{"id":94477,"date":"2025-05-15T09:19:23","date_gmt":"2025-05-15T12:19:23","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=94477"},"modified":"2025-05-15T17:20:51","modified_gmt":"2025-05-15T20:20:51","slug":"rerum-digitalium-uma-releitura-com-os-papas-da-enciclica-de-leao-xiii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/rerum-digitalium-uma-releitura-com-os-papas-da-enciclica-de-leao-xiii\/","title":{"rendered":"&#8220;Rerum digitalium&#8221;, uma releitura com os Papas da enc\u00edclica de Le\u00e3o XIII"},"content":{"rendered":"<figure class=\"article__image\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"didascalia_img\">Rostos de trabalhadores numa foto de 1900 e, atualmente, pessoas esperando um trem\u00a0<\/span><\/figure>\n<div class=\"article__meta \" data-mediatype=\"\">\n<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">Passaram-se 134 anos desde a publica\u00e7\u00e3o da &#8220;Rerum Novarum&#8221;, documento promulgado em 15 de maio de 1891. Por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de promulga\u00e7\u00e3o desta enc\u00edclica, tamb\u00e9m foram publicadas enc\u00edclicas de outros Pont\u00edfices. Pouco depois de sua elei\u00e7\u00e3o, o Papa Prevost enfatizou que a Igreja, inspirando-se no patrim\u00f4nio da Doutrina Social, \u00e9 chamada a responder a &#8220;outra revolu\u00e7\u00e3o industrial e ao desenvolvimento da intelig\u00eancia artificial&#8221;.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Amedeo Lomonaco \u2013 Vatican News<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Le\u00e3o XIII, com a enc\u00edclica Rerum Novarum, abordou &#8220;a quest\u00e3o social no contexto da primeira grande revolu\u00e7\u00e3o industrial. Hoje, a Igreja oferece a todos o seu patrim\u00f4nio de doutrina social para responder a uma nova revolu\u00e7\u00e3o industrial e ao desenvolvimento da intelig\u00eancia artificial, que traz novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justi\u00e7a e do trabalho&#8221;. Ao encontrar os cardeais em 10 de maio, o Papa Prevost explicou com estas palavras a escolha de &#8220;assumir o nome de Le\u00e3o XIV&#8221;. O caminho indicado \u00e9, portanto, o da doutrina social, a ser percorrido mesmo nesta era dominada por desequil\u00edbrios econ\u00f4micos e novos desafios.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A atualidade da Rerum Novarum<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossa \u00e9poca, como naquela do final do s\u00e9culo XIX, o mundo do trabalho \u00e9 um dos pilares que sustentam o tecido social. Relendo a enc\u00edclica do Papa Pecci, focada nas condi\u00e7\u00f5es das massas oper\u00e1rias, e situando essas reflex\u00f5es no contexto atual, podemos projetar uma esp\u00e9cie de &#8220;Rerum digitalium&#8221;, uma releitura das &#8220;coisas digitais&#8221;: seguindo o caminho tra\u00e7ado por Le\u00e3o XIII, podemos, de fato, considerar a quest\u00e3o do trabalho e dos direitos dos trabalhadores \u00e0 luz das profundas mudan\u00e7as trazidas pelas novas tecnologias. A enc\u00edclica do Papa Pecci, na qual a mensagem crist\u00e3 encontra a modernidade, \u00e9 um texto que tamb\u00e9m fala aos homens e mulheres de hoje.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A verdadeira vida \u00e9 a do mundo vindouro<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A enc\u00edclica Rerum Novarum foi promulgada h\u00e1 exatamente 134 anos, mas sua mensagem transcende as d\u00e9cadas e o limiar do terceiro mil\u00eanio. \u201cAs coisas temporais n\u00e3o podem ser compreendidas e avaliadas adequadamente se a alma n\u00e3o se elevar a outra vida, isto \u00e9, \u00e0 vida eterna, sem a qual a verdadeira no\u00e7\u00e3o de bem moral necessariamente se desvanece, de fato, toda a cria\u00e7\u00e3o se torna um mist\u00e9rio inexplic\u00e1vel. O que a pr\u00f3pria natureza nos dita, portanto, no cristianismo, \u00e9 um dogma sobre o qual todo o edif\u00edcio da religi\u00e3o se apoia como seu principal fundamento: isto \u00e9, que a verdadeira vida do homem \u00e9 a do mundo vindouro\u201d. Estas palavras dirigidas pelo Papa Le\u00e3o XIII aos homens do final do s\u00e9culo XIX ressoam mesmo nesta era digital: \u201cQuer voc\u00ea tenha riquezas e outros bens terrenos em abund\u00e2ncia, ou que n\u00e3o os tenha, isso n\u00e3o importa para a felicidade eterna; mas o bom ou mau uso desses bens, isso \u00e9 o que mais importa\u201d, escreve o Papa Pecci.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A Doutrina Social da Igreja e os tempos modernos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o das enc\u00edclicas sociais, na fase moderna, inicia-se, portanto, com a Rerum Novarum de Le\u00e3o XIII, atestando a preocupa\u00e7\u00e3o dos Papas, em diferentes contextos hist\u00f3ricos, com as quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas. A enc\u00edclica promulgada em 1891 inaugura a era da modernidade da doutrina social da Igreja. O documento do Papa Le\u00e3o XIII insere-se num contexto em que o trabalho era concebido como mercadoria. O mundo do trabalho mudou muito, mas os direitos dos trabalhadores ainda precisam ser salvaguardados. Entre os riscos associados \u00e0s novas tecnologias, e em particular \u00e0 intelig\u00eancia artificial, encontram-se os das novas formas de escravid\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Ao lado das sombras, encontram-se tamb\u00e9m muitas luzes ligadas \u00e0s oportunidades que esta era digital pode oferecer a toda a fam\u00edlia humana e, em particular, \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Buscadores da verdade e da fraternidade<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A enc\u00edclica Rerum Novarum enfatiza que o fator discriminante \u00e9 o bom ou mau uso dos bens. Este crit\u00e9rio \u00e9 igualmente v\u00e1lido para a abordagem a ser seguida hoje no uso das tecnologias digitais. O Papa Le\u00e3o XIII tamb\u00e9m escreve que todos os homens &#8220;est\u00e3o unidos pelo v\u00ednculo de uma santa fraternidade&#8221;. Viver a fraternidade significa compreender que &#8220;os bens da natureza e da gra\u00e7a s\u00e3o patrim\u00f4nio comum do g\u00eanero humano&#8221;. Se todos s\u00e3o filhos, acrescenta o Papa Pecci, s\u00e3o tamb\u00e9m herdeiros: &#8220;Herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo (Rm 8,17). Este \u00e9 o ideal de direitos e deveres contido no Evangelho&#8221;. \u00c9 o mesmo ideal indicado pelo Papa Francisco na enc\u00edclica Fratelli tutti: o de uma fraternidade humana. Como afirmou Le\u00e3o XIV ao se encontrar com os cardeais em 10 de maio, o Evangelho deve nos impelir a buscar &#8220;com alma sincera a verdade, a justi\u00e7a, a paz e a fraternidade&#8221;.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Que o trabalho n\u00e3o debilite o homem<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na enc\u00edclica Rerum Novarum, o Papa Le\u00e3o XIII se concentra nas dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos oper\u00e1rios industriais. \u201cN\u00e3o \u00e9 justo nem humano\u201d, afirma o documento, \u201cexigir do homem tanto trabalho a ponto de sua mente se tornar entorpecida por excesso de fadiga e seu corpo enfraquecer. Como sua natureza, a atividade humana \u00e9 limitada e circunscrita dentro de limites bem estabelecidos, al\u00e9m dos quais ele n\u00e3o pode ir. O exerc\u00edcio e o uso a aprimoram, sob a condi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, de que seja suspensa de tempos em tempos para dar lugar ao descanso. O trabalho, portanto, n\u00e3o deve ser prolongado al\u00e9m dos limites das pr\u00f3prias for\u00e7as.\u201d Outra quest\u00e3o presente na enc\u00edclica de 1891 \u00e9 a da educa\u00e7\u00e3o para a economia. \u201cQuando o trabalhador recebe um sal\u00e1rio suficiente para manter a si mesmo e sua fam\u00edlia com certo grau de conforto, se for s\u00e1bio, naturalmente pensar\u00e1 em poupar.\u201d Essas s\u00e3o reflex\u00f5es atuais para serem relidas tamb\u00e9m em nosso tempo, frequentemente marcado por fronteiras nem sempre bem definidas entre trabalho e vida pessoal. At\u00e9 mesmo o tema da economia, vista como instrumento capaz de sustentar a fam\u00edlia, \u00e9 muito atual e n\u00e3o marginal, pois se trata de dar o devido valor ao sal\u00e1rio, hoje cada vez mais agredido pelo consumismo desenfreado.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O caminho da caridade<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema central da enc\u00edclica Rerum Novarum \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de uma ordem social justa. Na parte conclusiva, indica-se o caminho a seguir: o da caridade. \u201cCada um fa\u00e7a a sua parte e n\u00e3o demore, porque a demora poderia tornar mais dif\u00edcil a cura de um mal j\u00e1 t\u00e3o grave. Que os governos trabalhem para isso com boas leis e medidas s\u00e1bias; que os capitalistas e os empregadores tenham sempre em mente os seus deveres; que os prolet\u00e1rios, diretamente interessados, fa\u00e7am, dentro dos limites da justi\u00e7a, o que puderem\u201d. \u201cQuanto \u00e0 Igreja, ela nunca e de forma alguma deixar\u00e1 faltar a sua obra\u201d. \u201cA salva\u00e7\u00e3o almejada \u2013 escreve o Papa Le\u00e3o XIII \u2013 deve ser o fruto principal de uma efus\u00e3o de caridade; queremos dizer aquela caridade crist\u00e3 que abrange todo o Evangelho\u201d. O caminho da caridade \u00e9 a estrada principal tamb\u00e9m no terceiro mil\u00eanio. Na era digital, junto com as l\u00f3gicas dos algoritmos, o fator humano continua sendo imprescind\u00edvel para permitir que a fam\u00edlia humana n\u00e3o transcure o sopro da solidariedade.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Os Papas e a Rerum Novarum<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja n\u00e3o cessa de fazer ouvir a sua voz sobre a res novae, t\u00edpicas da era moderna, e exorta todos a fazerem todos os esfor\u00e7os para que se possa afirmar uma civiliza\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, orientada para a busca do desenvolvimento humano integral e solid\u00e1rio. Um pilar da doutrina social da Igreja, intimamente ligada \u00e0 Rerum Novarum do Papa Le\u00e3o XIII, \u00e9 a enc\u00edclica Quadragesimo Anno, do Papa Pio XI. Promulgada em 15 de maio de 1931, no 40\u00ba anivers\u00e1rio da Rerum Novarum, insere-se num contexto hist\u00f3rico profundamente marcado pela grande crise de Wall Street de 1929, que abalou o mundo industrial e n\u00e3o apenas estadunidense. Neste documento, o texto de Le\u00e3o XIII \u00e9 definido como uma \u201ccarta magna\u201d da ordem social. Pio XI enquadra inicialmente o per\u00edodo da Rerum Novarum: \u201cNo final do s\u00e9culo XIX, o novo sistema econ\u00f4mico recentemente introduzido e os novos desenvolvimentos da ind\u00fastria\u201d \u2014 escreve o Pont\u00edfice refletindo sobre os fen\u00f4menos que em parte marcaram o nosso tempo \u2014 \u201cchegaram ao ponto em que a sociedade, em quase todas as na\u00e7\u00f5es, parecia cada vez mais dividida em duas classes\u201d: uma, pequena em n\u00famero, \u201cque gozava de quase todo conforto\u201d e a outra, composta por uma imensa multid\u00e3o de trabalhadores \u201coprimidos por uma pen\u00faria ruinosa\u201d. O texto do Papa Ratti alerta contra o que \u00e9 definido como um \u201cimperialismo internacional do dinheiro\u201d e descreve os danos de um sistema em que as finan\u00e7as dominam a economia e a economia real. Uma situa\u00e7\u00e3o muito semelhante \u00e0 que vivemos hoje.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Uma fonte em tempos de guerra<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No 50\u00ba anivers\u00e1rio da \u201cRerum Novarum\u201d, Pio XII, em sua mensagem radiof\u00f4nica para o Pentecostes de 1941, num tempo marcado como hoje pelo drama da guerra, enfatiza que da carta enc\u00edclica de Le\u00e3o XIII brotou \u201cuma fonte de esp\u00edrito social forte, sincero e desinteressado\u201d. \u201cUma fonte que, se hoje pode ser parcialmente coberta por uma avalanche de acontecimentos diversos e mais fortes, amanh\u00e3, uma vez removidas as ru\u00ednas deste furac\u00e3o mundial, quando come\u00e7ar a obra de reconstru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem social, implorada como digna de Deus e do homem, infundir\u00e1 novo impulso vigoroso e uma nova onda de florescimento e crescimento em todo o florescimento da cultura humana\u201d. \u201cA enc\u00edclica Rerum Novarum, aproximando-se do povo, a quem abra\u00e7ou com estima e amor \u2013 acrescenta Pio XII \u2013, penetrou nos cora\u00e7\u00f5es e mentes da classe oper\u00e1ria e incutiu nela o sentimento crist\u00e3o e a dignidade c\u00edvica\u201d. Em sua mensagem radiof\u00f4nica de 1942, na v\u00e9spera do Natal, Pio XII tamb\u00e9m enfatiza que a Igreja n\u00e3o hesita em deduzir as consequ\u00eancias pr\u00e1ticas derivadas da nobreza moral do trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas necessidades incluem, al\u00e9m de um sal\u00e1rio justo, suficiente para as necessidades do trabalhador e de sua fam\u00edlia, a preserva\u00e7\u00e3o e o aperfei\u00e7oamento de uma ordem social que torne poss\u00edvel uma propriedade privada segura, ainda que modesta, para todas as classes do povo, favore\u00e7a uma educa\u00e7\u00e3o superior para os filhos das classes trabalhadoras, particularmente dotados de intelig\u00eancia e boa vontade, promova o cuidado e a atividade pr\u00e1tica do esp\u00edrito social no bairro, no pa\u00eds, na prov\u00edncia, no povo e na na\u00e7\u00e3o, que, atenuando os conflitos de interesse e de classe, afaste dos trabalhadores o sentimento de segrega\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia reconfortante de uma solidariedade genuinamente humana e crist\u00e3mente fraterna.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Recompor as raz\u00f5es da justi\u00e7a<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIII \u00e9 orientada sobretudo por uma dire\u00e7\u00e3o, por uma necessidade ainda atual: aquela que nos impele a recompor as raz\u00f5es da justi\u00e7a. Em 14 de maio de 1961, Jo\u00e3o XXIII fez um discurso aos povos do mundo inteiro, no qual anunciou uma nova enc\u00edclica e recordou a contribui\u00e7\u00e3o da Rerum Novarum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O humilde Papa, seu sucessor, que nela fala, era um menino de dez anos naquele 1891: mas ele se lembra muito bem de como em sua par\u00f3quia, e ao seu redor, as palavras iniciais daquele documento \u00abRerum Novarum\u00bb eram repetidas nas igrejas e em confer\u00eancias como t\u00edtulo de um ensinamento, n\u00e3o inesperado na verdade, mas t\u00e3o antigo quanto o Evangelho de Jesus Salvador, e colocado naquele maio de 1891 sob uma nova luz e mais adequada \u00e0s circunst\u00e2ncias modernas do mundo. Eram situa\u00e7\u00f5es e quest\u00f5es recentes, sobre as quais todos gostavam de se pronunciar, e muitos o faziam de forma inadequada, dando origem ao perigo de confus\u00e3o e \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da desordem social. O Papa Le\u00e3o, o admir\u00e1vel pont\u00edfice, quisera haurir dos tesouros do ensinamento secular da Igreja a doutrina justa e santa, a verdade iluminadora para a dire\u00e7\u00e3o da ordem social segundo as necessidades do seu tempo. A Enc\u00edclica &#8220;Rerum Novarum&#8221;, colocando-se com grande coragem e, ao mesmo tempo, com clareza e decis\u00e3o, sobretudo entre as diversas rela\u00e7\u00f5es entre agricultores e oper\u00e1rios, chamados prolet\u00e1rios, de um lado, e propriet\u00e1rios e empres\u00e1rios, de outro, indicou qu\u00e3o indispens\u00e1vel era recompor as raz\u00f5es de justi\u00e7a e equidade em benef\u00edcio e vantagem de ambos, invocando, como necess\u00e1rios, tanto a interven\u00e7\u00e3o do Estado quanto a a\u00e7\u00e3o honesta e leal das partes interessadas, trabalhadores e empregadores.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Mater et magistra<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No 70\u00ba anivers\u00e1rio da Rerum Novarum, outro documento, promulgado em 15 de maio de 1961, retoma temas e quest\u00f5es abordados por Le\u00e3o XIII. Trata-se da enc\u00edclica Mater et Magistra, de Jo\u00e3o XXIII. O Papa Roncalli, recordando esse texto, indica duas palavras-chave: comunidade e socializa\u00e7\u00e3o. &#8220;Um dos aspectos t\u00edpicos que marcam a nossa \u00e9poca &#8211; escreve o Pont\u00edfice &#8211; \u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o, entendida como multiplica\u00e7\u00e3o progressiva das rela\u00e7\u00f5es em conviv\u00eancia com diversas formas de vida e atividades associadas, e a institucionaliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica&#8221;. A Igreja \u00e9 ent\u00e3o chamada a colaborar para construir uma comunh\u00e3o aut\u00eantica. Desse modo, o crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o deve se limitar a satisfazer as necessidades dos homens, mas deve tamb\u00e9m promover sua dignidade. Este tema continua crucial hoje: a busca do progresso, que tamb\u00e9m pode ser promovido pela intelig\u00eancia artificial, n\u00e3o pode ignorar a dignidade dos trabalhadores.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Octogesima Adveniens<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No 80\u00ba anivers\u00e1rio da Rerum Novarum, foi promulgada a carta apost\u00f3lica de Paulo VI, Octogesima Adveniens. O mundo mudou profundamente. \u201cO crescimento excessivo das cidades\u201d, escreveu Paulo VI, que em 1967 promulgou a enc\u00edclica Populorum Progressio sobre o desenvolvimento dos povos, \u201cacompanha a expans\u00e3o industrial, sem se identificar com ela\u201d. \u201cBaseada na pesquisa tecnol\u00f3gica e na transforma\u00e7\u00e3o da natureza\u201d, escreveu o Papa Montini, \u201ca industrializa\u00e7\u00e3o continua seu caminho sem parar, demonstrando uma criatividade inexaur\u00edvel. Enquanto algumas empresas se desenvolvem e se concentram, outras se extinguem ou se deslocam, criando novos problemas sociais: desemprego profissional ou regional, requalifica\u00e7\u00e3o e mobilidade das pessoas, adapta\u00e7\u00e3o permanente dos trabalhadores, desigualdade de condi\u00e7\u00f5es nos v\u00e1rios setores da ind\u00fastria\u201d. Todos esses s\u00e3o fen\u00f4menos recorrentes, embora com diferen\u00e7as, tamb\u00e9m em nosso tempo.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Uma voz prof\u00e9tica<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas por que o Papa Le\u00e3o XIII falou de quest\u00f5es sociais? Ele tinha o direito de faz\u00ea-lo? No domingo, 16 de maio de 1971 \u2013 dois dias ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da carta apost\u00f3lica Octogesima Adveniens \u2013 Paulo VI tamb\u00e9m respondeu a essas perguntas na homilia proferida durante a missa que presidiu na Pra\u00e7a S\u00e3o Pedro. &#8220;A Igreja e o pr\u00f3prio Papa \u2013 sublinhou o Papa Montini naquela ocasi\u00e3o \u2013 j\u00e1 tinham denunciado os erros sociais, especialmente de ideias, que estavam gerando graves inconvenientes nos novos tempos, precisamente os do trabalho industrial; mas naquela \u00e9poca a palavra foi mais forte, mais clara, mais direta; hoje podemos dizer que era libertadora e prof\u00e9tica&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que o Papa falou? Ele tinha o direito? Ele tinha a compet\u00eancia? Sim, respondemos, porque ele tinha o dever. Tratar-se-ia aqui de justificar esta interven\u00e7\u00e3o da Igreja e do Papa em assuntos sociais, que s\u00e3o por natureza assuntos temporais, assuntos terrenos, dos quais parece estar exclu\u00edda a compet\u00eancia de quem tem sua raz\u00e3o de ser em Cristo, que declarou que o seu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo. Mas, se olharmos bem, para o Papa n\u00e3o se tratava do reino deste mundo, digamos simplesmente de pol\u00edtica; tratava-se dos homens que comp\u00f5em este reino, tratava-se dos crit\u00e9rios de sabedoria e de justi\u00e7a que devem inspir\u00e1-lo; e, neste sentido, a voz do Papa, que se fez advogado dos pobres, obrigados a permanecerem pobres no processo gerador de novas riquezas, dos humildes e dos explorados, nada mais era do que o eco da voz de Cristo, que se fez centro de todos os atribulados e oprimidos para os consolar e redimir.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Laborem Exercens e Centesimus Annus<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No 90\u00ba anivers\u00e1rio da Rerum Novarum, foi promulgada a enc\u00edclica Laborem Exercens de Jo\u00e3o Paulo II. Celebramos este anivers\u00e1rio \u2013 escreve o Pont\u00edfice \u2013 na v\u00e9spera de novos progressos nas condi\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, econ\u00f4micas e pol\u00edticas que, segundo muitos especialistas, influenciar\u00e3o o mundo do trabalho e da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos do que a revolu\u00e7\u00e3o industrial do s\u00e9culo passado. No centen\u00e1rio da Rerum Novarum, foi promulgada, em 1\u00ba de maio de 1991, a enc\u00edclica Centesimus Annus de Jo\u00e3o Paulo II. A do Papa Wojty\u0142a \u00e9 uma \u201creleitura\u201d da enc\u00edclica leonina. O Pont\u00edfice polon\u00eas exorta a \u201colhar para tr\u00e1s\u201d, a redescobrir a riqueza dos princ\u00edpios fundamentais formulados na Rerum Novarum. \u201cMas tamb\u00e9m convido \u2013 escreve Jo\u00e3o Paulo II \u2013 a \u201colhar ao redor\u201d, para as \u201ccoisas novas\u201d que nos cercam e nas quais nos encontramos, por assim dizer, imersos, muito diferentes das \u201ccoisas novas\u201d que caracterizaram a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado. Por fim, convida a \u201colhar para o futuro\u201d, quando j\u00e1 podemos vislumbrar o terceiro mil\u00eanio da era crist\u00e3, cheio de inc\u00f3gnitas, mas tamb\u00e9m de promessas. Inc\u00f3gnitas e promessas que apelam \u00e0 nossa imagina\u00e7\u00e3o e criatividade\u201d. Jo\u00e3o Paulo II pronunciou estas palavras em 15 de maio de 1991, no final da celebra\u00e7\u00e3o do primeiro centen\u00e1rio da Rerum Novarum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio de sua enc\u00edclica, o Papa Le\u00e3o XIII enfatizou o fato de que, como consequ\u00eancia das novas t\u00e9cnicas, a produ\u00e7\u00e3o de bens havia aumentado rapidamente, e a humanidade se viu diante de uma riqueza nunca antes experimentada. Ele n\u00e3o rejeitou essa &#8220;res nova&#8221; como tal; pelo contr\u00e1rio, viu nela uma nova realiza\u00e7\u00e3o da vontade de Deus de aperfei\u00e7oar a obra de sua cria\u00e7\u00e3o por meio da obra do homem e para o bem do homem. Mas a preocupa\u00e7\u00e3o do Papa era garantir que essa nova riqueza, em vez de ser acess\u00edvel a toda a ra\u00e7a humana, permanecesse na realidade concentrada nas m\u00e3os de um pequeno grupo de pessoas, enquanto a massa do proletariado fosse exclu\u00edda de seu usufruto e se tornasse cada vez mais pobre.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Caritas in Veritate<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na enc\u00edclica Caritas in Veritate de 2009, Bento XVI retrata diversas mudan\u00e7as que afetam o tecido social e trabalhista. \u201cO conjunto de mudan\u00e7as sociais e econ\u00f4micas significa\u201d, escreve Bento XVI, \u201cque os sindicatos enfrentam maiores dificuldades para cumprir sua tarefa de representar os interesses dos trabalhadores, tamb\u00e9m porque os governos, por raz\u00f5es de utilidade econ\u00f4mica, muitas vezes limitam as liberdades sindicais ou a capacidade de negocia\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios sindicatos. As redes tradicionais de solidariedade encontram, assim, obst\u00e1culos crescentes a serem superados.\u201d O convite da doutrina social da Igreja, a partir da Rerum Novarum, para criar associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores para a defesa de seus direitos deve, portanto, ser honrado hoje ainda mais do que ontem, antes de tudo, dando uma resposta pronta e clarividente \u00e0 urg\u00eancia de estabelecer novas sinergias em n\u00edvel internacional, bem como local. &#8220;A mobilidade trabalhista, associada \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o generalizada, tem sido um fen\u00f4meno importante, n\u00e3o isento de aspectos positivos, pois \u00e9 capaz de estimular a produ\u00e7\u00e3o de novas riquezas e o interc\u00e2mbio entre diferentes culturas.&#8221; &#8220;No entanto, quando a incerteza sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, como consequ\u00eancia dos processos de mobilidade e desregulamenta\u00e7\u00e3o, se torna end\u00eamica \u2014 l\u00ea-se novamente na enc\u00edclica Caritas in Veritate, que tamb\u00e9m parece se referir ao per\u00edodo recente abalado pela pandemia \u2014 criam-se formas de instabilidade psicol\u00f3gica, de dificuldade em construir os pr\u00f3prios caminhos coerentes na exist\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Da Rerum Novarum \u00e0 Laudato si\u2019<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 24 de maio de 2015, foi assinada a Laudato si\u2019, a enc\u00edclica do Papa Francisco sobre o cuidado da Casa comum. Naquele ano, o cardeal Gualtiero Bassetti escreveu num artigo para o jornal l&#8217;Osservatore Romano que \u201ca import\u00e2ncia desta enc\u00edclica \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 relev\u00e2ncia que teve a publica\u00e7\u00e3o da Rerum Novarum em 1891 pelo Papa Le\u00e3o XIII\u201d. \u201cAquela enc\u00edclica do Papa Pecci abriu o olhar maternal da Igreja para um mundo ent\u00e3o ainda inexplorado pelo magist\u00e9rio pontif\u00edcio: o da quest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d. \u201cCom a Rerum Novarum, iluminou-se\u201d, explica o cardeal, \u201cuma fase de transi\u00e7\u00e3o muito importante: a passagem de uma sociedade agr\u00edcola para uma industrial, do campo para a f\u00e1brica e, por fim, dos not\u00e1veis para a sociedade de massas. Hoje, h\u00e1 uma nova passagem\u201d. \u201cA sociedade de massas tornou-se uma sociedade global cada vez mais pulverizada e l\u00edquida. Na enc\u00edclica de Le\u00e3o XIII\u201d, enfatiza o cardeal Bassetti, \u201cas refer\u00eancias ambientais eram o \u201cedif\u00edcio\u201d em que os oper\u00e1rios trabalhavam e o \u201csolo\u201d ocupado por essa f\u00e1brica, enquanto os sujeitos que ali atuavam eram os oper\u00e1rios e os patr\u00f5es. Hoje, essas realidades mudaram profundamente. O sistema de produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 em toda parte. E cada aspecto da cria\u00e7\u00e3o pode potencialmente ser usado e manipulado pelas tecnoci\u00eancias, com profundas repercuss\u00f5es na vida de cada ser humano.\u201d<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O Papa das coisas novas<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As novas tecnologias acompanharam frequentemente o caminho do minist\u00e9rio petrino ao longo dos dois mil anos de hist\u00f3ria da Igreja. Ao focarmos o pontificado de Le\u00e3o XIII, encontramos documentos preciosos. O Papa da Rerum Novarum \u00e9, em particular, o primeiro Pont\u00edfice da hist\u00f3ria imortalizado por uma c\u00e2mera. Estamos nos prim\u00f3rdios do cinema. No filme, o mais antigo existente na It\u00e1lia, o Pont\u00edfice foi visto aben\u00e7oando.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Le\u00e3o XIII, o primeiro Papa filmado por uma c\u00e2mera<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz de Le\u00e3o XIII \u00e9 tamb\u00e9m a primeira de um Pont\u00edfice a ser gravada e est\u00e1 guardada nos arquivos da R\u00e1dio Vaticano. Ouve-se o Papa Pecci lendo alguns trechos da Carta Enc\u00edclica &#8220;Humanum Genus&#8221;, sobre a &#8220;Condena\u00e7\u00e3o do relativismo filos\u00f3fico e moral da Ma\u00e7onaria&#8221;. A grava\u00e7\u00e3o traz a data de publica\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica, que ocorreu em 20 de abril de 1884. Foi feita com o fon\u00f3grafo de rolo de cera Edison (patenteado em 1877) e enviada \u00e0 R\u00e1dio Vaticano posteriormente.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Via Rerum Novarum<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho da enc\u00edclica promulgada em 1891 ainda aponta a estrada hoje e \u00e9 uma ponte entre o passado e o futuro. Se procurarmos a Via Rerum Novarum em mapas impressos e digitais, as placas coincidem em levar a Carpineto Romano. Nesta cidade, ber\u00e7o do Papa Le\u00e3o XIII, h\u00e1 uma estrada que leva o nome da enc\u00edclica. Este documento continua sendo um caminho para o qual os Pont\u00edfices, a Igreja e o mundo olham. Como disse Le\u00e3o XIV ao se reunir com o Col\u00e9gio Cardinal\u00edcio, a fam\u00edlia humana \u00e9 chamada, ao percorrer este caminho, a enfrentar &#8220;novos desafios em defesa da dignidade humana, da justi\u00e7a e do trabalho&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rostos de trabalhadores numa foto de 1900 e, atualmente, pessoas esperando um trem\u00a0 Passaram-se 134 anos desde a publica\u00e7\u00e3o da &#8220;Rerum Novarum&#8221;, documento promulgado em 15 de maio de 1891. Por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de promulga\u00e7\u00e3o desta enc\u00edclica, tamb\u00e9m foram publicadas enc\u00edclicas de outros Pont\u00edfices. 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