{"id":79121,"date":"2023-02-01T09:13:50","date_gmt":"2023-02-01T12:13:50","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=79121"},"modified":"2023-02-01T15:25:11","modified_gmt":"2023-02-01T18:25:11","slug":"ao-papa-o-relato-das-atrocidades-sofridas-no-leste-da-rdc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/ao-papa-o-relato-das-atrocidades-sofridas-no-leste-da-rdc\/","title":{"rendered":"Ao Papa, o relato das atrocidades sofridas no Leste da RDC"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\" style=\"text-align: justify;\">No encontro realizado na tarde desta quarta-feira na Nunciatura Apost\u00f3lica em Kinshasa, os testemunhos de viol\u00eancia brutal e inimagin\u00e1vel contra meninos e meninas que hoje, com a ajuda da Igreja local, come\u00e7aram a viver novamente. Eles dizem ao Papa Francisco: n\u00f3s s\u00f3 queremos a paz, e se comprometem a perdoar seus algozes e a viver em esp\u00edrito de fraternidade e reconcilia\u00e7\u00e3o para construir um futuro melhor em seu pa\u00eds.<\/div>\n<div class=\"title__separator\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Adriana Masotti &#8211; Cidade do Vaticano<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Butembo-Beni, Goma, Bunia, Bukavu e Uvira, destas localidades localizadas na parte oriental da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, devastadas pela viol\u00eancia sem fim por parte de v\u00e1rios grupos armados, s\u00e3o provenientes as 4 v\u00edtimas da viol\u00eancia que na tarde desta quarta-feira na Nunciatura Apost\u00f3lica em Kinshasa, ofereceram seu testemunho ao Papa Francisco.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O testemunho de um jovem e outros adolescentes<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro a falar \u00e9 Ladislas Kambale Kombi, de 17 anos. Seu relato \u00e9 assustador: ele diz que seu irm\u00e3o mais velho foi morto em circunst\u00e2ncias ainda desconhecidas, e seu pai tamb\u00e9m atingido &#8220;por homens com cal\u00e7as de treinamento e camisas militares&#8221;. Ele j\u00e1 viu tudo e n\u00e3o consegue mais dormir. Esses homens cortaram seu pai em peda\u00e7os, &#8220;depois sua cabe\u00e7a decepada foi colocada em uma cesta&#8221; e antes de partir levaram sua m\u00e3e que nunca mais voltou. Assim ele e suas duas irm\u00e3zinhas ficaram sozinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 dif\u00edcil entender tamanha maldade, essa brutalidade quase animal\u201d, afirma e apresenta ao Papa outros jovenzinhos que, como ele, experimentaram pessoalmente a viol\u00eancia e diz: \u201cSeguindo o acompanhamento espiritual e psicossocial de nossa Igreja local, eu e as outras crian\u00e7as que est\u00e3o aqui perdoamos nossos algozes. Eis porque coloco diante da Cruz de Cristo vencedor o fac\u00e3o igual ao que matou meu pai\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m L\u00e9onie Matumaini, que frequenta a escola prim\u00e1ria, que colocar junto \u00e0 cruz uma faca &#8220;igual \u00e0quela que matou todos os membros da minha fam\u00edlia na minha presen\u00e7a e que me foi dada pelos carn\u00edfices&#8221;. Ent\u00e3o Kambale Kakombi Fiston, 13 anos: &#8220;Eu perd\u00f4o os carn\u00edfices que me sequestraram por 9 meses. Pe\u00e7o a Cristo vitorioso na cruz que toque o cora\u00e7\u00e3o dos algozes para que libertem as outras crian\u00e7as que ainda est\u00e3o no mato&#8221;.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Uma menina de Goma: estuprada por um ano e sete meses<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho de Bijoux Mukumbi Kamala \u00e9 lido por Kissa Catarina, porque Bijoux, que est\u00e1 pr\u00f3xima dela, n\u00e3o l\u00ea bem o franc\u00eas. Tem 17 anos. Em 2020, enquanto ia ao rio buscar \u00e1gua com outras meninas, encontrei alguns rebeldes. \u201cEles nos levaram para a floresta. Cada um dos rebeldes escolhia quem quisesse. O comandante me queria. Ele me violentou como um animal. Foi um sofrimento atroz. Eu permaneci praticamente como sua mulher. Ele me violentava v\u00e1rias vezes ao dia, quando queria, por v\u00e1rias horas. E isso durou 1 ano e 7 meses.\u201d Depois de todo esse tempo, um golpe de sorte: a oportunidade de\u00a0fugir com uma amiga&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDessa experi\u00eancia &#8211; continua seu testemunho &#8211; engravidei. Tive meninas g\u00eameas, que nunca conhecer\u00e3o o pai. As outras amigos que foram raptadas comigo naquele dia nunca mais voltaram.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Denuncia os assassinatos perpetrados em todo o lado por dezenas de grupos armados, as fam\u00edlias for\u00e7adas a deslocar-se, as crian\u00e7as deixadas \u00f3rf\u00e3s, exploradas nas minas ou como soldados, as meninas e mulheres violadas e torturadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSantidade, em tudo isto a Igreja continua a ser o \u00fanico ref\u00fagio que cura as nossas feridas e consola os nossos cora\u00e7\u00f5es por meio dos seus numerosos servi\u00e7os de apoio e conforto\u201d. Sob a cruz de Cristo, Bijoux quer colocar uma esteira &#8220;s\u00edmbolo da minha mis\u00e9ria de mulher violentada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas palavras s\u00e3o tocantes quando ela pede ao Senhor que a perdoe &#8220;pelas condena\u00e7\u00f5es que fiz em meu cora\u00e7\u00e3o contra esses homens&#8221; e de perdoar seus estupradores e os levar &#8220;a desistir de infligir sofrimento desnecess\u00e1rios \u00e0s pessoas&#8221;. Junto \u00e0 esteira coloca uma lan\u00e7a &#8220;igual \u00e0quela com que foram perfurados os peitos de muitos de nossos irm\u00e3os. Que Deus nos perdoe a todos &#8211; conclui &#8211; e nos ensine a respeitar a vida humana&#8221;.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Uma v\u00edtima de Bunia: s\u00f3 precisamos de paz<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a vez de um sacerdote, padre Guy-Robert Mandro Deholo, mutilado nos dedos de uma das m\u00e3os, apresentar o testemunho que D\u00e9sir\u00e9 Dhetsina havia escrito antes de desaparecer h\u00e1 alguns meses, do qual n\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias. Era um sobrevivente de um ataque a um acampamento de deslocados na noite de 1\u00ba de fevereiro de 2022 por um grupo armado que matou 63 pessoas, incluindo 24 mulheres e 17 crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVi a ferocidade: pessoas cortadas como carne de a\u00e7ougue, mulheres estripadas, homens decapitados\u201d. Ele fala de saques cont\u00ednuos, assassinatos, sequestros naquele campo, &#8220;parece &#8211; escreve &#8211; que a execu\u00e7\u00e3o de um plano de exterm\u00ednio, de aniquila\u00e7\u00e3o f\u00edsica, moral e espiritual, continua todos os dias&#8221;. E manifesta a necessidade de paz, a vontade de regressar \u00e0s suas aldeias, de reconstruir as suas casas, de voltar a cultivar a terra, \u201clonge do barulho das armas! Queremos viver com dignidade como filhos e filhas de Deus\u201d. Em seu nome e de outros desabrigados, alguns fac\u00f5es e martelos s\u00e3o colocados sob a cruz &#8220;para que Cristo nos perdoe o sangue derramado injustamente&#8221; e lhes proporcione &#8220;momentos de paz e tranquilidade em que todos tenham bons sentimentos um pelo outro\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">O sofrimento de uma prov\u00edncia inteira: inunda\u00e7\u00f5es e confrontos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00faltimo testemunho \u00e9 de Emelda M&#8217;Karhungulu de Bugobe, uma cidade a sudoeste de Bukavu. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o fala franc\u00eas, ent\u00e3o \u00e9 Alm\u00e9e quem l\u00ea para ela. Ela tinha 16 anos quando uma noite em 2005 os rebeldes invadiram sua aldeia &#8220;fazendo tantos ref\u00e9ns quanto podiam, fazendo-os carregar as coisas que haviam sido saqueadas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos homens mortos no caminho, mulheres levadas para o parque Kahuzi-Biega. A narrativa testemunha uma viol\u00eancia horr\u00edvel: \u201cFui mantida como escrava sexual e abusada por tr\u00eas meses. Todos os dias, cinco a dez homens abusavam de cada uma de n\u00f3s. Fizeram-nos comer o fub\u00e1 e a carne dos homens mortos. \u00c0s vezes eles misturavam cabe\u00e7as de pessoas com carne de animais. Este costumava ser o nosso alimento di\u00e1rio. Qualquer um que se recusasse a com\u00ea-lo era cortado em peda\u00e7os\u201d. At\u00e9 o dia em que Emelda conseguiu escapar ao buscar \u00e1gua no rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emelda p\u00f4de ir para casa e receber tratamento. \u201cAtrav\u00e9s da anima\u00e7\u00e3o da Igreja tive que assumir e aceitar a minha situa\u00e7\u00e3o. (\u2026) Hoje vivo bem como uma mulher realizada que aceita o seu passado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o relato n\u00e3o se det\u00e9m no seu sofrimento pessoal, denuncia que toda a sua prov\u00edncia \u201c\u00e9 um lugar de sofrimento e l\u00e1grimas\u201d. E diante do Papa recorda as v\u00edtimas das cheias dos rios Mulongwe e Kavimvira em abril de 2020 \u201cque perderam tudo devido \u00e0 eros\u00e3o selvagem\u201d. 60 pessoas ficaram sob a lama das enchentes, 45 pessoas feridas, 3.500 casas destru\u00eddas, 7.700 fam\u00edlias sem teto. &#8220;Os sobreviventes\u00a0vivem em campos de desastre onde dividem uma tenda com 3 ou 4 fam\u00edlias, ou seja, v\u00e1rias dezenas de pessoas. (\u2026) A prostitui\u00e7\u00e3o est\u00e1 crescendo nesses ambientes de vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas isso n\u00e3o \u00e9 tudo: devido \u00e0s guerras entre diferentes grupos \u00e9tnicos desde 2019, \u201cnas terras altas dos territ\u00f3rios de Fizi, Mwenga\/Itombwe e Uvira, mais de 346.000 pessoas foram deslocadas\u201d. Ao Papa Francisco expressa a alegria e a gratid\u00e3o de todas as \u201cv\u00edtimas de atrocidades e outros desastres\u201d por terem querido empreender este caminho e manifestar a sua proximidade. O gesto que faz \u00e9 colocar algumas roupas dos homens armados sob a cruz &#8220;que ainda nos assustam&#8221;. E conclui: \u201cQueremos um futuro diferente. Queremos deixar esse passado sombrio para tr\u00e1s e poder construir um belo futuro. Pedimos justi\u00e7a e paz. Perdoemos aos nossos algozes tudo o que fizeram e pe\u00e7amos ao Senhor a gra\u00e7a de uma conviv\u00eancia pac\u00edfica, humana e fraterna\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Um gesto de reconcilia\u00e7\u00e3o e um ato de compromisso<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o discurso do Papa, as v\u00edtimas da viol\u00eancia que deram seu testemunho recitaram juntas um ato de compromisso com o qual desejam expressar seu desejo de ser um sinal de paz e reconcilia\u00e7\u00e3o para seu pa\u00eds:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Senhor, nosso Deus, de quem recebemos nosso ser e a vida, hoje colocamos os instrumentos de nosso sofrimento sob a Cruz de Seu Filho. Prometemos perdoar uns aos outros e evitar qualquer caminho de guerra e conflito para resolver as diferen\u00e7as. Pedimos-te, Pai, a tua gra\u00e7a, de fazer do nosso pa\u00eds um lugar de paz e alegria, de amor e paz onde todos se amam e convivem fraternalmente.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, pedem ao Senhor que os acompanhe sempre e ao Papa Francisco, que os aben\u00e7oou no final do encontro, para reze por eles.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No encontro realizado na tarde desta quarta-feira na Nunciatura Apost\u00f3lica em Kinshasa, os testemunhos de viol\u00eancia brutal e inimagin\u00e1vel contra meninos e meninas que hoje, com a ajuda da Igreja local, come\u00e7aram a viver novamente. 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