{"id":78142,"date":"2022-12-16T09:46:25","date_gmt":"2022-12-16T12:46:25","guid":{"rendered":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=78142"},"modified":"2022-12-19T12:47:14","modified_gmt":"2022-12-19T15:47:14","slug":"o-concilio-vaticano-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-concilio-vaticano-ii\/","title":{"rendered":"O Conc\u00edlio Vaticano II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na ter\u00e7a-feira, 11 de outubro de 2022, mem\u00f3ria de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, o Papa Francisco presidiu na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro a Santa Missa pelo 60\u00b0 anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio Vaticano II. Em sua homilia, entre outros, convidou a redescobrirmos o Conc\u00edlio, &#8220;para devolver a primazia a Deus, ao essencial&#8221;, recordando que o pedido do Senhor a Pedro para apascentar as suas ovelhas, referia-se n\u00e3o s\u00f3 a algumas, mas a todas, &#8220;porque ama a todas; a todas designa, afetuosamente, como \u00abminhas\u00bb. O bom Pastor v\u00ea e quer o seu rebanho unido, sob a guia dos Pastores que lhe deu. (Vatican News). No dia 8 de dezembro \u00faltimo, solenidade da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Maria Sant\u00edssima, comemoramos os 57 anos do encerramento do Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965). Estamos vivendo um momento especial em que \u00e9 necess\u00e1rio aprofundarmos a beleza desse Conc\u00edlio Ecum\u00eanico. Em nosso \u201ccurso para os Bispos\u201d durante alguns anos aprofundamos os v\u00e1rios documentos conciliares escutando as confer\u00eancias de especialistas e autoridades dos dicast\u00e9rios. Tamb\u00e9m, como lembran\u00e7a do final deste ano entreguei para cada seminarista de nossa Arquidiocese o livro do grande te\u00f3logo D. Cirilo Folch Gomes, OSB com o resumo do Conc\u00edlio Vaticano comemorando este tempo importante da hist\u00f3ria, numa edi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do nosso Regional Leste 1. Nestes tempos de tanta confus\u00e3o \u00e9 muito importante nos recolocarmos diante das mo\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito Santo que moveu a igreja nessa dire\u00e7\u00e3o na caminhada conciliar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esse foi o maior evento da vida da Igreja no s\u00e9culo XX e que, por isso, merece nossa aten\u00e7\u00e3o serena e objetiva \u00e0 luz de importantes declara\u00e7\u00f5es dos Papas que o vivenciaram de dentro: S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, o iniciador, S\u00e3o Paulo VI, o concluinte, o Beato Jo\u00e3o Paulo I, bispo de Vittorio Veneto (It\u00e1lia), S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, arcebispo de Crac\u00f3via (Pol\u00f4nia) e Bento XVI, jovem sacerdote e te\u00f3logo, na condi\u00e7\u00e3o de perito no Vaticano II. E agora atualizadas com as reflex\u00f5es do Papa Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, no Natal de 1961, observando os grandes problemas da humanidade em n\u00edvel geopol\u00edtico e tamb\u00e9m a pobreza religiosa das pessoas, decidiu, ouvido o parecer de seus irm\u00e3os no episcopado, convocar, por meio da constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Humanae salutis<\/em> (<em>HS<\/em>), o Conc\u00edlio Vaticano II. S\u00e3o suas palavras: \u201cDesde quando subimos ao supremo pontificado, n\u00e3o obstante nossa indignidade e por um des\u00edgnio da Provid\u00eancia, sentimos logo o urgente dever de conclamar os nossos filhos para dar \u00e0 Igreja a possibilidade de contribuir mais eficazmente na solu\u00e7\u00e3o dos problemas da idade moderna. Por este motivo, acolhendo como vinda do alto uma voz \u00edntima de nosso esp\u00edrito, julgamos estar maduro o tempo para oferecermos \u00e0 Igreja cat\u00f3lica e ao mundo o dom de um novo conc\u00edlio ecum\u00eanico, em acr\u00e9scimo e continua\u00e7\u00e3o \u00e0 s\u00e9rie dos vinte grandes conc\u00edlios, realizados ao longo dos s\u00e9culos, como uma verdadeira provid\u00eancia celestial para incremento da gra\u00e7a na alma dos fi\u00e9is e para o progresso crist\u00e3o\u201d (<em>HS<\/em>, 6). Faz-se importante notar que a reta inten\u00e7\u00e3o do Papa santo era a de oferecer \u00e0 Igreja, por gra\u00e7a de Deus, o 21\u00ba Conc\u00edlio Ecum\u00eanico, ou seja, uma assembleia de bispos do mundo todo (= ecum\u00eanico) a fim de, em continuidade com toda Tradi\u00e7\u00e3o de 20 s\u00e9culos, apresentar, como um grande meio de avan\u00e7o espiritual, aos homens e mulheres do nosso tempo uma palavra do Magist\u00e9rio vivo da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E o mesmo Pont\u00edfice, no documento j\u00e1 citado, convoca, ent\u00e3o, o Conc\u00edlio: \u201cDepois de ouvir o parecer de nossos irm\u00e3os os cardeais da santa Igreja romana, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos santos ap\u00f3stolos Pedro e Paulo e com a nossa, anunciamos, indicamos e convocamos para o pr\u00f3ximo ano de 1962, o ecum\u00eanico e geral conc\u00edlio, que se celebrar\u00e1 na Bas\u00edlica Vaticana, nos dias que ser\u00e3o fixados segundo a oportunidade que a boa Provid\u00eancia quiser nos oferecer\u201d (<em>HS<\/em>, 18). \u00c9, portanto, aquela assembleia conciliar v\u00e1lida e l\u00edcita, pois os padres conciliares agiram <em>cum Petro et sub Petro<\/em>, isto \u00e9, junto com Pedro e sob a dire\u00e7\u00e3o de Pedro, o Papa, a quem Nosso Senhor confiou as chaves da Igreja, prometeu assist\u00eancia infal\u00edvel (cf. Mt 16,18-19) \u2013 assim como a prometeu, depois, aos 11 reunidos junto com Pedro (cf. Mt 18,18) \u2013 e mandou confirmar seus irm\u00e3os na f\u00e9 (cf. Lc 22,39-40). E o Conc\u00edlio foi aberto, se realizou e concluiu-se por outro santo, S\u00e3o Paulo VI, em 7\/8 de dezembro de 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em seu <em>Discurso<\/em> conclusivo da magna assembleia conciliar, o Papa S\u00e3o Paulo VI assegurou que o Conc\u00edlio deixou n\u00e3o s\u00f3 a imagem de uma Igreja viva e unida, \u201cmas tamb\u00e9m o patrim\u00f4nio da sua doutrina e dos seus mandamentos, isto \u00e9, o dep\u00f3sito que Cristo lhe confiou; dep\u00f3sito que no decurso dos tempos os homens sempre meditaram, transformaram, por assim dizer, no pr\u00f3prio sangue e exprimiram de algum modo no seu viver; dep\u00f3sito que agora, aclarado em muitos pontos, foi estabelecido e ordenado na sua integridade. Este dep\u00f3sito, vivo pela divina virtude da verdade e da for\u00e7a que o constituem, deve ser considerado apto para vivificar todo o homem que o acate piedosamente e dele alimente a sua pr\u00f3pria vida\u201d. E continua a dizer que o Vaticano II, mesmo se voltando aos problemas candentes do s\u00e9culo XX e de uma an\u00e1lise da Igreja em si mesma, n\u00e3o deve ser, no campo religioso, acusado de relativista. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 a f\u00e9 cat\u00f3lica que lhe d\u00e1 a t\u00f4nica: \u201cOs documentos conciliares, principalmente os que tratam da Revela\u00e7\u00e3o divina, da liturgia, da Igreja, dos sacerdotes, dos religiosos, dos leigos, permitem ver diretamente esta primordial inten\u00e7\u00e3o religiosa e demonstram qu\u00e3o l\u00edmpida, fresca e rica \u00e9 a veia espiritual que o vivo contato com Deus vivo faz brotar no seio da Igreja e correr sobre as \u00e1ridas glebas da nossa terra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E mais: o Conc\u00edlio, assumindo uma postura otimista, se op\u00f4s aos erros sem, no entanto, atacar o errante: \u201cPrecisamos de reconhecer que este nosso Conc\u00edlio se deteve mais nos aspectos felizes do homem que nos desditosos. Nisto ele tomou uma atitude claramente otimista. Uma corrente de interesse e de admira\u00e7\u00e3o saiu do Conc\u00edlio sobre o mundo atual. Rejeitaram-se os erros, como a pr\u00f3pria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que em vez de diagn\u00f3sticos desalentadores, se dessem rem\u00e9dios cheios de esperan\u00e7a; para que o Conc\u00edlio falasse ao mundo atual n\u00e3o com press\u00e1gios funestos, mas com mensagens de esperan\u00e7a e palavras de confian\u00e7a. N\u00e3o s\u00f3 respeitou mas tamb\u00e9m honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas, e depois de os purificar, aprovou todos os seus esfor\u00e7os\u201d. Temos aqui a m\u00e1xima de Santo Agostinho de Hipona (\u2020 430) que convida a amar o homem errante, mas a rejeitar os seus v\u00edcios: \u201cCum dilectione hominum et odio vitiorum\u201d (<em>Carta 211<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ainda que mais pastoral que doutrinal, o Conc\u00edlio Vaticano II merece acatamento: \u201cO magist\u00e9rio da Igreja, embora n\u00e3o tenha querido pronunciar-se com senten\u00e7as dogm\u00e1ticas extraordin\u00e1rias sobre nenhum cap\u00edtulo doutrinal, prop\u00f4s, todavia, o seu ensinamento autorizado acerca de muitas quest\u00f5es que hoje comprometem a consci\u00eancia e a atividade do homem. Por assim dizer, a Igreja baixou a dialogar com o homem; e conservando sempre a sua autoridade e a sua virtude, adotou a maneira de falar acess\u00edvel e amiga que \u00e9 pr\u00f3pria da caridade pastoral. Quis ser ouvida e entendida pelos homens. Por isso, n\u00e3o se preocupou s\u00f3 com falar \u00e0 intelig\u00eancia do homem, mas exprimiu-se no modo hoje usado na conversa\u00e7\u00e3o corrente, em que o recurso \u00e0 experi\u00eancia da vida e o emprego dos sentimentos cordiais d\u00e3o mais for\u00e7a para atrair e para convencer. Isto \u00e9, a Igreja falou aos homens de hoje, tais quais eles s\u00e3o\u201d. O grande protagonista do Conc\u00edlio, n\u00e3o obstante as falhas de cada ser humano presente, foi, nas palavras do Beato Albino Luciani, Papa Jo\u00e3o Paulo I: \u201c\u2018O Esp\u00edrito Santo! Est\u00e1 presente nos trabalhos com sua assist\u00eancia para evitar erros e desvios doutrinais\u2019. Uma assist\u00eancia que ir\u00e1 aos membros do Conc\u00edlio coletivamente como \u2018l\u00edderes da Igreja, n\u00e3o como homens individuais\u2019 que \u2018permanecer\u00e3o homens com seu temperamento\u2019\u201d (Andrea Tornielli. <em>O Conc\u00edlio de Albino Luciani<\/em>. Vaticannews, 26\/08\/2020). Exato! Deus n\u00e3o abandona a Sua Igreja, mas, ao contr\u00e1rio, a assiste, de modo ininterrupto, at\u00e9 o fim dos tempos (cf. Mt 28,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Importa ainda, neste breve percurso sobre alguns pontos do Conc\u00edlio, ouvir tamb\u00e9m o Papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II ao dizer, em 27 de fevereiro de 2000, que a grande assembleia conciliar s\u00f3 pode ser bem entendida na perspectiva da f\u00e9 e requer aprofundamento a fim de n\u00e3o ser parcializado ou, qui\u00e7\u00e1, instrumentalizado. Afirma o Papa: \u201cSem d\u00favida, ele [o Conc\u00edlio] exige um conhecimento cada vez mais profundo. Todavia, no interior desta din\u00e2mica \u00e9 necess\u00e1rio que n\u00e3o se perca de vista a inten\u00e7\u00e3o genu\u00edna dos Padres conciliares; pelo contr\u00e1rio, esta deve ser recuperada\u00a0<em>superando as interpreta\u00e7\u00f5es desconfiadas e parciais<\/em>\u00a0que impediram de exprimir da melhor forma a novidade do Magist\u00e9rio conciliar. A Igreja conhece desde sempre\u00a0<em>as regras<\/em>\u00a0para uma reta hermen\u00eautica dos conte\u00fados do dogma. Trata-se de regras que se colocam no\u00a0<em>interior do tecido da f\u00e9<\/em>\u00a0e n\u00e3o fora dele. Interpretar o Conc\u00edlio pensando que ele comporta uma ruptura com o passado, enquanto na realidade\u00a0<em>ele se p\u00f5e na linha da f\u00e9 de sempre<\/em>, \u00e9 decididamente desviar-se do caminho. Aquilo que foi acreditado por \u2018todos, sempre e em cada lugar\u2019 \u00e9 a aut\u00eantica novidade que permite a cada \u00e9poca sentir-se iluminada pela palavra da Revela\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus Cristo\u201d (ver tamb\u00e9m: S\u00e3o Vicente de L\u00e9rin. <em>Commonitorium<\/em>, XXIII).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Importa notar, em S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, o que tamb\u00e9m, com muita propriedade, o Papa Bento XVI, hoje em\u00e9rito, afirma: o Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II \u00e9 o 21\u00ba da hist\u00f3ria da Igreja e est\u00e1 em plena conformidade com a doutrina bimilenar da Igreja, doutrina que ele n\u00e3o rejeita, mas, de um modo novo e pr\u00f3prio, refor\u00e7a. Eis as firmes palavras de Bento XVI em 22 de dezembro de 2005: \u201cPor que a recep\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio, em grandes partes da Igreja, at\u00e9 agora teve lugar de modo t\u00e3o dif\u00edcil? Pois bem, tudo depende da justa interpreta\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio ou, como dir\u00edamos hoje, da sua correta hermen\u00eautica, da justa chave de leitura e de aplica\u00e7\u00e3o. Os problemas da recep\u00e7\u00e3o derivaram do fato de que duas hermen\u00eauticas contr\u00e1rias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confus\u00e3o, a outra, silenciosamente, mas de modo cada vez mais vis\u00edvel, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpreta\u00e7\u00e3o que gostaria de definir como <em>hermen\u00eautica da descontinuidade e da ruptura<\/em>; n\u00e3o raro, ela p\u00f4de valer-se da simpatia dos <em>mass media<\/em> e tamb\u00e9m de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, h\u00e1 a <em>hermen\u00eautica da reforma<\/em>, da renova\u00e7\u00e3o na continuidade do \u00fanico sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; \u00e9 um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo, por\u00e9m, sempre o mesmo, \u00fanico sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermen\u00eautica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pr\u00e9-conciliar e a Igreja p\u00f3s-conciliar. Ela afirma que os textos do Conc\u00edlio como tais ainda n\u00e3o seriam a verdadeira express\u00e3o do esp\u00edrito do Conc\u00edlio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E segue: \u201c\u00c0 hermen\u00eautica da descontinuidade op\u00f5e-se a hermen\u00eautica da reforma, como antes as apresentou o Papa Jo\u00e3o XXIII, no seu discurso de abertura do Conc\u00edlio, em 11 de outubro de 1962, e, posteriormente o Papa Paulo VI, no discurso de encerramento, a 7 de dezembro de 1965. [&#8230;] Neste processo de novidade na continuidade, dev\u00edamos aprender a compreender mais concretamente do que antes que as decis\u00f5es da Igreja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas contingentes, por exemplo, certas formas concretas de liberalismo ou de interpreta\u00e7\u00e3o liberal da B\u00edblia deviam necessariamente ser elas mesmas acidentais, justamente porque referidas a uma determinada realidade em si mesma mut\u00e1vel. Era preciso aprender a reconhecer que, em tais decis\u00f5es, somente os princ\u00edpios exprimem o aspecto duradouro, permanecendo subjacente e motivando a decis\u00e3o a partir de dentro. N\u00e3o s\u00e3o, por sua vez, igualmente permanentes as formas concretas, que dependem da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e podem, portanto, ser submetidas a muta\u00e7\u00f5es. Assim, as decis\u00f5es de fundo podem permanecer v\u00e1lidas, enquanto as formas da sua aplica\u00e7\u00e3o a estes novos podem mudar. Assim, por exemplo, se a liberdade religiosa for considerada como express\u00e3o da incapacidade do homem para encontrar a verdade e, consequentemente, se torna canoniza\u00e7\u00e3o do relativismo, por conseguinte, ela, por necessidade social, foi elevada de modo impr\u00f3prio a n\u00edvel metaf\u00edsico e est\u00e1 privada do seu verdadeiro sentido, com a consequ\u00eancia de n\u00e3o poder ser aceita por quem cr\u00ea que o homem \u00e9 capaz de conhecer a verdade de Deus e, com base na dignidade interior da verdade, est\u00e1 ligado a tal conhecimento. Uma coisa completamente diversa \u00e9, por\u00e9m, considerar a liberdade de religi\u00e3o como uma necessidade derivante da conviv\u00eancia humana, ali\u00e1s, como uma consequ\u00eancia intr\u00ednseca da verdade que n\u00e3o pode ser imposta do exterior, mas deve ser feita pelo pr\u00f3prio homem somente mediante o processo do convencimento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Papa Francisco, ao comemorar 60 anos da abertura do Conc\u00edlio Vaticano II, assim concluiu sua homilia (<em>Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, ter\u00e7a-feira, 11 de outubro de 2022, Mem\u00f3ria de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, Papa):<\/em> \u201cN\u00f3s Vos damos gra\u00e7as, Senhor, pelo dom do Conc\u00edlio. V\u00f3s que nos amais, livrai-nos da presun\u00e7\u00e3o da autossufici\u00eancia e do esp\u00edrito da cr\u00edtica mundana. Livrai-nos da autoexclus\u00e3o da unidade. V\u00f3s, que nos apascentais com ternura, fazei-nos sair dos recintos da autorreferencialidade. V\u00f3s que nos quereis rebanho unido, livrai-nos do artif\u00edcio diab\u00f3lico das polariza\u00e7\u00f5es, dos \u00abismos\u00bb. E n\u00f3s, vossa Igreja, com Pedro e como Pedro Vos dizemos: \u00abSenhor, V\u00f3s sabeis tudo; bem sabeis que Vos amamos\u00bb (cf.\u00a0<em>Jo<\/em>\u00a021, 17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois destas observa\u00e7\u00f5es pontuais sobre o Conc\u00edlio Vaticano II que foi, sem d\u00favida, em sua reta interpreta\u00e7\u00e3o, um presente de Deus \u00e0 Igreja, reafirmamos o nosso desejo de, com a gra\u00e7a de Deus, viv\u00ea-lo e ensin\u00e1-lo no nosso dia a dia. Recordo da \u00e9poca que come\u00e7ou o Conc\u00edlio. Estava na escola secund\u00e1ria e o professor de hist\u00f3ria comentava sobre a import\u00e2ncia de um evento desse em nosso tempo. Agora, passados os anos, somos chamados a valorizar e aprofundar aquilo que o Esp\u00edrito Santo nos diz. Temos previs\u00f5es de continuar com as v\u00e1rias confer\u00eancias virtuais e cursos presenciais sobre o tema nestes tempos, assim como o despertar o reto conhecimento de t\u00e3o grande acontecimento em nossa hist\u00f3ria contempor\u00e2nea. Exorto a que fa\u00e7amos mais ainda nessa dire\u00e7\u00e3o para que as novas gera\u00e7\u00f5es possam se aproximar de t\u00e3o grandes riquezas. Temos certeza de que o Esp\u00edrito Santo que suscitou no cora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII a convoca\u00e7\u00e3o do mesmo ir\u00e1 continuar conduzindo a Igreja nestes tempos confusos. Diante da pergunta do Senhor colocado pelo Papa Francisco no in\u00edcio de sua homilia: \u201c\u00abAmas-Me?\u00bb \u00e9\u00a0a primeira frase que Jesus dirige a Pedro, no Evangelho que ouvimos (<em>Jo<\/em>\u00a021, 15), ao passo que a \u00faltima ser\u00e1 \u00abapascenta as minhas ovelhas\u00bb (21, 17). No anivers\u00e1rio da abertura do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/index_po.htm\">Conc\u00edlio Vaticano II<\/a>, sentimos dirigidas tamb\u00e9m a n\u00f3s, a n\u00f3s como Igreja, estas palavras do Senhor:\u00a0<em>Amas-Me?<\/em>\u00a0<em>Apascenta as minhas ovelhas<\/em>\u201d, seja a nossa resposta: Senhor, tu sabes tudo, tudo sabes que eu Te amo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ter\u00e7a-feira, 11 de outubro de 2022, mem\u00f3ria de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, o Papa Francisco presidiu na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro a Santa Missa pelo 60\u00b0 anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio Vaticano II. 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