{"id":94383,"date":"2025-04-28T09:27:51","date_gmt":"2025-04-28T12:27:51","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=94383"},"modified":"2025-05-05T22:30:29","modified_gmt":"2025-05-06T01:30:29","slug":"terra-da-santa-cruz-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/terra-da-santa-cruz-2\/","title":{"rendered":"TERRA DA SANTA CRUZ"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>A primeira edifica\u00e7\u00e3o portuguesa em terras tupiniquins foi uma cruz. Uma cruz e um altar. Aqui aportaram num vinte e dois de abril. Num primeiro de maio, que ainda ignorava os dramas de nossos trabalhadores, celebraram entre os ind\u00edgenas a primeira missa. Neste continente ainda por se revelar em suas riquezas, mist\u00e9rios, belezas e grandiosidade, os portugueses foram se achegando, com mimos e gentilezas, comprando a confian\u00e7a de seus habitantes. Como quem nada quer, celebraram com os nativos, deixando plantada em solo virgem uma cruz, um estranho estandarte de uma f\u00e9 incompreens\u00edvel para nossos \u00edndios, mas que a hist\u00f3ria futura revelar-lhes-ia em toda sua intensidade, tanto prof\u00e9tica, quanto redentora. Ali come\u00e7ava a via crucis desse povo. Mas ningu\u00e9m se deu conta do simbolismo desse momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quinhentos anos depois, ali estava eu. Em f\u00e9rias, \u00e9 verdade, mas curioso por conhecer aqueles logradouros hist\u00f3ricos de Porto Seguro e arredores, visto estarmos em plena celebra\u00e7\u00e3o do quinto centen\u00e1rio de nossa na\u00e7\u00e3o \u201cbrasilis\u201d, a terra da madeira vermelha como fogo, o pau que n\u00e3o ardia, mas queimou como \u201cbrasa\u201d as m\u00e3os de muitos ind\u00edgenas e trabalhadores escravos, para fazer o escambo da preciosa madeira, s\u00edmbolo do olhar \u00e1vido do velho mundo sobre as riquezas desse novo mundo. Caminhando pela orla da Coroa Vermelha, numa manh\u00e3 luminosa de abril de 2000, vi ao longe a silhueta da cruz redentora \u2013 n\u00e3o a original, mas outra bem mais simb\u00f3lica, talhada sobre madeira bruta pelos ind\u00edgenas remanescentes da primeira missa&#8230; Como amavam aquele s\u00edmbolo! Digo isso n\u00e3o pela massacre que aquele \u201cDescobrimento\u201d proporcionou a seu povo \u2013 isto seria contradit\u00f3rio \u2013 mas pela maneira com que aprenderam a aceitar aquele s\u00edmbolo em suas vidas, a depositar a seus p\u00e9s toda ang\u00fastia da opress\u00e3o que sofreram, a colher de seus bra\u00e7os um novo sentido de vida, bem mais amplo e reconfortante do que as espolia\u00e7\u00f5es que sofriam. Tinham na sombra daquela cruz o amparo m\u00ednimo de que necessitavam para sobreviver. Nela encontram conforto, for\u00e7as e esperan\u00e7as renovadas. A cruz ali plantada tornou-se refrig\u00e9rio para suas almas. Aprenderam a am\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estava chegando ao local hist\u00f3rico. Ainda ao longe, vejo um trator e um caminh\u00e3o tamb\u00e9m se aproximando daquela cruz. Eram 07h00min. Estranhei aquele movimento na aurora de um dia cheio de luz. Mas os oper\u00e1rios que ali est\u00e3o, vieram determinados a um servi\u00e7o r\u00e1pido e eficiente. Com guinchos mec\u00e2nicos e cordas grossas, em minutos, arrancam do solo a velha cruz de madeira, colocam-na sobre a carroceria do caminh\u00e3o e saem a toda, tomando rumo desconhecido. Quando chego ao local, os ind\u00edgenas est\u00e3o alvoro\u00e7ados. Correm de um lado a outro, noticiando a trag\u00e9dia: \u201cRoubaram nossa cruz; os brancos levaram nossa cruz\u201d! Em minutos, toda aldeia est\u00e1 desperta e, os mais afoitos, munem-se de seus apetrechos de guerra, lan\u00e7as, machadinhas, foices, e saem em disparada ao encontro da cruz roubada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tudo isso aconteceu bem \u00e0 minha frente. Tudo para enaltecer e dar destaque \u00e0 nova cruz de a\u00e7o, erguida bem ao centro da pra\u00e7a rec\u00e9m-constru\u00edda, que seria o marco dos nossos 500 anos. Quinhentos anos de abuso e explora\u00e7\u00e3o, de mando e desmando, de velhos e novos caciques, eleitos ou aclamados pela tribo dos brancos e pela tradi\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas. Voltei ao local no ano passado. A cruz de metal l\u00e1 est\u00e1, enferrujada, abandonada, cercada pelo com\u00e9rcio de bugigangas e souvenires que a nossa cultura consome avidamente. Mas, ao fundo, bem num cantinho do outrora paradis\u00edaco cen\u00e1rio da primeira missa, ainda pude ver, esbelta, portentosa, brilhando ao sol de um novo dia, a velha e tosca cruz de madeira do povo ind\u00edgena. Ent\u00e3o dei gra\u00e7as, pois nosso Brasil ainda \u00e9 a Terra da Santa Cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">20 anos de Palavras de Esperan\u00e7a. Publicado em 26 de abril de 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A primeira edifica\u00e7\u00e3o portuguesa em terras tupiniquins foi uma cruz. 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