{"id":85354,"date":"2023-11-09T11:00:33","date_gmt":"2023-11-09T14:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=85354"},"modified":"2023-11-10T11:01:39","modified_gmt":"2023-11-10T14:01:39","slug":"as-monjas-cistercienses-e-trapistas-ontem-e-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/as-monjas-cistercienses-e-trapistas-ontem-e-hoje\/","title":{"rendered":"As monjas cistercienses e trapistas ontem e hoje"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>As mulheres na vida mon\u00e1stica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o s\u00e9culo XII foi a era dos maiores m\u00edsticos cistercienses movidos por S\u00e3o Bernardo de Claraval (1090-1153), o s\u00e9culo XIII conheceu as grandes monjas m\u00edsticas cistercienses que tamb\u00e9m, de algum modo, nos deixaram amplas obras escritas. Aqui se encontram Gertrudes de Helfta, a Grande, Matilde de Hackborn, Matilde de Magdeburgo \u2013 todas com seus tratados m\u00edsticos monumentais \u2013 e Beatriz de Nazar\u00e9 com um escrito bem menor em tamanho, mas n\u00e3o em profundidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada pessoa tem seu m\u00e9todo de leitura ou de medita\u00e7\u00e3o. Cremos, no entanto, ser sempre mais \u00fatil iniciar por um panorama geral e, depois, com calma e ora\u00e7\u00e3o, passo a passo, ir mergulhando nos escritos pr\u00f3prios de cada m\u00edstica em quest\u00e3o. O pano de fundo hist\u00f3rico e tamb\u00e9m teol\u00f3gico-espiritual se fazem extremamente necess\u00e1rios para uma inter-rela\u00e7\u00e3o entre o geral e o particular e vice-versa. Neste ponto, partindo de bases firmes no entendimento dessas nossas m\u00edsticas, tomamos significativas passagens que duas monjas \u2013 uma cisterciense e uma trapista \u2013 nos apresentam. Encontram-se na oportuna obra de v\u00e1rios autores com o t\u00edtulo \u201cA mulher, a monja e a m\u00edstica cisterciense: o passado e o presente \u00e0 luz de quatro importantes Confer\u00eancias\u201d, publicada por Cultor de Livros, de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Logo de in\u00edcio, brota um s\u00e9rio questionamento: Que se entende por m\u00edstica? \u2013 O <em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, de modo objetivo, ensina que \u201co progresso espiritual tende \u00e0 uni\u00e3o sempre mais \u00edntima com Cristo. Esta uni\u00e3o recebe o nome de \u2018m\u00edstica\u2019, pois ela participa no mist\u00e9rio de Cristo pelos sacramentos \u2013 \u2018os santos mist\u00e9rios\u2019 \u2013 e, nele, no mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade, Deus nos chama a todos a essa \u00edntima uni\u00e3o com Ele, mesmo que gra\u00e7as especiais ou sinais extraordin\u00e1rios desta vida m\u00edstica sejam concedidos apenas a alguns, em vista de manifestar o dom gratuito a todos\u201d (n. 2014). A ess\u00eancia da m\u00edstica \u00e9, portanto, a <em>\u00edntima uni\u00e3o com Deus<\/em> (cf. Gl 2,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirmamos isso, porque, de acordo com Dom Bernardo de Oliveira, OCSO, antigo abade geral trapista, \u00e9 certo que \u201ca experi\u00eancia m\u00edstica da vida crist\u00e3 ocupa um lugar central na tradi\u00e7\u00e3o cisterciense. Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente que n\u00e3o precisa demonstra\u00e7\u00e3o. Os primeiros cistercienses (s\u00e9culo XII) trataram de viver na presen\u00e7a de Deus e em comunh\u00e3o com Ele. Esta declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es guarda, hoje, todo seu valor. Nas Constitui\u00e7\u00f5es podemos ler: \u2018Nossa Ordem \u00e9 um Instituto mon\u00e1stico integralmente ordenado \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o\u2019 (<em>Cst<\/em>. 2). Para alguns, \u00e9 seguida de sinais extraordin\u00e1rios (\u00eaxtase, matrim\u00f4nio m\u00edstico, etc.) como dom gratuito de Deus. N\u00e3o s\u00e3o incitados pela criatura, por isso os chamamos de <em>gratia<\/em> <em>gratis data<\/em> (<em>gra\u00e7a dada de gra\u00e7a<\/em>). Nossas m\u00edsticas, em maior ou menor grau, os vivenciaram com a humildade pr\u00f3pria dos santos na vida consagrada de suas respectivas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ir. Marina Medina, O. Cist., escreve que \u201cO melhor modelo no qual se pode fundamentar a vida das consagradas \u00e9 Maria, a mulher por excel\u00eancia, que, vivendo a sua condi\u00e7\u00e3o de mulher, se entregou por inteira ao plano de Deus a seu respeito, confiando, totalmente. A mulher que permanecendo virgem, segundo o projeto de Deus, se torna a mais fecunda de todas as mulheres. A Virgem Maria, M\u00e3e de Deus e M\u00e3e dos homens. H\u00e1 uma fecundidade maior?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cToda mulher, em virtude do seu ser, tem uma miss\u00e3o especial; portadora de ternura, \u00e9 o rosto mais humano de Deus e de Sua Presen\u00e7a no mundo. Quando a mulher decide se doar, sabe entregar-se plenamente a Deus e, por Ele, aos seres humanos. Portadora e transmissora de vida, a feminilidade se faz mais viva e se realiza mais plenamente na mulher consagrada que deve levar, a um mundo no qual impera a morte, a vida nova que Deus nos deu em Seu Filho Jesus Cristo. \u2018A for\u00e7a moral da mulher, sua for\u00e7a espiritual se une com a consci\u00eancia de que Deus lhe confia de modo especial ao homem, ao ser humano. precisamente devido \u00e0 sua feminilidade. Nossos dias acolhem \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o da \u2018genialidade\u2019 da mulher que assegura a sensibilidade pelo humano em cada circunst\u00e2ncia: pelo fato de que \u00e9 humano\u201d (p. 15-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Citando o Papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, na <em>Vita Consecrata<\/em> n. 58, Ir. Marina finaliza o seu artigo assim: \u201cH\u00e1 motivos para esperar que um reconhecimento mais fundo da miss\u00e3o da mulher provocar\u00e1 cada vez mais na vida consagrada feminina uma maior consci\u00eancia do pr\u00f3prio papel e uma crescente dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 causa do Reino de Deus. Isso poder\u00e1 traduzir-se em numerosas atividades, como o compromisso pela evangeliza\u00e7\u00e3o, a miss\u00e3o educativa, a participa\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o dos futuros sacerdotes e das pessoas consagradas, \u00e0 anima\u00e7\u00e3o das comunidades crist\u00e3s, o acompanhamento espiritual e a promo\u00e7\u00e3o dos bens fundamentais da vida e da paz. Reitero, uma vez mais, \u00e0s mulheres consagradas e \u00e0 sua extraordin\u00e1ria capacidade de entrega, a admira\u00e7\u00e3o e o reconhecimento de toda a Igreja, que as sust\u00e9m para que vivam em plenitude e com alegria sua voca\u00e7\u00e3o, e se sintam interpeladas pela insigne tarefa de ajudar a formar a mulher de hoje\u201d (p. 22). O Papa Francisco tem levado, de modo corajoso, adiante esse santo prop\u00f3sito. Que no ramo feminino das grandes Ordens irm\u00e3s, cisterciense e trapista, essas palavras encontrem eco favor\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra monja, Ir. Ros\u00e1ria Spreafico, OCSO, nos demonstra como as duas Ordens, no \u00e2mbito feminino, t\u00eam procurado responder aos desafios pr\u00f3prios do nosso tempo. S\u00e3o suas palavras: \u201cAs abadessas t\u00eam sentido as exig\u00eancias de uma verdadeira renova\u00e7\u00e3o espiritual que v\u00e1 al\u00e9m da adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s novas estruturas. \u00c9 a experi\u00eancia disso que tem sido testemunhada em minha comunidade. Onde se colocava bem mais aten\u00e7\u00e3o era, sobretudo, nas dimens\u00f5es mais profundas. Por exemplo, tratava-se de acolher e integrar as novas gera\u00e7\u00f5es com as exig\u00eancias e os desafios que traziam consigo; isso nos levou a redescobrir a import\u00e2ncia de escutar as pessoas, a interioriza\u00e7\u00e3o pessoal e tamb\u00e9m as dimens\u00f5es comunit\u00e1rias da ascese da amizade, da colabora\u00e7\u00e3o, do di\u00e1logo; valorizaram-se tamb\u00e9m, de forma renovada, a tradi\u00e7\u00e3o e a dimens\u00e3o eclesial da vida mon\u00e1stica; concede-se mais interesse \u00e0 qualidade efetiva da vida comunit\u00e1ria do que \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o das formas concretas, sem, contudo, descuid\u00e1-las. Pensemos, por exemplo, nas transforma\u00e7\u00f5es de mentalidade que levam consigo um reequil\u00edbrio do trabalho comunit\u00e1rio, transforma\u00e7\u00f5es nos locut\u00f3rios, nas sa\u00eddas por exig\u00eancias de trabalho, sa\u00fade ou estudo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO esfor\u00e7o das comunidades femininas para melhorar a qualidade da forma\u00e7\u00e3o tem sido important\u00edssimo. \u00c0s vezes, favorecendo certas especializa\u00e7\u00f5es, organizando sess\u00f5es de estudo para as formadoras etc.; no que diz respeito tamb\u00e9m \u00e0 reforma lit\u00fargica, todos os mosteiros femininos t\u00eam se consagrado a ela com entusiasmo e colocado a servi\u00e7o da renova\u00e7\u00e3o seus dons de criatividade, colaborando com as comunidades masculinas. Ainda: n\u00e3o devemos nos esquecer do esfor\u00e7o feito pelas monjas para conseguir, gra\u00e7as a um trabalho ass\u00edduo, a autonomia econ\u00f4mica, em benef\u00edcio do sentido da responsabilidade, da colabora\u00e7\u00e3o e do esp\u00edrito empreendedor\u201d (p. 57-58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, portanto, n\u00e3o de mera renova\u00e7\u00e3o acidental ou cosm\u00e9tica \u2013 por isso mesmo, est\u00e9ril em frutos \u2013, mas de algo profundo que, sem perder o contato exigido e exigente com a tradi\u00e7\u00e3o ou com as fontes primitivas cistercienses, saiba n\u00e3o ser, de modo algum, anacr\u00f4nica. Neste ponto, as monjas cistercienses da estrita observ\u00e2ncia nos t\u00eam legado bom exemplo e, mesmo em meio a uma crise quase geral de voca\u00e7\u00f5es em diversos pa\u00edses, v\u00eam promovendo funda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conseguem essa fecundidade fundacional? \u00c9 mesma Ir. Ros\u00e1ria quem nos explica: \u201cDesde 1970, se realizaram 21 funda\u00e7\u00f5es e uma incorpora\u00e7\u00e3o. Parece-me que nossa forma de realizar funda\u00e7\u00f5es, a n\u00f3s monjas, tem sido concreta e comunit\u00e1ria. S\u00e3o raras as funda\u00e7\u00f5es experimentais ou realizadas sem conformar-se ao Estatuto das Funda\u00e7\u00f5es. Temos nos preocupado, sobretudo, na forma\u00e7\u00e3o de um grupo de fundadoras antes da partida, da realiza\u00e7\u00e3o de um marco de vida, verdadeiramente, mon\u00e1stico, desde o momento da instala\u00e7\u00e3o, da autenticidade da vida monacal, concretamente, vivida (com uma aten\u00e7\u00e3o particular \u00e0 liturgia e \u00e0 vida comunit\u00e1ria). Sem entrar, em demasia, nos detalhes, a frequente presen\u00e7a de funda\u00e7\u00f5es de monjas tem estimulado tamb\u00e9m os monges nas funda\u00e7\u00f5es que eles haviam empreendido nas proximidades; isso quando as monjas n\u00e3o estavam ligadas \u00e0 escolha que eles tinham feito, mas, sim, permaneciam atentas \u00e0 sua pr\u00f3pria sensibilidade e \u00e0s exig\u00eancias de sua comunidade nascente. Tamb\u00e9m poder\u00edamos dar exemplos das rela\u00e7\u00f5es com a casa m\u00e3e, integra\u00e7\u00e3o de voca\u00e7\u00f5es locais, estilo de vida etc.\u201d (p. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado, todavia, se d\u00e1 \u201csomente quando nos unimos umas \u00e0s outras, quando nos deixamos configurar pela comunidade, quando aderimos \u00e0 maternidade, quando somos capazes de acolher a vida para transmiti-la no momento que nos corresponda. Aqui est\u00e3o alguns dos aspectos testemunhais que temos sido chamadas a dar por meio dessa reciprocidade:\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c- Testemunho do valor da \u201cestabilidade\u201d de uma perten\u00e7a total e definitiva capaz de risco, esperan\u00e7a, ajuda afetuosa e maternal, respeito \u00e0s jovens que procedem de um mundo no qual a idolatria de tudo o que \u00e9 instintivo, tem como consequ\u00eancia o fugir de toda responsabilidade, parece estar infiltrada em todos os dom\u00ednios\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c- Testemunho de um sentido maternal vivendo o \u201ctrabalho\u201d com um sentimento de gratuidade, de doa\u00e7\u00e3o efetiva de si, um esfor\u00e7o de ren\u00fancia, de servi\u00e7o. \u00c9 ele um ant\u00eddoto mais seguro contra a l\u00f3gica do poder e a do rendimento, t\u00e3o caracter\u00edsticos de nossas sociedades industriais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c- Em conformidade com a doutrina do Vaticano II, \u00e9 de grande import\u00e2ncia para n\u00f3s, fazer um esfor\u00e7o a fim de aprofundar na \u201cdoutrina de nossas Madres cistercienses\u201d, para ir adquirindo sua mentalidade, para considerar o mist\u00e9rio do homem e da Igreja mon\u00e1stica. N\u00e3o se trata somente de estudar este ou aquele ponto preciso, mas tamb\u00e9m de aprender um m\u00e9todo de aproxima\u00e7\u00e3o ao real que nos abra ao amor de Cristo e ao amor das pessoas da comunidade. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio formar nossas jovens em uma <em>lectio<\/em> de textos patr\u00edsticos que lhes fa\u00e7a tomar consci\u00eancia de suas ra\u00edzes, da heran\u00e7a que lhes \u00e9 transmitida, e de sua responsabilidade a respeito do momento hist\u00f3rico em que vivem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c- Introduzir nossas jovens na experi\u00eancia do mist\u00e9rio que a \u201cliturgia\u201d nos envolve. Frente ao despertar de todas as formas de religiosidade que s\u00f3 apontam para satisfazer a necessidade individual de emo\u00e7\u00e3o espiritual, o <em>Opus Dei<\/em> (Of\u00edcio Divino) se apresenta como o lugar onde o mist\u00e9rio se comunica, se celebra, onde nos convertemos em servidoras por meio de nosso louvor, nossa ora\u00e7\u00e3o, nossa oferenda\u201d (p. 64-65).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Possa este artigo, em um tempo no qual as mulheres t\u00eam, cada vez mais, sido chamadas a uma maior participa\u00e7\u00e3o na vida da Igreja, despertar reflex\u00f5es e o desejo santo de, a exemplo da Virgem Maria, e das grandes m\u00edsticas das Ordens cisterciense e trapista (recordemo-nos da Beata Gabriela Sagheddu), dizerem, tamb\u00e9m elas, um generoso \u201cSim\u201d a Deus em um dos quatro mosteiros femininos do Brasil, o trapista, em Santa Catarina, e os tr\u00eas cistercienses: em S\u00e3o Paulo, no Paran\u00e1 e Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres na vida mon\u00e1stica Se o s\u00e9culo XII foi a era dos maiores m\u00edsticos cistercienses movidos por S\u00e3o Bernardo de Claraval (1090-1153), o s\u00e9culo XIII conheceu as grandes monjas m\u00edsticas cistercienses que tamb\u00e9m, de algum modo, nos deixaram amplas obras escritas. 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