{"id":86047,"date":"2023-12-15T10:18:41","date_gmt":"2023-12-15T13:18:41","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=86047"},"modified":"2023-12-15T10:18:41","modified_gmt":"2023-12-15T13:18:41","slug":"primeira-pregacao-do-advento-2023-do-cardeal-raniero-cantalamessa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/primeira-pregacao-do-advento-2023-do-cardeal-raniero-cantalamessa\/","title":{"rendered":"Primeira Prega\u00e7\u00e3o do Advento 2023 do cardeal Raniero Cantalamessa"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Jesus n\u00e3o espera que os pecadores mudem de vida para poder acolh\u00ea-los; mas os acolhe, e isso leva os pecadores a mudar de vida. Todos os quatro Evangelhos \u2013 Sin\u00f3ticos e Jo\u00e3o \u2013 s\u00e3o un\u00e2nimes nisso.&#8221;<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: center;\">Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">\u201cVOZ DE QUEM CLAMA NO DESERTO\u201d<\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\">Jo\u00e3o Batista, o moralista e o profeta<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Primeira Prega\u00e7\u00e3o do Advento de 2023<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"December 15 2023, First Advent Meditation given by Cardinal Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap.\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/igY6spBMAiU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na liturgia do Advento, nota-se uma progress\u00e3o. Na primeira semana, a figura de destaque \u00e9 o profeta Isa\u00edas, aquele que anuncia de longe a vinda do Salvador; no segundo e terceiro domingos, o guia \u00e9 Jo\u00e3o Batista, o precursor; na quarta semana, a aten\u00e7\u00e3o se concentra toda em Maria. Este ano, tendo apenas duas medita\u00e7\u00f5es \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, pensei dedic\u00e1-las aos dois: ao Precursor e \u00e0 M\u00e3e. Nas icon\u00f3stases dos irm\u00e3os Ortodoxos, os dois est\u00e3o um \u00e0 direita e o outro \u00e0 esquerda de Cristo e, frequentemente, s\u00e3o apresentados como dois \u201crecepcionistas\u201d dos lados da porta que introduz ao recinto sacro.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><b>Jo\u00e3o Batista, pregador de convers\u00e3o<\/b><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos Evangelhos, o Precursor nos aparece em dois pap\u00e9is diversos: o de pregador de convers\u00e3o e o de profeta. Dedico a primeira parte da reflex\u00e3o a Jo\u00e3o moralista, a segunda, a Jo\u00e3o profeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns vers\u00edculos do Evangelho de Lucas s\u00e3o suficientes para nos dar uma ideia da prega\u00e7\u00e3o do Batista:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o dizia \u00e0s multid\u00f5es que chegavam a ele para serem batizadas: \u201cCrias de v\u00edboras, quem vos ensinou a fugir da ira que est\u00e1 para chegar?\u00a0Produzi, pois, frutos dignos de vosso arrependimento&#8230;\u00a0As multid\u00f5es lhe perguntavam: \u201cQue devemos fazer?\u201d.\u00a0Jo\u00e3o respondia: \u201cQuem tiver duas t\u00fanicas, reparta com quem n\u00e3o tem, e quem tiver comida, fa\u00e7a o mesmo!\u201d Alguns publicanos vieram para o Batismo e perguntaram: \u201cMestre, que devemos fazer?\u201d.\u00a0Ele respondeu: \u201cN\u00e3o cobreis al\u00e9m do que foi estabelecido\u201d.\u00a0Alguns soldados tamb\u00e9m lhe perguntaram: \u201cE n\u00f3s, que devemos fazer?\u201d. Jo\u00e3o respondeu: \u201cN\u00e3o maltrateis a ningu\u00e9m, nem tomeis dinheiro \u00e0 for\u00e7a e contentai-vos com o vosso soldo\u201d (Lc 3,7-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Evangelho permite ver o que distingue, neste ponto, a prega\u00e7\u00e3o do Batista daquela de Jesus. O salto de qualidade \u00e9 expressado do modo mais claro pelo pr\u00f3prio Jesus:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Lei e os Profetas vigoraram at\u00e9 Jo\u00e3o! A partir de ent\u00e3o, o Reino de Deus \u00e9 anunciado; e cada um se esforce para entrar nele (Lc 16,16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos tomar cuidado com contraposi\u00e7\u00f5es simplicistas entre Lei e Evangelho. Logo ap\u00f3s a afirma\u00e7\u00e3o acima citada, Jesus (ou, mais provavelmente, o pr\u00f3prio evangelista) acrescenta: \u201cOra, \u00e9 mais f\u00e1cil passar o c\u00e9u e a terra do que cair uma s\u00f3 v\u00edrgula da Lei\u201d (Lc 16,17). O Evangelho n\u00e3o abole a lei, isto \u00e9, concretamente, os mandamentos de Deus; mas inaugura uma rela\u00e7\u00e3o nova e diversa com eles, um modo novo de observ\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 novo \u00e9 a ordem entre o mandamento e o dom, isto \u00e9, entre a lei e a gra\u00e7a. \u00c0 base da prega\u00e7\u00e3o do Batista est\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o: \u201cConvertei-vos e o reino de Deus\u00a0<i>vir\u00e1<\/i>\u00a0a v\u00f3s!\u201d; \u00e0 base da prega\u00e7\u00e3o de Jesus est\u00e1 afirma\u00e7\u00e3o: \u201cConvertei-vos, pois o reino de Deus\u00a0<i>veio<\/i>\u00a0a v\u00f3s!\u201d (recordemos a afirma\u00e7\u00e3o de Jesus acima citada: \u201cA Lei e os Profetas vigoraram at\u00e9 Jo\u00e3o! A partir de ent\u00e3o, o Reino de Deus \u00e9 anunciado; e cada um se esforce para entrar nele\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 uma diferen\u00e7a apenas\u00a0<i>cronol\u00f3gica<\/i>, como entre um antes e um depois; trata-se de uma diferen\u00e7a tamb\u00e9m\u00a0<i>axiol\u00f3gica<\/i>, isto \u00e9, de valor. Quer dizer que n\u00e3o \u00e9 a observ\u00e2ncia dos mandamentos que permite ao reino de Deus vir; mas \u00e9 a vinda do reino de Deus que permite a observ\u00e2ncia dos mandamentos. Os homens n\u00e3o mudaram improvisamente e se tornaram melhores, de modo que o Reino p\u00f4de vir sobre a terra. N\u00e3o, eles s\u00e3o os de sempre, mas foi Deus quem, na plenitude dos tempos, enviou o seu Filho, dando-lhes assim a possibilidade de mudar e viver uma vida nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPois a Lei foi dada por meio de Mois\u00e9s; a gra\u00e7a [de observ\u00e1-la, entende-se] e a verdade vieram por Jesus Cristo\u201d, escreve o evangelista Jo\u00e3o (Jo 1,17). Amar a Deus com todo o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201co primeiro e maior mandamento\u201d; mas a ordem dos mandamentos n\u00e3o \u00e9 a primeira ordem, ou o primeiro n\u00edvel: acima dele, est\u00e1 a ordem do dom: \u201cN\u00f3s amamos, porque ele nos amou primeiro\u201d (1Jo 4,19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante ver como esta novidade de Cristo se reflete na atitude diversa do Batista e de Jesus em rela\u00e7\u00e3o aos chamados \u201cpecadores\u201d. Jo\u00e3o, n\u00f3s ouvimos, aborda os pecadores que v\u00e3o at\u00e9 ele com palavras de fogo. \u00c9 Jesus mesmo que faz notar a diferen\u00e7a, neste ponto, entre ele e o Precursor: \u201cVeio Jo\u00e3o, que n\u00e3o come nem bebe e dizem: \u2018Tem um dem\u00f4nio\u2019.\u00a0Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: \u2018\u00c9 um comil\u00e3o e beberr\u00e3o, amigo de publicanos e de pecadores\u201d (Mt 11,18-19; cf. Lc 7,34).\u00a0\u201cPor que vosso mestre come com os publicanos e pecadores?\u201d, diziam os fariseus aos seus disc\u00edpulos (Mt 9,11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus n\u00e3o espera que os pecadores mudem de vida para poder acolh\u00ea-los; mas os acolhe, e isso leva os pecadores a mudar de vida. Todos os quatro Evangelhos \u2013 Sin\u00f3ticos e Jo\u00e3o \u2013 s\u00e3o un\u00e2nimes nisso. Jesus n\u00e3o espera que a Samaritana ponha em ordem a sua vida privada, antes de entreter-se com ela e at\u00e9 mesmo lhe pedir para lhe dar de beber. Mas assim fazendo, mudou o cora\u00e7\u00e3o daquela mulher, que se torna uma evangelizadora em meio ao seu povo. O mesmo acontece com Zaqueu, com o publicano Mateus, com a pecadora an\u00f4nima que lhe beija os p\u00e9s na casa de Sim\u00e3o e com a ad\u00faltera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos tirar uma norma absoluta a partir desses exemplos (Jesus era Jesus e lia nos cora\u00e7\u00f5es; n\u00f3s n\u00e3o somos Jesus!). a Igreja n\u00e3o pode prescindir, contudo, do seu estilo, sem nos encontrar ao lado de Jo\u00e3o Batista, ao inv\u00e9s do de Cristo. Jesus reprova o pecado infinitamente mais do que possam faz\u00ea-lo os mais r\u00edgidos moralistas, mas prop\u00f4s no Evangelho um novo rem\u00e9dio: n\u00e3o o afastamento, mas a acolhida. A mudan\u00e7a de vida n\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para nos aproximar de Jesus nos Evangelhos; contudo, deve ser o resultado (ou ao menos o prop\u00f3sito) depois de termos nos aproximado dele. A miseric\u00f3rdia de Deus, de fato, \u00e9 incondicional, mas n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancias!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre este ponto, a Santa M\u00e3e Igreja tem muito que aprender das m\u00e3es e dos pais de fam\u00edlia de hoje. Todos n\u00f3s conhecemos os dramas que dilaceram tantos pais de hoje: filhos que, apesar do seu bom exemplo de vida crist\u00e3 e de seus bons conselhos, tomam um caminho diferente do deles, destruindo a si mesmos com as drogas, abuso do sexo, escolhas precipitadas que se revelam equivocadas e frequentemente tr\u00e1gicas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 que, por isso, eles lhes fecham a porta \u00e0 face e os expulsa de casa? N\u00e3o podem fazer nada a n\u00e3o ser respeitar sua escolha, como a respeita Deus antes deles, e continuar a am\u00e1-los. Esta situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica da sociedade se reflete naquela da Igreja. Somos chamados a escolher entre o modelo de Jo\u00e3o Batista e o modelo de Jesus, entre o dar a preemin\u00eancia \u00e0 lei, ou d\u00e1-la \u00e0 gra\u00e7a e \u00e0 miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um ponto sobre o qual n\u00e3o se h\u00e1 de escolher, porque Jo\u00e3o e Jesus est\u00e3o completamente de acordo. Sobre ele tamb\u00e9m n\u00f3s dever\u00edamos levantar a voz, sem deixar que seja apenas o papa a faz\u00ea-lo. Trata-se daquele que Jo\u00e3o exprime com as palavras: \u201cQuem tiver duas t\u00fanicas, reparta com quem n\u00e3o tem, e quem tiver comida, fa\u00e7a o mesmo\u201d (Lc 3,11) e que Jesus inculca com a par\u00e1bola do rico epul\u00e3o e com a descri\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo final em Mateus 25.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><b>Jo\u00e3o Batista, \u201cprofeta e mais que profeta\u201d<\/b><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passemos agora ao segundo papel, ou t\u00edtulo, de Jo\u00e3o Batista. Ele \u2013 eu dizia \u2013 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um moralista e um pregador de penit\u00eancia; \u00e9 tamb\u00e9m e sobretudo um profeta: \u201cE tu, menino, ser\u00e1s chamado profeta do Alt\u00edssimo\u201d (Lc 1,76). Jesus o define at\u00e9 mesmo \u201cmais que um profeta\u201d (Lc 7,26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que sentido, poder\u00edamos nos perguntar, Jo\u00e3o Batista \u00e9 um profeta? Onde est\u00e1 a profecia no seu caso? Os profetas anunciavam uma salva\u00e7\u00e3o futura. Mas Jo\u00e3o Batista n\u00e3o anuncia uma salva\u00e7\u00e3o futura; ele aponta para algu\u00e9m que est\u00e1 presente. Em que sentido, ent\u00e3o, pode ser chamado de profeta? Isa\u00edas, Jeremias, Ezequiel, ajudavam o povo a superar e ultrapassar a barreira do tempo; Jo\u00e3o Battista ajuda o povo a ultrapassar a barreira, ainda mais espessa, das apar\u00eancias contr\u00e1rias. O Messias t\u00e3o aguardado, aquele anunciado pelos profetas, prometido nos Salmos, seria, portanto, aquele homem de apar\u00eancia t\u00e3o humilde?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil crer em algo grandioso, divino, quando nos projetamos em futuro indefinido \u2013 \u201cnaqueles dias\u201d, \u201cnos \u00faltimos dias\u201d&#8230; \u2013, em um quadro c\u00f3smico, com os c\u00e9us que orvalham do\u00e7ura e a terra que se abre para fazer brotar o Salvador. Mais dif\u00edcil \u00e9 quando se deve dizer: \u201cAgora! Est\u00e1 aqui! \u00c9 este!\u201d. O homem \u00e9 imediatamente tentado em dizer: \u201cIsso \u00e9 tudo? \u201cDe Nazar\u00e9 \u2013 diziam \u2013 pode sair algo de bom?\u201d. \u201cEste, por\u00e9m, sabemos de onde \u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o esc\u00e2ndalo da humildade de Deus que se revela \u201csob apar\u00eancias contr\u00e1rias\u201d, para confundir o orgulho e \u201ca vontade de pot\u00eancia\u201d dos homens. Acreditar que o homem que h\u00e1 pouco viram comer, talvez at\u00e9 bocejar ao despertar, \u00e9 o Messias, o aguardado por todos; acreditar que chegamos ao porqu\u00ea da hist\u00f3ria: isso requeria uma coragem prof\u00e9tico maior do que a de Isa\u00edas. Trata-se de uma tarefa sobre-humana; compreende-se a grandeza do precursor e porque \u00e9 definido \u201cmais que um profeta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os quatro Evangelhos p\u00f5em em evid\u00eancia a d\u00faplice veste de Jo\u00e3o Batista, a de moralista e a de profeta. Mas, enquanto os Sin\u00f3ticos insistem mais sobre a primeira, o Quarto Evangelho insiste mais sobre a segunda. Jo\u00e3o Batista \u00e9 o homem do \u201cEi-lo!\u201d. \u201cFoi dele que eu disse&#8230; Eis o Cordeiro de Deus!\u201d (Jo 1,15.29). Que arrepio deve ter corrido pelo corpo daqueles que, com estas palavras ou outras semelhantes, receberam por primeiro a revela\u00e7\u00e3o. Era como uma passagem de ins\u00edgnias: passado e futuro, espera e cumprimento se tocavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Jo\u00e3o Batista nos ensina como profeta? Creio que ele nos tenha deixado de heran\u00e7a a sua tarefa prof\u00e9tica. Ao dizer: \u201cNo meio de v\u00f3s est\u00e1 quem v\u00f3s n\u00e3o conheceis!\u201d (Jo 1,26), inaugurou a nova profecia crist\u00e3 que n\u00e3o consiste em anunciar uma salva\u00e7\u00e3o futura, mas em revelar uma presen\u00e7a escondida, a presen\u00e7a de Cristo no mundo e na hist\u00f3ria, em rasgar os v\u00e9us dos olhos das pessoas, quase gritando, com as palavras de Isa\u00edas: \u201cAinda n\u00e3o percebeis?\u201d (Is 43,19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus disse: \u201cEis que estou convosco todos os dias, at\u00e9 o fim dos tempos\u201d. Ele est\u00e1 em meio a n\u00f3s; est\u00e1 no mundo e o mundo, tamb\u00e9m hoje, ap\u00f3s dois mil anos, n\u00e3o o reconhece. H\u00e1 uma frase de Cristo que tem sempre inquietado os fi\u00e9is. \u201cO Filho do homem, por\u00e9m, encontrar\u00e1 f\u00e9 sobre a terra?\u201d (Lc 18,8). Mas Jesus n\u00e3o fala aqui da sua vinda no fim do mundo. Nos chamados discursos escatol\u00f3gicos, frequentemente cruzam duas perspectivas: a da vinda final de Cristo e a da sua vinda como ressuscitado, glorificado e reivindicado pelo Pai, que Paulo define a sua vinda \u201ccom poder, segundo o Esp\u00edrito de santidade\u201d (Rm 1,4), em contraste com a vinda anterior \u201csegundo a carne\u201d. \u00c9 se referindo a esta vinda segundo o Esp\u00edrito, que Jesus pode dizer: \u201cN\u00e3o passar\u00e1 esta gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 que tudo isso aconte\u00e7a\u201d (Mt 24,34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, aquela frase inquietante de Jesus n\u00e3o interpela os nossos descendentes, aqueles que viver\u00e3o no momento do seu retorno final como juiz; interpela os nossos antepassados e interpela os nossos contempor\u00e2neos, incluindo n\u00f3s. Apesar da sua ressurrei\u00e7\u00e3o e dos prod\u00edgios que acompanharam o in\u00edcio da Igreja, Jesus encontrou f\u00e9 entre os seus? Apesar de dois mil anos da sua presen\u00e7a no mundo e todas as confirma\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, ainda encontra f\u00e9 sobre a terra, especialmente entre os chamados \u201cintelectuais\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tarefa prof\u00e9tica da Igreja ser\u00e1 a mesma de Jo\u00e3o Batista, at\u00e9 o fim do mundo: sacudir cada gera\u00e7\u00e3o da sua terr\u00edvel distra\u00e7\u00e3o e cegueira que impede reconhecer e ver a luz do mundo. \u00c9 esta a tarefa perene da evangeliza\u00e7\u00e3o. No tempo de Jo\u00e3o, o esc\u00e2ndalo derivava do corpo f\u00edsico de Jesus; da sua carne t\u00e3o semelhante \u00e0 nossa, exceto o pecado. Tamb\u00e9m hoje \u00e9 o seu corpo, a sua carne a escandalizar: o seu corpo m\u00edstico, a Igreja, t\u00e3o semelhante ao resto da humanidade, n\u00e3o exclu\u00eddo nem mesmo o pecado. Como Jo\u00e3o Batista fez reconhecer Cristo sob a humildade da carne aos seus contempor\u00e2neos, assim \u00e9 necess\u00e1rio hoje faz\u00ea-lo reconhecer na pobreza e na mis\u00e9ria da Igreja e da nossa pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><b>Uma evangeliza\u00e7\u00e3o nova no fervor<\/b><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II caracterizou a nova evangeliza\u00e7\u00e3o como uma evangeliza\u00e7\u00e3o \u2013 cito \u2013 \u201cnova no fervor, nova nos m\u00e9todos e nova nas express\u00f5es\u201d. Jo\u00e3o Batista \u00e9 mestre para n\u00f3s sobretudo na primeira destas tr\u00eas coisas, o fervor. Ele n\u00e3o \u00e9 um grande te\u00f3logo; tem uma cristologia bastante rudimentar. Ainda n\u00e3o conhece os mais altos t\u00edtulos de Jesus: Filho de Deus, Verbo, e nem mesmo o de Filho do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usa imagens simplic\u00edssimas. \u201cN\u00e3o sou digno \u2013 afirma \u2013 de desatar a correia da sua sand\u00e1lia&#8230;\u201d. Mas, apesar da pobreza de sua teologia, como consegue fazer ouvir a grandeza e unicidade de Cristo! O mundo e a humanidade aparecem, das suas palavras, todos contidos como dentro de uma joeira, ou uma peneira, que ele, o Messias, segura e balan\u00e7a em suas m\u00e3os. Diante dele se decide quem fica e quem cai, quem \u00e9 o bom gr\u00e3o e quem \u00e9 palha que o vento dispersa. O exemplo do Precursor nos diz que todos podem ser evangelizadores!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comentando as palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II que recordei, algu\u00e9m, a seu tempo, observou que a nova evangeliza\u00e7\u00e3o pode e deve ser, sim, nova \u201cno fervor, no m\u00e9todo e na express\u00e3o\u201d, mas n\u00e3o nos conte\u00fados, que permanecem os de sempre e que derivam da revela\u00e7\u00e3o. Em outras palavras: que pode e deve haver uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o um novo Evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso \u00e9 verdade. N\u00e3o pode haver conte\u00fados total e verdadeiramente novos. Pode, contudo, haver conte\u00fados novos, no sentido de que, no passado, n\u00e3o eram enfatizados o bastante, que permaneceram na sombra, pouco valorizados. S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno dizia: \u201c<i>Scriptura cum legentibus crescit<\/i>\u201d (<i>Moralia<\/i>\u00a0<i>in Job<\/i>, 20,1,1), a Escritura cresce com quem a l\u00ea. E, em outro trecho, explica tamb\u00e9m o porqu\u00ea. \u201cDe fato \u2013 afirma \u2013 algu\u00e9m compreende [as Escrituras] tanto mais profundamente quanto mais profunda for a aten\u00e7\u00e3o que a elas dedica\u201d (<i>Hom in Ez<\/i>. I,7,8). Este crescimento se realiza primeiramente em n\u00edvel pessoal no crescimento em santidade; mas se realiza tamb\u00e9m em n\u00edvel universal, \u00e0 medida que a Igreja avan\u00e7a na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e0s vezes torna t\u00e3o dif\u00edcil aceitar o \u201ccrescimento\u201d de que fala Greg\u00f3rio Magno \u00e9 a pouca aten\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 \u00e0 hist\u00f3ria do desenvolvimento da doutrina crist\u00e3 das origens a hoje, ou um conhecimento muito superficial e manual\u00edstico dela. Tal hist\u00f3ria demonstra, de fato, que esse crescimento sempre houve, como demonstrou em um famoso ensaio o Cardeal John Newman.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Revela\u00e7\u00e3o \u2013 Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o juntas \u2013 cresce conforme inst\u00e2ncias e provoca\u00e7\u00f5es lhe s\u00e3o postas no curso da hist\u00f3ria. Jesus prometeu aos ap\u00f3stolos que o Par\u00e1clito os teria guiado \u201ca toda a verdade\u201d (Jo 16,13), mas n\u00e3o precisou em quanto tempo: se em uma ou duas gera\u00e7\u00f5es, ou, ao inv\u00e9s \u2013 como tudo parece indicar \u2013, por todo o tempo que a Igreja for peregrina sobre a terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prega\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Batista nos oferece a ocasi\u00e3o para uma observa\u00e7\u00e3o atual e importante justamente a prop\u00f3sito deste \u201ccrescimento\u201d da palavra de Deus que o Esp\u00edrito Santo opera na hist\u00f3ria. A tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e teol\u00f3gica pegou dele sobretudo o grito: \u201cEis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!\u201d. A Liturgia nos reprop\u00f5e a cada Missa antes da comunh\u00e3o, depois que o povo cantou por tr\u00eas vezes: \u201cCordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na realidade, por\u00e9m, esta \u00e9 apenas metade da profecia do Batista sobre Cristo. Ele logo acrescenta, quase de um s\u00f3 f\u00f4lego, e em todos os quatro Evangelhos: \u201cEle vos batizar\u00e1 com o Esp\u00edrito Santo!\u201d (cf. Jo 1,33), e ainda: \u201cEle vos batizar\u00e1 com o Esp\u00edrito Santo e com fogo\u201d (Mt 3,11). A salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9, portanto, algo apenas de negativo, um \u201ctirar o pecado\u201d. \u00c9 sobretudo algo de positivo: \u00e9 um \u201cdar\u201d, um infundir: vida nova, vida do Esp\u00edrito. \u00c9 um renascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A destrui\u00e7\u00e3o do pecado parece a via e a condi\u00e7\u00e3o para o dom do Esp\u00edrito, que \u00e9 o objetivo \u00faltimo, o dom supremo. O cap\u00edtulo terceiro da Carta aos Romanos sobre a justifica\u00e7\u00e3o do \u00edmpio jamais deve ser desligado do cap\u00edtulo oitavo sobre o dom do Esp\u00edrito, com aquela mensagem libertadora que deveria ressoar mais frequentemente em nossa prega\u00e7\u00e3o: \u201cAgora, portanto, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 condena\u00e7\u00e3o para os que est\u00e3o em Cristo Jesus. Com efeito, a lei do Esp\u00edrito da vida, em Cristo Jesus, libertou-te da lei do pecado e da morte\u201d (Rm 8,1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo, este aspecto positivo jamais foi esquecido. Mas, talvez, nem sempre se insistiu o bastante sobre ele. Temos corrido o risco, na espiritualidade ocidental, de ver o cristianismo, sobretudo em chave \u201cnegativa\u201d, como a solu\u00e7\u00e3o do problema do pecado original; como algo, por isso, de sombrio e deprimente. Explica-se assim, ao menos em parte, a sua rejei\u00e7\u00e3o da parte de vastos setores da cultura, como aqueles representados por Nietzsche, na filosofia, e pelo dramaturgo noruegu\u00eas Ibsen, na literatura. A maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo e aos seus carismas que, h\u00e1 algum tempo, est\u00e1 em ato em todas as Igrejas crist\u00e3s, \u00e9 um exemplo concreto da Escritura que \u201ccresce com quem a l\u00ea\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os santos amam continuar, do c\u00e9u, a miss\u00e3o que desempenharam quando vivos sobre a terra. Santa Teresa do Menino Jesus \u2013 de quem recorre este ano o 150\u00ba anivers\u00e1rio do nascimento \u2013 p\u00f4s isso como uma esp\u00e9cie de condi\u00e7\u00e3o a Deus para ir ao c\u00e9u. S\u00e3o Jo\u00e3o Batista ama, tamb\u00e9m ele, ser ainda o precursor de Cristo, ama preparar-lhe os caminhos. Emprestemos-lhe a nossa voz!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contemplando, na\u00a0<i>Deesis,<\/i>\u00a0o \u00edcone do Precursor com as m\u00e3os estendidas para o Cristo e o olhar suplicante, a Igreja Ortodoxa lhe dirige esta ora\u00e7\u00e3o, que podemos fazer nossa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela m\u00e3o que tocou a cabe\u00e7a do Senhor e com a qual nos indicastes o Salvador, estendei-a agora, \u00f3 Batista, para ele em nosso favor, em virtude daquela seguran\u00e7a de que largamente gozas, pois, segundo o seu pr\u00f3prio testemunho, v\u00f3s fostes o maior de todos os profetas; dirigi a ele, \u00f3 Batista, os olhos que viram o Esp\u00edrito Santo descido em forma de pomba, para que ele nos manifeste a sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">___________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7ao de Fr. Ricardo Farias, OFMCap.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Jesus n\u00e3o espera que os pecadores mudem de vida para poder acolh\u00ea-los; mas os acolhe, e isso leva os pecadores a mudar de vida. Todos os quatro Evangelhos \u2013 Sin\u00f3ticos e Jo\u00e3o \u2013 s\u00e3o un\u00e2nimes nisso.&#8221; Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap \u201cVOZ DE QUEM CLAMA NO DESERTO\u201d Jo\u00e3o Batista, o moralista e o profeta Primeira [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":86048,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-86047","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86047"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":86050,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86047\/revisions\/86050"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/86048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}