{"id":91529,"date":"2024-11-04T09:41:31","date_gmt":"2024-11-04T12:41:31","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=91529"},"modified":"2024-11-22T14:42:25","modified_gmt":"2024-11-22T17:42:25","slug":"o-amor-humano-e-divino-do-coracao-de-jesus-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-amor-humano-e-divino-do-coracao-de-jesus-i\/","title":{"rendered":"O amor humano e divino do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (I)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Santo Padre, o Papa Francisco, publicou, com data de 24 de outubro \u00faltimo, a Enc\u00edclica (= circular) que tem por t\u00edtulo as palavras em latim <em>Dilexit nos<\/em>. Inspiram-se em Romanos 8,37 e desejam, como real\u00e7a no t\u00edtulo, relembrar \u00e0 humanidade o amor \u2013 cujo s\u00edmbolo \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o (cf. Cap\u00edtulo 1, n. 2) \u2013 humano e divino do cora\u00e7\u00e3o sagrado de Jesus por todos n\u00f3s. Sim, Ele, o pr\u00f3prio Cristo, nos amou primeiro (cf. 1Jo 4,10), nos chamou de amigos (cf. Jo 15,9.12) e, \u00e9 gra\u00e7as a Jesus, que conhecemos o amor do Pai celeste por n\u00f3s (1Jo 4,16). Depois desta brev\u00edssima Introdu\u00e7\u00e3o, o documento real\u00e7a a import\u00e2ncia do cora\u00e7\u00e3o (cap\u00edtulo 1), os gestos e palavra de amor (cap\u00edtulo 2), a grandeza do amor do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (cap\u00edtulo 3), o amor que d\u00e1 de beber (cap\u00edtulo 4), amor por amor (cap\u00edtulo 5) e a Conclus\u00e3o. Percorramo-la com vivo interesse em seus pontos mais salientes, com votos de que cada um leia e medite esta nova Enc\u00edclica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No cap\u00edtulo 1, o Papa Francisco real\u00e7a a import\u00e2ncia do cora\u00e7\u00e3o como s\u00edmbolo do amor do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus por n\u00f3s, mas convida-nos a entender bem o sentido do termo cora\u00e7\u00e3o: \u201cNo grego cl\u00e1ssico profano, o termo <em>kard\u00eda<\/em> designa a parte mais \u00edntima dos seres humanos, dos animais e das plantas. Em Homero, indica n\u00e3o s\u00f3 o centro corp\u00f3reo, mas tamb\u00e9m a alma e o centro espiritual do ser humano. Na <em>Il\u00edada<\/em>, o pensamento e o sentimento pertencem ao cora\u00e7\u00e3o e est\u00e3o muito pr\u00f3ximos um do outro [Cf. Homero, Il\u00edada, canto XXI, verso 441]. O cora\u00e7\u00e3o aparece como o centro do desejo e o lugar onde s\u00e3o forjadas as decis\u00f5es importantes de uma pessoa [cf. Ibid., canto X, verso 244]. Em Plat\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o assume, de certa forma, uma fun\u00e7\u00e3o \u2018sintetizante\u2019 do que \u00e9 racional e das tend\u00eancias de cada pessoa, uma vez que tanto o comando das faculdades superiores como as paix\u00f5es se transmitem atrav\u00e9s das veias que convergem no cora\u00e7\u00e3o [cf. <em>Timeu<\/em>, \u00a7 65c-d; \u00a7 70]. Assim, desde a antiguidade advertimos a import\u00e2ncia de considerar o ser humano n\u00e3o como uma soma de diferentes capacidades, mas como um complexo an\u00edmico-corp\u00f3reo com um centro unificador que d\u00e1 a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orienta\u00e7\u00e3o\u201d (n. 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 J\u00e1 na Escritura, v\u00e1rias e v\u00e1rias passagens nos falam da import\u00e2ncia do cora\u00e7\u00e3o. Como cremos serem de conhecimento dos leitores ou de f\u00e1cil acesso para consultas, apenas as citaremos, comentando quando necess\u00e1rio: Hb 4,12; Lc 24,32; Jz 16,15.18 \u2013 sobre o segredo escondido, mas depois revelado de Sans\u00e3o para com Dalila, sua esposa \u2013 Jr 17,9 \u2013 a perversidade \u2013 Pr 4,23-24. E, assim, conclui o Papa: \u201cnada que valha a pena pode ser constru\u00eddo sem o cora\u00e7\u00e3o. As apar\u00eancias e as mentiras s\u00f3 trazem vazio\u201d (n. 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Hoje, por\u00e9m, em um mundo marcado pela volatilidade das coisas e at\u00e9 das pessoas \u00e9 preciso voltar-se para o cora\u00e7\u00e3o e fazer-lhe as perguntas essenciais (cf. n. 7-9). Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 hoje. Certas escolas da Filosofia, ao longo do tempo \u2013 o racionalismo grego pr\u00e9-crist\u00e3o, o idealismo p\u00f3s-crist\u00e3o, o materialismo em suas diversas modalidades (cf. n. 10) \u2013 tamb\u00e9m n\u00e3o valorizaram devidamente o cora\u00e7\u00e3o, o que resultou em uma antropologia assaz pobre. Ora, \u201cao n\u00e3o se dar o devido valor ao cora\u00e7\u00e3o, desvaloriza-se tamb\u00e9m o que significa falar a partir do cora\u00e7\u00e3o, agir com o cora\u00e7\u00e3o, amadurecer e curar o cora\u00e7\u00e3o\u201d (n. 11). Viver \u00e0 luz do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 ter paz consigo e com o pr\u00f3ximo. Viver sem cora\u00e7\u00e3o \u00e9 tornar-se, na express\u00e3o de Romano Guardini, citada pelo Santo Padre (cf. 12), um dem\u00f4nio. E, assim, chega a uma conclus\u00e3o de ontem, de hoje e de sempre: \u201cEm \u00faltima an\u00e1lise, poder-se-ia dizer que eu sou o meu cora\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 ele que me distingue, que me molda na minha identidade espiritual e que me p\u00f5e em comunh\u00e3o com as outras pessoas. O algoritmo que atua no mundo digital mostra que os nossos pensamentos e as decis\u00f5es da nossa vontade s\u00e3o muito mais \u2018standard\u2019 do que pens\u00e1vamos. S\u00e3o facilmente previs\u00edveis e manipul\u00e1veis. N\u00e3o \u00e9 o caso do cora\u00e7\u00e3o\u201d (n. 14). Ali\u00e1s, a palavra cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um desafio a todas as ci\u00eancias e mesmo aos conhecimentos filos\u00f3fico e teol\u00f3gico, pois nenhuma consegue explic\u00e1-lo a contento. Ele leva, como dito, o ser humano ao mais \u00edntimo do seu ser (cf. n. 15-16). \u00c9 ele o respons\u00e1vel, pois, pelo encontro consigo mesmo, com o pr\u00f3ximo e com Deus (cf. n. 17-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E ainda mais: S\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de unir: \u201cNo Evangelho, a melhor express\u00e3o do que pensa o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecida por duas passagens de S\u00e3o Lucas que nos dizem que Maria \u2018guardava (<em>synet\u00e9rei<\/em>) todas estas coisas, ponderando-as (<em>symb\u00e1llousa<\/em>) no seu cora\u00e7\u00e3o\u2019 (cf. Lc 2,19.51). O verbo <em>symb\u00e1llein<\/em> (do qual prov\u00e9m a palavra \u2018s\u00edmbolo\u2019) significa ponderar, unir duas coisas na mente, examinar-se, refletir, dialogar consigo mesmo. Em Lc 2,51, <em>diet\u00e9rei<\/em> \u00e9 \u2018conservava com cuidado\u2019, e o que ela guardava n\u00e3o era apenas \u2018a cena\u2019 que via, mas tamb\u00e9m o que ainda n\u00e3o compreendia, conservando-o presente e vivo, na esperan\u00e7a de unir tudo no seu cora\u00e7\u00e3o\u201d (n. 19). A intelig\u00eancia artificial, t\u00e3o em voga, n\u00e3o capta, em seus algoritmos, os mais \u00edntimos sentimentos do ser humano evocados em suas lembran\u00e7as: \u201cPorque o garfo, as piadas, a janela, a bola, a caixa de sapatos, o livro, o p\u00e1ssaro, a flor\u2026 s\u00e3o sustentados pela ternura preservada nas mem\u00f3rias do cora\u00e7\u00e3o\u201d (n. 20). Vendo o cora\u00e7\u00e3o como n\u00facleo do ser humano, entendemos tamb\u00e9m que se ele for bem cultivado no amor, teremos paz; se mal cultivado ou mesmo esquecido, v\u00eam as guerras que tanto assolam a humanidade em frequentes desentendimentos e matan\u00e7as. Isto porque \u201camando, a pessoa sente que sabe o porqu\u00ea e para que vive. Assim, tudo converge para um estado de conex\u00e3o e de harmonia. Por isso, diante do pr\u00f3prio mist\u00e9rio pessoal, talvez a pergunta mais decisiva que se possa fazer seja esta: tenho cora\u00e7\u00e3o?\u201d (n. 23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ainda no mesmo cap\u00edtulo 1, o Papa, enquanto s\u00e1bio conhecedor da pedagogia teol\u00f3gica de Santo In\u00e1cio de Loyola (e o citar\u00e1 v\u00e1rias vezes no decorrer do documento), afirma que, para o santo fundador da Companhia de Jesus, seu princ\u00edpio est\u00e1 no <em>affectus<\/em>. \u201cO discurso \u00e9 constru\u00eddo sobre uma vontade fundamental \u2013 com toda a for\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o \u2013 que d\u00e1 energia e recursos \u00e0 tarefa de reorganizar a vida\u201d (n. 24). Na mesma linha de racioc\u00ednio, o Papa cita tamb\u00e9m S\u00e3o Boaventura: \u201c\u2018saber que Cristo morreu por n\u00f3s n\u00e3o permanece (somente) conhecimento, mas torna-se necessariamente afeto, amor\u2019 (<em>Proemium in I Sent., q. 3<\/em>)\u201d. Cf. n. 26. Ainda: \u201cPerante o Cora\u00e7\u00e3o de Jesus vivo e atual, o nosso intelecto, iluminado pelo Esp\u00edrito, compreende as palavras de Jesus. Assim, a nossa vontade p\u00f5e-se em a\u00e7\u00e3o para as praticar. Mas isso poderia permanecer como uma forma de moralismo autossuficiente. Ouvir, saborear e honrar o Senhor pertence ao cora\u00e7\u00e3o. S\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de colocar as outras faculdades e paix\u00f5es e toda a nossa pessoa numa atitude de rever\u00eancia e obedi\u00eancia amorosa ao Senhor\u201d (n. 27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eis, como consequ\u00eancia pr\u00e1tica deste primeiro cap\u00edtulo, que s\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o humano bem orientado com a gra\u00e7a de Deus \u00e9 capaz de mudar o mundo: \u201cS\u00f3 a partir do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 que as nossas comunidades ser\u00e3o capazes de unir e pacificar os diferentes intelectos e vontades, para que o Esp\u00edrito nos possa guiar como uma rede de irm\u00e3os, porque a pacifica\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma tarefa do cora\u00e7\u00e3o. O Cora\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e9 \u00eaxtase, \u00e9 sa\u00edda, \u00e9 dom, \u00e9 encontro. N\u2019Ele tornamo-nos capazes de nos relacionarmos uns com os outros de forma saud\u00e1vel e feliz, e de construir neste mundo o Reino de amor e de justi\u00e7a. O nosso cora\u00e7\u00e3o unido ao de Cristo \u00e9 capaz deste milagre social\u201d (n. 28). Sem reformar o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se reforma nada na sociedade (cf. <em>Gaudium et spes<\/em>, 82. 10. 14. 26). S\u00f3 Cristo, por meio do seu cora\u00e7\u00e3o, centro do mundo, pode curar esta terra ferida (cf. n. 30-31).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eis, em resumo, o cap\u00edtulo 1 de <em>Dilexit nos<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Santo Padre, o Papa Francisco, publicou, com data de 24 de outubro \u00faltimo, a Enc\u00edclica (= circular) que tem por t\u00edtulo as palavras em latim Dilexit nos. 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