{"id":80382,"date":"2023-03-28T09:51:31","date_gmt":"2023-03-28T12:51:31","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=80382"},"modified":"2023-03-28T13:52:59","modified_gmt":"2023-03-28T16:52:59","slug":"santa-clara-a-religiosa-que-derrota-o-poder-com-a-pobreza-e-a-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/santa-clara-a-religiosa-que-derrota-o-poder-com-a-pobreza-e-a-consciencia\/","title":{"rendered":"Santa Clara: a religiosa que derrota o poder com a pobreza e a consci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<figure class=\"article__image\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"didascalia_img\">Imagem de Santa Clara que ressurgiu depois que a parte da parede que a cobria desmoronou, na cidade italiana de Antrodoco, perto de Rieti, onde havia um convento dedicado a Santa Clara\u00a0<\/span><\/figure>\n<div class=\"article__meta \" data-mediatype=\"\">\n<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">A Regra de Clara de Assis \u00e9 a primeira na hist\u00f3ria da Igreja escrita por uma mulher para as mulheres. As Irm\u00e3s da Federa\u00e7\u00e3o de Santa Clara de Assis das Clarissas das regi\u00f5es italianas da \u00dambria e da Sardenha reprop\u00f5em a vis\u00e3o da Madre Clara sobre o direito de n\u00e3o possuir nada e o dever de obedecer somente a Deus e \u00e0 consci\u00eancia.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Chiara Graziani<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O direito de nada possuir. O dever de obedecer apenas a Deus e \u00e0 consci\u00eancia, fazendo discernimento sobre as ordens da autoridade. Al\u00e9m disso, a greve de fome como instrumento pac\u00edfico de fidelidade a Deus e \u00e0 consci\u00eancia, colocando no meio o pr\u00f3prio corpo inerte, como um obst\u00e1culo, sem se preocupar com a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Madre Clara de Assis fala ainda hoje com voz evidente, atual\u00edssima. A sua Regra \u2014 a primeira na hist\u00f3ria da Igreja escrita por uma mulher para as mulheres \u2013 \u00e9 a das suas escolhas de vida revolucion\u00e1rias que falam diretamente \u00e0s mulheres e aos homens de hoje. Desobedecer a uma ordem que viola a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com Deus, diz por exemplo a Regra pela qual Clara lutou h\u00e1 oito s\u00e9culos, \u00e9 um dever, n\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o. Um princ\u00edpio afirmado na regra clariana de 1258 que, contudo, por vontade do Papa, estava destinada a n\u00e3o ir al\u00e9m do c\u00edrculo de mulheres que chamavam Clara \u201cmadre\u201d no mosteiro de S\u00e3o Dami\u00e3o. E assim foi historicamente. Na Regra de Clara l\u00ea-se: \u00abAs irm\u00e3s s\u00faditas, (&#8230;) sejam firmemente obrigadas a obedecer \u00e0s suas abadessas em tudo o que prometeram ao Senhor de observar e isso n\u00e3o seja contr\u00e1rio \u00e0 alma e \u00e0 nossa profiss\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">A pobreza franciscana e a obedi\u00eancia a Deus<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palavras inauditas para a \u00e9poca, o contexto, a mat\u00e9ria, e por serem escritas por uma mulher: h\u00e1 800 anos, um sujeito sob tutela patriarcal desde o ber\u00e7o at\u00e9 \u00e0 sepultura, \u00faltima entre os \u00faltimos, j\u00e1 defendia profeticamente o dever de desobedecer a quem quer que lhe ordenasse de fazer o mal. Fosse at\u00e9 a autoridade. Ela argumentava, de facto, que isto deveria ser chamado obedi\u00eancia a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica dessas palavras extraordinariamente atuais foi recentemente dada pelas irm\u00e3s da Federa\u00e7\u00e3o de Santa Clara de Assis das Clarissas da Umbria e Sardenha; como coletivo, de facto, produziram e assinaram um estudo em tr\u00eas volumes sobre a mulher a que tamb\u00e9m hoje chamam madre (Chiara D\u2019Assisi, edi\u00e7\u00f5es Messaggero Padova, reimpressa em 2018). Come\u00e7aram a obra para voltar a ouvir a palavra e o carisma de Clara e viram-se confrontadas com uma Regra que redescobriram viva como um desafio. Viver a \u201calt\u00edssima pobreza\u201d franciscana em fidelidade ao Evangelho est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o. No s\u00e9culo XIII, esta pretens\u00e3o \u00e0 liberdade total parecia absurda, quase escandalosa. E \u00e9 isto que o estudo do coletivo clariano colhe hoje.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O estudo italiano sobre &#8216;Chiara D&#8217;Assisi<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab\u00c9 impl\u00edcito \u2014 l\u00ea-se sobre a obedi\u00eancia no volume intitulado \u201cO Evangelho como Forma de Vida\u201d \u2014 que no caso o comando saia dos \u00e2mbitos leg\u00edtimos se possa e se deva desobedecer: a desobedi\u00eancia a um comando ileg\u00edtimo ou injusto \u00e9 obedi\u00eancia \u00e0 verdade e ao valor que o comando deveria ter mediado e n\u00e3o mediou\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por conseguinte, a vida que hoje volta a tomar forma a partir da pesquisa hist\u00f3rica e documental das Clarissas n\u00e3o \u00e9 a de uma mulher que fez uma escolha de mortifica\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o e ren\u00fancia ao mundo na expetativa de terras ultramundanas. A sua escolha que nos transmite hoje foi, pelo contr\u00e1rio, a de uma lutadora no mundo, at\u00e9 na clausura. Uma escolha de amor integral tamb\u00e9m requer luta para conservar o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Clara ensinou, e ensina-nos, que a arma mais afiada do lutador \u00e9 o direito de nada possuir. Clara lutou durante muito tempo para que o privil\u00e9gio da pobreza (privilegium paupertatis) se tornasse um direito. Sobretudo, lutou para que fosse o escudo daqueles que queriam seguir o estilo de vida franciscana. Obteve o seu reconhecimento formal em 1228 quando o Papa Greg\u00f3rio IX escreveu \u00e0s religiosas de S\u00e3o Dami\u00e3o: \u00abRefor\u00e7amos (&#8230;) o vosso prop\u00f3sito de alt\u00edssima pobreza, concedendo-vos que n\u00e3o podeis ser obrigadas por ningu\u00e9m a receber posses\u00bb (Sicut Manifestum Est, Per\u00fasia, 17 de setembro de 1228).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O combatente, explicou Clara \u00e0 Princesa Agnes da Bo\u00e9mia, deve estar nu a fim de n\u00e3o oferecer bases de apoio ao advers\u00e1rio. O privil\u00e9gio da pobreza permite que se deslize pelas m\u00e3os do inimigo, por quanta viol\u00eancia possa exercer. N\u00e3o h\u00e1 nada de submisso nesta imagem. H\u00e1 for\u00e7a, determina\u00e7\u00e3o. At\u00e9 firmeza.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O privil\u00e9gio da pobreza<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda hoje, o direito de nada possuir questiona-nos. A posse, na civiliza\u00e7\u00e3o do consumo compulsivo, \u00e9 a nova \u201cvirtude\u201d social e uma fonte de escravid\u00e3o. Clara, a quem as pobres irm\u00e3s de hoje voltam a dar voz, diz que a posse n\u00e3o \u00e9 uma virtude. Nem sequer a obedi\u00eancia, se pretender fazer viol\u00eancia \u00e0 consci\u00eancia livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se se quisesse outra prova da completa contemporaneidade de Clara, devemos recordar outra das suas inven\u00e7\u00f5es de lutadora. Corria o ano de 1230. Uma bula papal, a Quo elongati, separava efetivamente Clara e a comunidade de S\u00e3o Dami\u00e3o dos cuidados espirituais dos frades menores de Francisco. Clara, ent\u00e3o, enviou de volta os frades que trouxeram a comida para as \u201cpobres reclusas\u201d em clausura. E ningu\u00e9m, privil\u00e9gio da pobreza \u00e0 m\u00e3o, poderia desafiar a sua desobedi\u00eancia, negando-lhe o direito de protestar. Foi uma greve de fome das mulheres e uma greve por amor. Venceram as pequenas irm\u00e3s pobres (e reclusas) de S\u00e3o Dami\u00e3o. Indom\u00e1veis na obedi\u00eancia a Deus semearam, como reclusas, tamb\u00e9m o nosso futuro.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem de Santa Clara que ressurgiu depois que a parte da parede que a cobria desmoronou, na cidade italiana de Antrodoco, perto de Rieti, onde havia um convento dedicado a Santa Clara\u00a0 A Regra de Clara de Assis \u00e9 a primeira na hist\u00f3ria da Igreja escrita por uma mulher para as mulheres. As Irm\u00e3s da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":80383,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-80382","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80382"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80384,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80382\/revisions\/80384"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}