{"id":80124,"date":"2023-03-20T10:05:37","date_gmt":"2023-03-20T13:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=80124"},"modified":"2023-03-20T13:06:39","modified_gmt":"2023-03-20T16:06:39","slug":"iraque-filoni-ninguem-ouviu-o-apelo-de-joao-paulo-ii-contra-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/iraque-filoni-ninguem-ouviu-o-apelo-de-joao-paulo-ii-contra-a-guerra\/","title":{"rendered":"Iraque, Filoni: ningu\u00e9m ouviu o apelo de Jo\u00e3o Paulo II contra a guerra"},"content":{"rendered":"<figure class=\"article__image\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"didascalia_img\">H\u00e1 vinte anos, a invas\u00e3o do Iraque\u00a0<\/span><\/figure>\n<div class=\"article__meta \" data-mediatype=\"\">\n<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">O cardeal, na \u00e9poca da invas\u00e3o dos Estados Unidos n\u00fancio apost\u00f3lico, recorda esse per\u00edodo dram\u00e1tico: &#8220;reinava a anarquia, foi um tempo de morte e destrui\u00e7\u00e3o. O Isis, a consequ\u00eancia de problemas que nunca foram resolvidos&#8221;. A viagem de Francisco em 2021: &#8220;ele abriu portas e mostrou que o di\u00e1logo \u00e9 poss\u00edvel&#8221;.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Marie Duhamel &#8211; Vatican News<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nunca a guerra pode ser considerada um meio como qualquer outro, a ser usado para resolver disputas entre na\u00e7\u00f5es&#8221;. Era 13 de janeiro de 2003 quando Jo\u00e3o Paulo II, em um discurso ao corpo diplom\u00e1tico acreditado junto \u00e0 Santa S\u00e9, lan\u00e7ava seu apelo para afastar a amea\u00e7a de guerra que mais tarde se abateria sobre o povo do Iraque. Wojtyla exortava a n\u00e3o negligenciar as consequ\u00eancias que um conflito acarretaria &#8220;durante e ap\u00f3s as opera\u00e7\u00f5es militares&#8221;. Este apelo tamb\u00e9m foi reiterado no Angelus de 16 de mar\u00e7o de 2003, quando &#8220;diante das tremendas consequ\u00eancias que uma opera\u00e7\u00e3o militar internacional teria para os povos do Iraque e para o equil\u00edbrio de toda a regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio, j\u00e1 t\u00e3o sofrida, bem como para os extremismos que poderiam surgir&#8221;, disse ao mundo: &#8220;Ainda h\u00e1 tempo para negociar; ainda h\u00e1 espa\u00e7o para a paz; nunca \u00e9 tarde demais para nos entendermos uns aos outros e continuarmos a negociar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A principal raz\u00e3o do ataque foi o medo de que Bagd\u00e1 pudesse construir ou j\u00e1 possuir armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa. Esta hip\u00f3tese foi posteriormente desmentida pelas investiga\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-guerra. O secret\u00e1rio de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, admitiu mais tarde que as fontes de intelig\u00eancia estavam erradas. &#8220;O Papa tinha falado e ningu\u00e9m o tinha ouvido&#8221;, lembra hoje o cardeal Fernando Filoni, n\u00fancio apost\u00f3lico em Bagd\u00e1 na \u00e9poca. Com a m\u00eddia do Vaticano, o cardeal recorda, depois de vinte anos, aquele momento dram\u00e1tico da hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Emin\u00eancia, em 20 de mar\u00e7o de 2003, os Estados Unidos lan\u00e7aram esta interven\u00e7\u00e3o militar no Iraque. O senhor j\u00e1 estava ali h\u00e1 meses e viu a guerra chegar. Como vivenciou isto? Qual era a realidade deste conflito?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>O sentimento de todos n\u00f3s que est\u00e1vamos no Iraque era de uma certa fatalidade, que n\u00e3o pod\u00edamos fazer nada al\u00e9m de sentir acima de n\u00f3s decis\u00f5es que desencadeariam a guerra e da qual \u00e9ramos meramente v\u00edtimas. Tivemos que sofrer isso! Esta era a percep\u00e7\u00e3o das pessoas que eu conheci. Todos estavam esperando o que ia acontecer. Ningu\u00e9m podia saber como seria a guerra, os bombardeios, os combates, o que aconteceria&#8230; As pessoas tinham armazenado arroz, p\u00e3o, mas ningu\u00e9m sabia exatamente como iria acontecer e como as pessoas seriam capazes de lidar com os bombardeios que n\u00e3o sab\u00edamos nem onde, nem como, nem quando aconteceriam.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Portanto, n\u00e3o havia mais esperan\u00e7a de paz &#8230;<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Todas as possibilidades tinham terminado. O Papa tinha falado e ningu\u00e9m o tinha escutado, as Na\u00e7\u00f5es Unidas tinham se pronunciado a favor da guerra, na Europa havia v\u00e1rias opini\u00f5es sobre a guerra, mas a determina\u00e7\u00e3o tinha sido concordada alguns dias antes nos A\u00e7ores entre o presidente Bush e o primeiro-ministro Aznar e depois Blair, o primeiro-ministro brit\u00e2nico, que tinham decidido como e quando atacar. Aqui, n\u00f3s \u00e9ramos apenas v\u00edtimas desta realidade. Por parte da lideran\u00e7a iraquiana, havia uma vontade. Pelo menos eles sempre me haviam expressado que estavam dispostos a dialogar. Mas eles s\u00f3 pediram uma coisa: n\u00e3o humilhe os l\u00edderes, ent\u00e3o podemos negociar sobre tudo. Nem mesmo isto foi aceito&#8230;<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Somente se esperava pelo in\u00edcio da guerra&#8230;<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Sim, vivemos com a fatal expectativa do primeiro bombardeio que chegou entre a noite de 19 e 20 de mar\u00e7o e atingiu os edif\u00edcios do governo, atingindo tamb\u00e9m os centros de comunica\u00e7\u00e3o. Os telefones foram imediatamente desligados, n\u00e3o havia mais nenhuma possibilidade de comunica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a invas\u00e3o tamb\u00e9m come\u00e7ou no sul do Kuwait onde, sim, as tropas de Saddam foram destacadas, mas a preponder\u00e2ncia da a\u00e7\u00e3o militar dominou todas as defesas alineadas.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Como n\u00fancio, o senhor escolheu ficar para acompanhar o povo. Por que esta escolha e como p\u00f4de acompanhar o povo?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>N\u00f3s, como servi\u00e7o diplom\u00e1tico da Santa S\u00e9, estamos nos diferentes lugares pela paz, para garantir a liberdade da Igreja, para estar perto de nossos crist\u00e3os, para mostrar a solidariedade do Papa com todas essas Igrejas, sejam elas minorias ou maiorias. O N\u00fancio est\u00e1 l\u00e1 para representar o Santo Padre. Jo\u00e3o Paulo II tinha mostrado repetidamente sua proximidade ao povo iraquiano. Apesar do que foi dito em muitos pa\u00edses, n\u00e3o \u00e9 verdade que todos eram contra o Iraque, a Igreja era contra a guerra e a favor do povo iraquiano. Sobre outras quest\u00f5es, podia-se discutir.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O senhor ficou, ent\u00e3o, por solidariedade &#8230;<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Sim, n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1 para mostrar essa solidariedade. E posso dizer que n\u00e3o s\u00f3 o n\u00fancio, mas nenhum sacerdote, nenhum bispo, nenhum religioso ou religiosa partiu: todos ficaram. Muitas fam\u00edlias que podiam se distanciaram de Bagd\u00e1, algumas procuraram sa\u00eddas, mas isto \u00e9 compreens\u00edvel quando h\u00e1 crian\u00e7as e idosos. Mas o povo tamb\u00e9m permaneceu, o \u00eaxodo dos crist\u00e3os come\u00e7ou mais tarde. Portanto, foi necess\u00e1rio tamb\u00e9m que o n\u00fancio, que representa o Santo Padre, ficasse com os crist\u00e3os, os sacerdotes, os bispos. Isto sempre foi muito apreciado tanto pelo povo iraquiano quanto pelas autoridades.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Autoridades que, ap\u00f3s alguns meses, perderam o poder. Vimos a queda de Saddam Hussein. Depois, houve anos muito dif\u00edceis com um confronto entre xiitas e sunitas e a dificuldade de encontrar um poder est\u00e1vel&#8230;.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Saddam Hussein era um sunita e a minoria isl\u00e2mica sunita &#8211; uma minoria consider\u00e1vel &#8211; de fato detinha o poder. Os xiitas n\u00e3o, de fato eles tinham sido conculcados especialmente no Centro-Sul. Assim, no momento em que o regime de Saddam caiu, a primeira coisa foi que os xiitas tomaram o poder. Assim, entre os aliados que estavam avan\u00e7ando e derrubando o poder do regime e os outros que n\u00e3o sabiam como reagiriam, reinava a anarquia. Todos os dias havia ataques, n\u00e3o militares, mas por aqueles que procuravam tomar o poder ou de outra forma se aproveitavam para roubar. Era uma \u00e9poca de grandes inc\u00eandios, de v\u00edtimas: s\u00f3 porque algu\u00e9m passava com um carro, eles o roubavam&#8230;.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Havia o caos, ningu\u00e9m sabia quem estava no comando, tinham desaparecidos os militares, os vigilantes, n\u00e3o havia autoridade de nenhum tipo para controlar. Todos se lembram da pilhagem dos minist\u00e9rios, exceto aquele que foi imediatamente presidiado: o minist\u00e9rio do petr\u00f3leo. Lembro-me bem como uma das coisas mais terr\u00edveis foi o saque dos museus, onde milhares de obras de arte desapareceram. At\u00e9 os soldados estadunidenses as levaram e, de fato, foram encontradas mais tarde em suas mochilas. A queima da enorme Biblioteca de Bagd\u00e1 tamb\u00e9m foi terr\u00edvel. Durante 2-3 dias, choveram cinzas sobre a cidade. Foi um caos inaceit\u00e1vel: atingir at\u00e9 mesmo as bibliotecas foi atingir a hist\u00f3ria, a vida de um povo, al\u00e9m do fato de que toda a humanidade est\u00e1 privada de bens de valor incalcul\u00e1vel.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Que consequ\u00eancias esse per\u00edodo de guerra teve sobre o rosto da Igreja e como essas consequ\u00eancias se refletem na Igreja de hoje?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A Igreja sofreu&#8230; Foi a primeira a ter muitos m\u00e1rtires, muitos assassinatos, explos\u00f5es dentro ou em frente \u00e0s igrejas. Nossos fi\u00e9is estiveram entre os primeiros a serem atingidos. Muitos bens foram perdidos porque, como havia anarquia, muitos lares de cat\u00f3licos e crist\u00e3os foram ocupados. Tudo isso naturalmente afetou as perspectivas futuras: que tipo de regime existiria? Que tipo de governo poderia ser estabelecido? Fundado sobre que tipo de lei, tendo em vista que muitas haviam sido revogadas? Refiro-me \u00e0quelas sobre liberdade religiosa, direitos civis, o direito de cada cidad\u00e3o de viver em seu pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Mesmo quando era feita uma tentativa de impor uma lei, ela n\u00e3o era respeitada, os ataques eram cont\u00ednuos. Isto se prolongou por anos. O Isis foi a consequ\u00eancia da anarquia, de problemas que n\u00e3o tinham sido resolvidos, de uma defesa indefinida. Tudo isso deu origem ao surgimento de quadrilhas e grupos que colocaram em crise a popula\u00e7\u00e3o. Toda a popula\u00e7\u00e3o, mas particularmente os crist\u00e3os que, na \u00e1rea do norte do Iraque, na plan\u00edcie de N\u00ednive, nos vilarejos do Curdist\u00e3o, se tornaram objeto de uma ca\u00e7a implac\u00e1vel junto com outras minorias da regi\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Em 2015 o senhor foi enviado pelo Papa Francisco ao Iraque para expressar sua proximidade. Depois houve a viagem do Papa. Como foi percebida a Igreja?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A percep\u00e7\u00e3o das autoridades, mas tamb\u00e9m das pessoas comuns, era de grande respeito pela Igreja Cat\u00f3lica. N\u00e3o havia essa percep\u00e7\u00e3o antes, nunca se falou da Igreja Cat\u00f3lica, os jornais, as esta\u00e7\u00f5es de televis\u00e3o nunca disseram nada. Lembro que as pessoas ficaram espantadas quando pela primeira vez, ap\u00f3s a queda de Saddam, puderam comprar aparelhos de TV que antes eram imposs\u00edveis de ter &#8211; milh\u00f5es de antenas parab\u00f3licas estavam chegando em enormes caminh\u00f5es &#8211; e as pessoas puderam perceber que h\u00e1 um mundo l\u00e1 fora e uma das coisas que descobriram no per\u00edodo em que morreu Jo\u00e3o Paulo II, foram estas enormes filas de fi\u00e9is que vinham para rezar. E as pessoas no Iraque disseram: &#8220;Mas como? Sempre nos disseram que eram incr\u00e9dulos e como \u00e9 que estas pessoas rezam?&#8221;.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Era a primeira vez que eles tiveram um impacto com uma realidade diferente da que lhes havia sido descrita. E isto permaneceu, ou seja, o fato de que a Igreja basicamente defendeu o povo iraquiano. Sempre, mesmo durante o regime. N\u00e3o foi uma defesa contra Saddam Hussein, mas uma defesa do povo, do direito de um povo a ter sua liberdade, sua dignidade, sua express\u00e3o de f\u00e9. Isto tamb\u00e9m continuou com as a\u00e7\u00f5es posteriores do Papa: quando ele me enviou em solidariedade \u00e0s centenas de milhares de crist\u00e3os que haviam fugido da Plan\u00edcie de N\u00ednive, foi percebido como um sinal da proximidade do Papa e da Igreja. Foi muito importante porque a percep\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o antes era a de um infiel, ao inv\u00e9s disso os crist\u00e3os eram os \u00fanicos que demonstravam grande proximidade, n\u00e3o s\u00f3 moral, mas tamb\u00e9m econ\u00f4mica, com o apoio da C\u00e1ritas e outras ajudas.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Ent\u00e3o, como foi vivida a viagem do Papa Francisco ao Iraque?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>A visita do Papa foi uma resposta ao desejo de Jo\u00e3o Paulo II em 2000 de ir ao Iraque para o Ano Santo. Um desejo que lhe havia sido negado. Isto completou uma expectativa e abriu portas, come\u00e7ando com o fato de que o Papa se engajou no di\u00e1logo com o mundo sunita e tamb\u00e9m com o mundo xiita, e ao se encontrar com Al-Sistani, mostrou que o di\u00e1logo \u00e9 poss\u00edvel. Estas s\u00e3o portas que foram abertas e o in\u00edcio de um longo caminho.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 vinte anos, a invas\u00e3o do Iraque\u00a0 O cardeal, na \u00e9poca da invas\u00e3o dos Estados Unidos n\u00fancio apost\u00f3lico, recorda esse per\u00edodo dram\u00e1tico: &#8220;reinava a anarquia, foi um tempo de morte e destrui\u00e7\u00e3o. O Isis, a consequ\u00eancia de problemas que nunca foram resolvidos&#8221;. 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