiniu como a \u201cIgreja de todos e particularmente Igreja dos pobres\u201d, os Papas t\u00eam se feito a voz dos sem voz. O Papa Le\u00e3o XIV, com a sensibilidade de quem serviu como mission\u00e1rio, valoriza imensamente o caminho percorrido pelas Igrejas locais, como a da Am\u00e9rica Latina, que em suas confer\u00eancias do Rio de Janeiro, Medell\u00edn, Puebla, Santo Domingo e Aparecida aprofundou a compreens\u00e3o da op\u00e7\u00e3o pelos pobres, denunciou as \u201cestruturas de pecado\u201d e insistiu que os pobres n\u00e3o s\u00e3o meros objetos de nossa caridade, mas sujeitos de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e evangeliza\u00e7\u00e3o. Este ponto, sublinhado com for\u00e7a na Exorta\u00e7\u00e3o, \u00e9 crucial: implica em superar todo paternalismo e em nos colocarmos \u00e0 escuta dos pobres, para aprender com eles e lutar com eles pela sua liberta\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dilexi te<\/em> \u00e9 um convite vibrante a cada um de n\u00f3s para nos inserirmos neste grande e caudaloso rio da Tradi\u00e7\u00e3o eclesial. O Papa Le\u00e3o XIV, ao nos apresentar esta hist\u00f3ria bimilen\u00e1ria de amor em a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o faz por mera erudi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas para nos mostrar que o desafio \u00e9 permanente e que esta hist\u00f3ria est\u00e1 aberta. N\u00f3s somos chamados a escrever o pr\u00f3ximo cap\u00edtulo. A luta contra as novas formas de pobreza, a den\u00fancia das estruturas de injusti\u00e7a e o amor concreto, pessoal e transformador a cada irm\u00e3o e irm\u00e3 em necessidade s\u00e3o parte essencial do caminho da Igreja no terceiro mil\u00eanio e da voca\u00e7\u00e3o de cada batizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agradecemos do fundo do cora\u00e7\u00e3o ao Santo Padre por este documento magistral, que une com rara felicidade a profundidade da teologia, a riqueza da hist\u00f3ria e a urg\u00eancia da profecia. Que seu ensinamento nos impulsione a sermos, no hoje de nossa hist\u00f3ria, os novos S\u00e3o Louren\u00e7o, os novos S\u00e3o Francisco, as novas Santas Dulce dos Pobres, para que o mundo, vendo nossas obras, possa acreditar no amor de um Deus que se fez pobre para nos enriquecer, e que continua nos dizendo, do rosto de cada necessitado: \u201cDilexi te\u201d, \u201cEu te amei\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuando a reflex\u00e3o sobre o primeiro documento do pontificado do Papa Le\u00e3o XIV somos chamados a aprofundar alguns aspectos. Com profunda admira\u00e7\u00e3o pela vasta erudi\u00e7\u00e3o e pelo agudo discernimento hist\u00f3rico e teol\u00f3gico de nosso Santo Padre, o Papa Le\u00e3o XIV, acolhemos a sua luminosa Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica, Dilexi te. 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